Obras que dramatizam cotidianos criminosos terão para sempre um lugar especial no meu coração. Filmes como Os Bons Companheiros e Cidade de Deus apresentam visões centralizadas de diferentes ambientes sociais: enquanto Os Bons Companheiros tratava de uma Brooklyn noturna e sexy, Cidade de Deus mostrava o lado menos glamouroso do Rio de Janeiro com precisão cirúrgica. E claro, há as séries como Breaking Bad e Família Soprano, na mesma linha. O que todas tem em comum é a forma como toda a caracterização e narrativa nos instiga a simpatizar com criminosos que são, por natureza, personagens complexas e arriscadas.
E Narcos é mais uma dessa linha, dessa vez mostrando uma figura já estabelecida na vida real: Pablo Escobar, o magnata colombiano que aterrorizou o governo de seu país traficando cocaína predominantemente. Nessa dramatização não tão precisa, participam como consultores dois dos agentes do DEA responsáveis pela investigação de Pablo pelos EUA.
E justamente com esses agentes começam os problemas da série. Steve Murphy e Javier Peña são interpretados por Boyd Holbrook (Gone Girl) e Pedro Pascal (Game of Thrones), respectivamente. São bons atores, considerando minha limitada percepção do que é atuação em filmes, mas Steve Murphy é uma das piores personagens que eu já tive o desprazer de presenciar em qualquer obra de ficção: enquanto Peña é mulherengo, fiel à sua cultura e racional de forma realista, Murphy é o ápice estereotípico de americano herói. Ele faz tudo certinho demais, se preocupa com uma justiça ideal demais (até um certo momento que vou tentar não estragar) e seu desenvolvimento é, no mínimo, brusco demais. Por ser baseado em um ser humano real, é bem possível que eu esteja reclamando sem fundamentos, mas a verdade é que é uma personagem recheada de clichês, faltando apenas uma capa ou uma camiseta estampada do Jair Bolsonaro, considerando a sua predileção por chacinas.
Além da personagem em si, prepare-se para uma narração histórica feita pelo próprio Holbrook como Murphy. E prepare-se para um nível absurdo de exposição verbal. Na verdade essa é minha maior reclamação com a série: num ambiente rico como a Colômbia, com personagens cheias de diálogos maravilhosos, é curioso que optem por silenciar a ação usando narrações, embora eu até goste da forma como são usadas as cenas reais da época, que dão um ar de documentário à obra.
Apesar desses dois problemas, posso dizer que já a considero uma das melhores séries já criadas pelo Netflix, perdendo apenas para BoJack Horseman. A interpretação de Wagner Moura como Pablito faz qualquer um torcer pelo seu cartel, e a complexidade dessa grande figura, inserida num ambiente razoavelmente familiar, traz à tona justamente aquilo que disse dos dramas criminais: simpatia por coisas que fogem ao nosso cotidiano e abrem um grande leque de complexidades morais.
Pablo não é um cara legal, obviamente. Ele tem seus ideais e valores, mas sabemos que ele é malvado. O interessante é que o enredo faz com que o espectador questione cada vez mais sua empatia, e se você gosta de reavaliar constantemente seus valores morais diante de situações com impactos muito dramáticos. Por ser uma série madura, há também a questão de personagens nomeados morrendo, que é comum então nem é bem um spoiler, mas eu gostei do fato de isso não ter sido alvo de abuso, afinal é uma obra baseada em eventos reais.
Quanto à narrativa em si, é preciso deixar claro que devido à insistência em narração, as coisas meio que se perdem em meio a cenas de ação intensas, cortes rápidos e cenas muito paradas com coadjuvantes antipáticos. A relação entre essas cenas, entretanto, é exemplar, e serve para construir o que é de fato o aspecto mais positivo de Narcos: a história.
História não é necessariamente a mesma coisa que narrativa. Narrativa é uma forma de contar a história, e por mais que a narrativa seja interessante, a história de Narcos, num contexto geral, é espetacular. Tudo se resume ao conceito de construção de mundo: a construção de mundo não é apenas inventar um derivado da Terra Média e colocar elfas gostosas, mas também pegar o mundo real, eventos do mundo real e construir, com isso, um ecossistema acreditável, e isso foi feito nessa série; seja no kernel político, nas ruas noturnas, nas favelas ou nas mansões dos narcos, fica bem claro como o mundo funciona, e com isso, a importância de cada personagem é bem mais pronunciada. É o tipo de mundo que faz você querer imaginar o que mais pode acontecer lá.
Narcos é uma excelente série dramática, com excelentes atuações e problemas que podem ser resolvidos numa próxima temporada. Eu recomendo a todos interessados em dramas policiais ou criminais, e aplaudo a toda a equipe envolvida pela produção dessa obra pela qual eu literalmente me masturbaria de tão boa que é.