Uma das piores partes de ser quem era e, portanto, estar em sua própria mente vinte e quatro horas por dia, era o fato de que Zaya vivia constantemente esperando pelo pior: esperando por novos ataques, esperando por novos episódios cheios de horror e que cada vez mais permeavam os legados e, principalmente, esperando por novas rupturas em seus relacionamentos. Alguns eram realmente estáveis, vinham de longa data, mas sempre havia a sensação de que chegariam ao final mais rápido do que ela era capaz de prever e era por isso que tendia a sabotar tanto aquele tipo de coisa; a exemplo do que vivia com William agora, o que a colocava em tantas situações que ela sequer tinha forças para pensar muito em como sair daquilo tudo sem expor e arruinar seu orgulho e, ainda por cima, sem a garantia de que tudo teria se resolvido.
Felizmente, William tomou a frente como a parte mais velha entre eles e também a parte responsável por instruir, demonstrando como estava habituado a gerenciar mais crises do que o previsto, ainda que certamente não tivesse de se enrolar com uma coisa tão específica quanto uma jovem movida por tanta raiva e mágoa que acabava se tornando quase tão letal e agressiva quanto um dos monstros que haviam invadido o Acampamento recentemente. De qualquer forma, por mais que seu plano fosse evitá-lo em termos gerais, uma parte de Zaya agradecia a proximidade, o contato, a forma como a mão dele tocava-lhe o ombro por cima do roupão; até porque, por mais que não aparentasse, a Haernzah era uma pessoa que realmente apreciava contatos daquele tipo, sobretudo os que vinham com uma intenção de afeto. Até porque raramente recebia qualquer coisa do tipo, bem como compreensão; então isso ajudava a apaziguá-la minimamente, se não fosse o caso de irromper em uma de suas crises de raiva tradicionais como a que quase os havia levado à morte.
Então, agora que havia se virado e estava de frente para ele, até pôde guardar silêncio e não dizer mais nada pelos próximos segundos, mas seus olhos não conseguiam mentir. Tão explícitos, num verde que se tornava ainda mais evidente conforme as lágrimas vinham à tona, na pior das formas: silenciosamente, descendo copiosamente por suas bochechas arredondadas e naturalmente coradas agora que ela estava sendo consumida por um misto de sensações. Alívio por ter conseguido colocar parte de seus sentimentos para fora, uma sensação agradável por ouvir o apelido em sua forma encurtada após tanto tempo, culpa por estar se expondo tanto e provavelmente não chegar a lugar algum com aquilo, e também um calor que lhe era consideravelmente familiar, incitado pela forma como estavam próximos, mas que Sazaya preferia ignorar no momento. Optando, no máximo, por tentar secar as lágrimas com as pontas dos dedos, mas desistindo no meio do trajeto quando notou que elas apenas estavam vindo com mais intensidade conforme voltava a falar.
“Pedir a alguém como eu para dar a palavra final e mandar alguém embora é a coisa mais cruel que você pode fazer, William.” Disse. O tom levemente rouco, embargado, com um quê de desespero no timbre. Quanto àquilo, era realmente verdade: Zaya era incapaz de fazer aquilo. Nem mesmo relacionamentos péssimos, caóticos como um todo, ela fora capaz de pôr um fim. No máximo, levá-lo ao caos severo, porque a ideia de dizer adeus e se arrepender disso posteriormente era uma das coisas que mais a tirava de tento. Deste modo, nunca, nunca mesmo, seria a primeira a pedir que alguém se afastasse; e dificilmente deixaria que a pessoa o fizesse.
E esse era, provavelmente, o traço mais tóxico dela, julgando por cima: incapaz de deixar coisas e pessoas irem, o que não significava que isso impedia que elas simplesmente fossem, sobretudo porque havia pouquíssima gente no círculo social da Haernzah, com o mesmo ideal de lealdade e fidelidade que ela.
“Porque eu não faria isso nem que eu quisesse.” Novamente, os olhos se desviaram, ao que ela olhava para o lado; as lágrimas ainda vindo, a raiva de si mesma por ser tão emotiva. Ainda que parte daquelas emoções todas adviessem de uma exaustão tanto física quanto mental dos últimos dias, onde estivera completamente sozinha na resolução de questões que a perturbavam até então. E ainda havia a situação toda com William, que também a assombrara e a deixara impossibilitada, como já havia relatado. Estava, de fato, vivendo seu inferno pessoal. “Eu realmente só acho que você aguentou até onde deu e não tem mais a obrigação de me treinar depois do que eu fiz com você. Realmente acho que qualquer outra pessoa no meu lugar seria melhor e mais seguro pra você agora.” Concluiu. O que a doía imensamente, considerando como mesmo com a única pessoa que havia aceitado bem seu estilo de luta e que não a tratava como a maioria do acampamento, em uma situação totalmente desmedida acionada por um gatilho que lhe competia somente e que não necessariamente deveria reverberar em William, a fizera se sentir completamente desesperada ao tê-lo desacordado em seu colo mesmo depois de tê-lo socorrido com um dos elixires de Sekhmet. “Não consigo mais ficar perto de você sem enxergar o reflexo da minha mãe. E eu nunca quis ser como ela.” Foram suas palavras finais, atropeladas, com um esganiçado ao final, indicando como a revelação a desesperava. Era uma ótima guerreira, gostava da sensação de ter o sangue correndo mais rápido enquanto atacava e defendia quem avançava sobre ela, e sentia-se poderosa com as pragas e as curas que era capaz de promover, mas tudo isso só porque passara tempo demais se culpando por ter nascido daquele jeito. Por ser quem era mesmo que não tivesse poder nenhum sobre isso, restando-lhe apenas conviver dentro da própria pele e sem esperar mais a consideração de quem estivesse ao redor para tentar compreender os motivos pelos quais ela aparentemente preferia causar confusão e chamar a atenção negativamente do que permitir que alguém minimamente se aproximasse com o intuito de saber mais sobre ela e o que a levara a ser daquela forma. Simplesmente porque não aguentava mais o fardo de ser a filha da Grande Leoa Escarlate e Senhora do Deserto.
Por fim, depois de dizer aquilo, seu rosto acabou indo parar na curva do pescoço alheio, decidindo escondê-lo enfim. Respirando o mais fundo que podia para controlar a vontade de chorar de soluçar, acreditando já ter sido o suficiente por ora que William a estivesse vendo daquela forma. O tom de voz embargado, o rosto quente, os ombros encolhidos e um suor leve escorrendo pela pele limpa de seu rosto por conta da tensão e dos esforços que ela concentrava em não se deixar levar ainda mais. Focada apenas na pele do pescoço alheio contra seu rosto, as lágrimas agora molhando a região, por mais que não fosse sua intenção. E suas palavras contradizendo sua racionalidade, o seu senso e seu orgulho de não se arrepender por tê-lo atacado principalmente após ter sido atacada de volta.
“Me desculpe.” Foi a traição que saiu de seus lábios ainda contra a tez alheia.
William que geralmente tinha um perfil reservado e fechado, que causava medo e até arrepio em alguns campistas, ao mesmo tempo que incitava uma curiosidade por sua personalidade misteriosa, não passava de um homem sensível. Ele sentia, se importava, colocava os outros em primeiro plano, demonstrava carinho quando achava que deveria e cobrava quando achava que não recebia uma porção justa. Este homem, que quando Zaya virou-se de frente para ele, teve que segurar a expressão triste e manter-se firme, suspendendo qualquer sinal de que poderia chorar junto com ela. E não por alguma questão machista, de não querer se mostrar vulnerável, pois mais uma vez, ele não tinha problema com isso. Mas porque ele entendia que naquele momento, um deles precisava estar firme e forte, para apoiar o outro. E ele seria o pilar de Sazaya, se assim ela quisesse.
Um suspiro rompeu seus lábios ao ouvir as primeiras palavras, e por dentro ele se sentiu mais pesado. As orbes negras fixas nas verdes dela, não buscavam por respostas, apenas tentavam passar compreensão. Um dos braços continuava envolto em sua cintura, não se rompeu com o momento que ela fez ao virar. E a mão livre subia em direção a face, o rosto pequeno se perdia em sua palma. Dedos no alcance da nuca, polegar em sua bochecha, tentando secar as lágrimas remanescentes. Mas assim como ela, Billy percebeu que era um movimento em vão. Não tirou a mão, não parou o polegar quieto, escolheu continuar o movimento como uma caricia. “Não quis ser cruel, quis respeitar você e sua escolha, pois você tem o direito de romper nossa relação quando quiser.”. O tom suave, doce até, tão distinto do que comumente usava com ela nos seus momentos de conversas amenas, onde era sempre divertido, provocativo algumas vezes.
Fechava o círculo do braço envolta da cintura alheia, mantendo-a perto, demonstrando que estava ali e que não sairia. Suas palavras podiam conter maturidade, sinceridade e compreensão. Mas a verdade é que William não entenderia caso Zaya quisesse se afastar. Respeitaria sempre, mas entender? Seria impossível. Impulsivamente, inclinou o rosto a frente, encostando a testa na da menor. Os olhos fecharam instintivamente, para que pudesse pensar, para que pudesse focar e principalmente sentir. Sentia a diferença no ar, a tensão que se instalava pelas palavras e possibilidades não ditas, sentia a respiração descompassada de Sazaya, assim como o calor que emanava dela. Sentia sempre o cheiro das flores e amêndoas. Despertou quando ela tornou a falar, afastando-se novamente para que pudesse fitá-la, mas seus olhos corriam dos de Blue.
“Então não faça.”. Buscou novamente o contato visual, inclinando o rosto para onde julgava que os olhos haviam se fixado, mas sem sucesso. Decidiu então ser breve e se silenciar para não atrapalhar os argumentos da mais nova. E por mais que ele entendesse, por mais que não quisesse diminuir a forma como ela estava se sentindo, pois quem era ele para invalidar o sentimento de alguém? Ele ainda assim não concordava. “Você acha, mas você não chegou a me perguntar, nem considerou algo diferente. Realmente eu não tenho a obrigação de treinar você, eu nunca tive.”. Ok, o senhor M. pediu especificamente que ele fizesse um esforço, mas depois da primeira aula, e de reconhecer o potencial nela, nada mais era um esforço, era prazer. Gostava de dividir o coliseu com Zaya. “Eu fiz porque eu me identifiquei com você. O Coliseu é o meu lugar, assim como é o seu. Lutar é onde eu sou bom, é onde você é boa.”. E realmente era, não media palavras para dizer o quando Zaya era sua favorita no ringue. Falava para quem perguntasse, sem preocupações. “Já disse que não quero isso. Quero você.”. Repetiu parte das palavras, sem se preocupar com o que ela entenderia a partir dali, pois ele sabia bem o que queria dizer. Não desistiria do que eles tinham, não tão fácil assim.
A última sentença foi como o golpe final, o banho de água fria. Todo o esforço que fizera para não demonstrar que estava internamente abalado, para servir de apoio e rocha para ela, caiu por terra. O olhar abaixou e os lábios se curvaram igualmente para baixo. Expirou demorado e pesado, os ombros fazendo a movimentação de descer. Mas o braço e a mão continuavam onde estavam. Dedilhou a nuca da mais nova, como uma massagem, no instante em que repousou o rosto na curva do seu pescoço. Sentia a região ficar úmida pelas lágrimas, a respiração abafada e quente contra sua pele, provocando arrepios involuntários nos pelos da nuca e braços. “Talvez sejamos eles.”. Disse com pesar. Pois reconhecia as similaridades entre os deuses das oferendas de sangue, assim como reconhecia as similaridades entre Sazaya e ele. “E mesmo assim, ainda somos melhores do que eles.”. o riso saiu soprado, como se nem ele acreditasse naquilo, mas acreditava. “Pois você conseguiu se abrir comigo, não só hoje. E eu vou conseguir te pedir o que eu tanto quero, o que realmente me trouxe aqui.”. Suspirou, tomando a liberdade de desaninhá-la, puxando o rosto de volta para a sua frente, pouco depois do pedido de desculpas. Seus olhos buscando pelos dela, tão verdes ainda, tão perto. “Me deixe ficar.”. completou, sempre colocando o poder nas mãos de Zaya, por mais que ela não quisesse tê-lo.