Continuação dos meus devaneios no carro:
Antes escrevia aqui num momento específico do meu dia : quando ia para o escritório e estava dentro do meu humilde carro: um Citroën C1 cinzento escuro de 2012 (que grita por socorro a casa revisão que vai, com dois grandes riscos na porta que me foram gentilmente cedidos por um cidadão zangado com o mundo) ditando palavras e pensamentos esperando que a ferramenta de voz captasse.
Desde o início deste ano que deixei de ir para o escritório de carro, porque depressa se transforma numa despesa pesada no orçamento e pensei que pudesse substituir esse tempo de escrita por leitura no comboio. Resultou comigo, e já não lia tanto há muitos anos.
Contudo, como diz José Mário Branco, "...cá dentro inquietação, inquietação, porquê? Não sei. "
Esta inquietação que não me abandona — em graves contrastes com as pessoas mais importantes da minha vida (ou achava eu que eram).
Passei então a escrever coisas sobre mim, sobre o meu dia-a-dia num caderno. Não é um qualquer caderno, é o caderno especial de cabedal antigo, com um cunho de Hogwarts que contém os meus escritos desde o ano passado. Tenho passado por tumultos emocionais muito grandes nos últimos 3 anos, e como não tenho coragem de ser dissecada em terapia, escrevo para ninguém. Já escrevi para a inteligência artificial e ainda o faço de vez em quando quando a crise é maior e preciso de uma falsa sensação de "outro" , mas a única coisa que obtenho é validação dos meus sentimentos e fico mais magoada ainda, portanto agora escrevo sem resposta num caderno com mais frequencia.
Ajuda-me a acalmar e a praticar a minha caligrafia, que a minha professora da escola primária dizia ser idêntica a "dentes de cão"
Nunca fui boa a escrever histórias, e o máximo de apreço que já demonstraram por alguma coisa que eu tenha escrito foi a minha professora de português do 9° ano que adorou a minha composição sobre a experiência no teatro e deu-me 100%. A composição era sobre ela, talvez tenha sido por isso.
Já tive interesse em querer escrever sobre personagens, e durante dois anos escrevia sobre as aventuras de Bill e Tom Kaulitz juntamente com a minha melhor amiga da altura. Tínhamos 14 anos. Foram 200 páginas marteladas a computador das aventuras mais absurdas e cheias de hormonas que alguém poderia ler. Quem era a maior fã daquela história? A mãe dessa minha amiga. Escusado será dizer que eventualmente deixámos de escrever.
Depois pensei em escrever sobre a minha obsessão seguinte - o Snape - mas nunca tive jeito para criar um enredo. Nunca tive jeito para dar a entender o que o personagem estava a sentir. Mas eu sabia que sentia tudo visceralmente quando lia alguma coisa das minhas autoras favoritas. Portanto deixei essa arte para quem a sabe executar.
Agora sou só leitora, mas sinto falta da expressividade que a escrita sem filtros me dava. Não quero voltar a escrever, apenas me limito a pensar alto. Talvez inspirada por ver que muita gente o faz sem ter a cunha de escritor.
Portanto trago para este fosso séptico a que eu chamo de blog estas notas pessoais escritas a bordo do comboio no meu trajeto casa-trabalho, na minha língua materna. Hoje em dia com um copiar/colar podemos ler tudo em qualquer língua e francamente, como passo o dia moribunda a deambular entre inglês e italiano durante 18h por dia, fico feliz em falar em português algo que não seja : "sim tudo bem".
No outro dia deixei-me levar pelas memórias a ver fotografias de viagens que eu fiz quando era mais nova. E a única coisa em que eu conseguia pensar era: onde é que eu estou? Olhando-me e vendo-me no passado, pensava de continuo : a pessoa desta fotografia iria ficar extremamente infeliz se soubesse que daqui a... 10 anos? Acabaria assim. Neste limbo.
Há 10 anos atrás tinha uma garra de viver, uma alegria e uma personalidade caracteristicamente explosiva para alguém com 20 e poucos anos e com sede de ver o mundo. Onde fiquei? Onde me deixei? Será que me encontro?
Mudei ou deixei que a vida me mudasse?
Perdi uma avó que era a força da família em Setembro do ano passado, e tenho assistido ao declínio da minha mãe. Perdi contacto com o meu pai há mais de um ano, que, vendo bem, nunca quis verdadeiramente o bem das filhas.
Vejo a minha irmã a realizar sonhos enquanto os meus ficam em suspenso. Vejo a outra irmã a ter episódios de ansiedade por viver num molde do qual não tem coragem de sair.
Tenho sonhos sequer? Ou deixei-me amortecer pela pancada que a vida me tem dado ao longo destes 5 últimos anos?
Sinto que os meus sonhos já não são atingíveis e que com o tempo aprendi a esquecer-me deles. E a ser grata pelo que tenho. Que merda, não é? A Magda de há 10 anos atrás estaria zangadíssima comigo se soubesse que iria acabar assim. Sou grata pelo que tenho, mas sinto sempre aquela tristeza, revolta e vontade de ser mais, de ser melhor. De ser alguém relevante. De ser a escolha de alguém, de ser a referência de alguém. Porque isso significa que alguma coisa estaria a fazer bem. Significa que eu própria estaria bem comigo — e essa na verdade é a minha prioridade. Mas depois não tenho força. Parece que me perco. Parece que estou a adiar anos e anos e anos contra mim mesma, permitindo-me ficar na mesma situação por medo de sair.
Não estou bem, mas não sei expressar-me com outras pessoas, e sinceramente aterra-me e enterra-me o pensamento de ter de falar da minha vida inteira desde o início com um terapeuta. Assusta-me a ideia de aborrecer os meus amigos com os meus probleminhas e dúvidas existenciais. Mas na verdade é uma crise existencial que com o passar dos anos se tem agravado e eu não sei sair dela.
Eu queria ter uma vida mais simples e descomplicada. Uma vida leve, sem o peso da ansiedade todos os dias dentro da minha barriga. Vejo amigos próximos a tomarem decisões de vida impactantes , com muita ligeireza. E eu penso: como é que eles conseguem?
Porque é que eu não estou a fazer as coisas bem? Porque é que não consigo também eu dar a volta à minha vida?
Está na hora de meter uma cara simpática quase dormente e perguntar no Open Space se alguém quer ir almoçar à pizzaria , para depois ouvir "não aceitam o cartão refeição, não me dá jeito porque já estou sem dinheiro" e acabarmos no centro comercial.
Chega ao fim a minha viagem de comboio de hoje. Farei o regresso a ler para tentar alimentar um pouco mais a inquietação que me contamina.