A Menina na Janela
Era dia comum. Acordar, vestir-se, salto, batom e bolsa cheia. Um detalhe. A bolsa cheia dava essa impressĂŁo, de vida preenchida. A vida dentro da bolsa. Transbordando, ali, apertada, fechada. Carregada. Mas enfim, carregava aquela bolsa cheia, pesada... E corria, contra o tempo, contra o ĂŽnibus que ia passar, lotado, mais carregado, e o ar parecia pesar. E ali ela se equilibrava, entre o meio fio e o medo, de ser assaltada, de ser atropelada, de ser conhecida, de ser encontrada. Ela fugia de si, em cima do salto e de batom, ela fugia da vida e ia de encontro ao futuro. E o futuro era um saco de cansaço sem fim. Mas ela sentia que estava no caminho certo, sem certeza, com medo. Seus olhos tentavam nĂŁo perder o foco, mas nem sempre conseguiam, miravam o cĂ©u, analisavam os moços que passavam do outro lado da rua, e ela tentava esconder, ser discreta, nĂŁo esbravejar o que queria, o que sentia, a solidĂŁo, a correria, a realização pessoal, o desejo. Os passos iam retos em uma direção e o coração batia pelos lados, tomando rumos sabe-se lĂĄ Deus para onde. Mas seus olhos desviavam e, nestes desvios, acabaram de encontro Ă uma janela. E naquela janela, no segundo andar do prĂ©dio mal-acabado de esquina, escondia-se uma menininha entre as cortinas. Fitava entĂŁo a moça pelo qual seus olhos fora atraĂda. E entreolharam-se por alguns segundos, naquele dia comum, ela encontrou repouso nos olhos daquela menina. Que tinha tanto sonho, que tinha tanta inocĂȘncia, que tinha pouco de vida, e nĂŁo sabia, que esse pouco era tudo. Era tudo. Era absolutamente tudo. Mas jĂĄ estava perdido. Aquela menina nĂŁo a fitava por acaso. Ela espelhava-se na moça. Era seu passado. JĂĄ sabemos que um dia, aquela menina, que ali, de manhĂŁzinha, olhava pela janela as pessoas que passavam, um dia haveria de ser as prĂłprias pessoas que passavam. Eu quis. VocĂȘ quis. E os braços da casa com sua proteção... Descartamos. Ansiamos o mundo, e vamos para ele. Seja com a bolsa cheia, com o bolso vazio... Vamos nos contaminando, o batom escurece, o salto aumenta... E nĂŁo somos mais menininha que olha na janela. E aquela moça, que passava pela rua, um dia quis tanto passar pela rua, mas jĂĄ nĂŁo era da forma que esperava. Passava agora, mas de outra maneira. Porque mudou. Mudou seu jeito de pensar, seu jeito de andar, seu jeito de ser mudaram. E seu modo atual nĂŁo a permitia usufruir de sua expectativa que criara hĂĄ anos atrĂĄs. Se pudesse, diria isso Ă menina da janela. Mas sabia bem que ela nĂŁo entenderia. E continuou a caminhar.











