Ela estava certa, aquele havia sido o erro da vida de Magnus, e ele conseguia reconhecer isso, tarde demais, mas conseguia. As pálpebras pesavam, e ele começava a ver tudo mais embaçado do que antes, alguns piscar de olhos e lá estavam as lágrimas caindo e rolando pelo seu rosto. Não era de chorar, contava nos dedos as vezes em que chorou de verdade. Quando viu o pai sendo agressivo com os irmãos mais novos, quando tivera que deixar sua família sem a menor ideia do que seria deles, e quando Osíris simplesmente lhe deu as costas, como se ele fosse uma decepção. Agora tinha mais aquele momento com Maddie, para adicionar a sua lista de choros. “Por favor, catnip, me perdoa.”. tornou a repetir, a voz embargada fazia com que as palavras saíssem com alguma dificuldade. A mão seguia deslizando e apertando com carinho o braço dela, como se desejasse sentir que aquilo era real, que ela estava realmente ali, despedaçada na sua frente. Não era um sonho, infelizmente, não era. O mudar de tom, o deixou atônito, surpreso e um tanto assustado. Conhecia Madelaine, sabia que ela costumava ser volátil, mas nunca o fizera com ele. Sempre foram uma constante, se conheceram da forma mais aleatória possível, se apaixonaram desesperadamente e ela sempre foi a sua pessoa. A mais leal, a mais fiel, a mais presente. O completo oposto de tudo que Magnus era. Suspirou e soluçou cansado, se dando parcialmente por vencido. Se fosse uma mensagem, um bilhete, uma roupa, qualquer outra coisa que Maddie tivesse encontrado, talvez ele tivesse chances. Mas ela viu, e depois daquilo, nada mais seria como antes. “Nenhuma. Só você.”. E essa foi a primeira verdade que ele conseguiu dizer na noite. Poderia ser um canalha, não valer muita coisa, mas ele não dormia com as outras. Considerava dormir um ato de vulnerabilidade e confiança, coisa que ele só se permitia demonstrar para e com ela. Ainda segurava firme a mão dela contra seu peito desnudo, lamentando-se por ter tempo apenas de colocar a calça. Os olhos tentavam buscar os dela, e se antes as lágrimas saiam com alguma relutância, agora elas corriam livres pela face do Lightwood, pois parecia que seu controle estava atrelado ao dela. Bastou que Maddie cedesse a dor, para que ele fizesse o mesmo. “Preferia que socasse minha cara, que me quebrasse em dois, em mil. Preferia qualquer dor física, do que isso que estou sentindo.”. confessou, sentindo-a desvencilhar dele, e até tentou segurar, mas não conseguiu. Seguiu seus passos como um cão abandonado, no instante em que ela se sentou, ele se ajoelhou a sua frente. Os braços envolvendo as pernas, não conseguia manter as mãos longe dela, como se precisasse daquilo para manter um pouco de controle, um pingo de sanidade. Naquela noite Magnus descobriu que não era só a voz de Maddie, cantarolando uma música em seu ouvido, que era capaz de silenciar as vozes. A discussão e a dor, conseguiam fazer o mesmo. Quase como se néftis assistisse de algum lugar o sofrimento do semideus, e decidisse lhe dar uma trégua. “Tudo foi verdade, Maddie. Absolutamente tudo.”. todos os planos de viagens, sonhos futuros, o que fariam daqui um mês ou um ano. Magnus não mentia sobre o desejo de estar com ela no amanhã. “Eu fui estupido, Maddie. Sei que não tem desculpas, mas também sei que somos bem mais que isso. Me dá outra chance, por favor.”.
Fechou os olhos como quem tenta reprimir as lágrimas, ao ouvir o catnip. O apelido que antes lhe arrancava um sorriso, agora lhe apertava o peito. Ouvi-lo confirmar que nenhuma outra havia sido parceira como ela causou uma confusão sobre o que ela estava sentindo. Era quase um alívio saber que nenhuma outra significou tanto na vida dele, o que talvez pudesse fazê-lo enxergar melhor ainda o que ele havia perdido. Ao mesmo tempo, era devastador saber que nem mesmo se esforçando para ser a melhor das namoradas havia sido o suficiente para ele querer apenas ela. Queria voltar a gritar e dizer tudo isso, perguntar as razões que o levaram a isso, e por que ela havia sido insuficiente para ele. Mas sentia-se fraca, como se tivesse gastado todas suas energias jogando tudo longe, rasgando as fotos e gritando há alguns minutos. Ao mesmo tempo em que tentava convencer a si mesma que o erro dele não era culpa dela, mas era difícil acreditar que os outros estavam certos quando diziam que ele era um canalha e que iria lhe partir o coração. “ ━━ Então houve outras mesmo. ━━ ” Foi o primeiro pensamento que ela conseguiu dizer em voz alta, uma constatação que ela odiou ter. Não respondeu, apenas concordou internamente que também preferia todos os machucados que já teve em batalhas e treinos do que aquilo que sentia agora. O choro dele parecia desesperado, honesto, mas queria forçar a si mesma a não acreditar que era real. Como poderia ser, quando há alguns minutos ele estava com aquele sorriso safado no rosto, claramente feliz de estar com outra mulher em sua cama? Aquele sorriso que Madelaine acreditou ser apenas dela pelos últimos três anos. Sentia os braços dele envolverem suas pernas, mas não conseguia se mover. Talvez porque quisesse mesmo senti-lo perto, relembrar os momentos bons e superar aquela situação horrorosa que destruiria a sua concepção de confiança, de amor, de comprometimento. Talvez fosse porque estivesse sem forças físicas. Sentia-se fraca, como se estivesse vivendo todos os estágios do luto pós término de uma vez, intensa como era. Ainda com os cabelos bagunçados e as bochechas inundadas por lágrimas, ela tentava forçar os pensamentos para qualquer outro lugar, para se recompor e sair dali, mas não conseguia. Nada tirava da sua mente a cena dos segundos mais longos de sua vida, o corpo nu da mulher sobre o dele, as mãos que ela amava nas coxas de outra que não as dela. Pensar nisso fez ela sentir novamente aquele asco de estar sendo tocada por ele, então empurrou-o com rispidez e levantou-se da cama. Respirou o mais fundo que conseguiu, limpando as lágrimas e ajeitando os fios bagunçados, como uma forma de dizer um “basta” a si mesma, não iria mais chorar. Pelo menos tentaria. Maddie caminhou até ele, olhando-o fixamente nos olhos - a lembrança de mirá-lo tão de perto e sentir conforto era quase distante - e falou com a voz mais firme e raivosa. “ ━━ Eu nunca vou te dar outra chance de fazer de novo isso comigo. Ouviu? Eu nunca mais quero sentir isso que você me fez sentir. A humilhação, a dúvida se eu fiz algo de errado ou se fui boa o suficiente, a confusão, a insegurança... ━━ ” Narrou algumas, sem saber que no futuro ainda teria de lidar com o trauma de confiar em alguém novamente. A atitude irresponsável dele havia gerado uma série de impactos negativos que, se Maddie não fosse tão cabeça dura e aceitasse fazer terapia, lhe renderia várias sessões falando sobre. “ ━━ Eu quero você longe de mim. ━━ ” A voz voltou a ficar embargada, e uma lágrima escorreu.