Esse texto terá Belchior como o Sol, em torno do qual gravitará. Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenele Fernandes “um dos maiores nomes da música popular” como ele mesmo se denominou em uma clara brincadeira com a extensão do seu nome completo é, na minha leitura, um artista mais do que necessário. Quem me conhece, se for perguntado qual meu artista preferido, responderá Gilberto Passos Gil Moreira e acertará. Não é muito difícil. Mas eu preciso confessar publicamente uma coisa: escrever esse texto me colocou por alguns minutos sem ter certeza dessa posição. Eu, que me politizei ouvindo Tom zé e relativizei a política ouvindo Gil, ouvindo Belchior aprendi a sofrer.
Naturalmente, antes de escrever, fui ouvir Belchior e relembrar o que ele significa para mim. Me recordar quais quadros ele pintou na parede da minha memória (para ficar numa metáfora do próprio). Anotar e escrever foi, literalmente, uma experiência de autoterapia. Revisitar meus dilemas. Revisitar alguns porquês. O meu inconsciente veio a tona e me dei conta: Belchior tem influencias Nietzschianas! Ficou tudo tão claro que eu me perguntei como não tinha me conscientizado antes. Depois de me dar conta disso dei um Google e vi que outras pessoas também chegaram a essa conclusão. Preferi não ler os textos para não contaminar meu raciocínio que vai se construir unicamente a partir da minha perspectiva.
Se Belchior leu Nietzsche eu não sei dizer. Provavelmente sim. Se leu, fez bom uso do oxigênio que gastou enquanto vivo. Se não, só torna a sua genialidade mais extraordinária.
Nietzsche representou para mim algo muito importante. É engraçado, agora, como é óbvio. Nietzsche foi e sempre será o filosofo da minha maturação. Belchior também, apenas com outra linguagem. A obviedade só aumenta, pois o filosofo alemão demonstrou justamente o que eu defendo, sempre que posso: a arte é uma linguagem muito melhor que a razão, pois ela não tem pretensão de verdade. Descobri Nietzsche um pouco antes que Belchior, devia ter uns 14 anos. Eles me possibilitaram uma compreensão melhor de mim mesmo no mundo. (Por isso esse texto é auto terapêutico).
Outra confissão é: eu tenho a mania de ouvir discografias. Acredito, de verdade, que a obra de um artista é tão importante quanto a produção de um cientista e deve ser levada a sério (não no sentido de ser sério, mas de dar importância). Belchior foi o primeiro artista que eu devorei a obra do início ao fim. Ainda me lembro a primeira vez que ouvi Belchior. Apenas um Rapaz Latino Americano era a música, eu estava no estágio que fazia na Secretaria de Planejamento do Governo do Estado da Bahia. Tinha 16 anos. Minha barba estava nascendo. Lá se vão quase 10 anos.
Foi como um furacão na minha vida. A minha colega de trabalho pode ter achado que eu usei alguma substância psicoativa (como café ou qualquer outra coisa). Eu fiquei alterado com aquela música. Eu me recordo do momento como se fosse ontem. Devo ter passado os próximos 03 anos, a contar daquela data, ouvindo Belchior mais do que minha própria voz (não é força de expressão).
Além de tudo, Belchior teve a coragem de ironizar Caetano Veloso. Não se trata de colocar Caetano na cruz, apenas evidenciar que ele pode ser criticado, coisa que os artistas brasileiros não vão fazer.
Belchior viveu a vida como Nietzsche. Amando o incerto. Vivendo o eterno. Belchior amava sua vida não APESAR da dor, mas INCLUINDO a dor.
Nietzsche em A Gaia Ciência aforismo 341 diz: “E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: ‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes”. A experiência consistia em assumir a possibilidade de que sua vida é tudo o que você tem. Assumindo a possibilidade do eterno retorno. Você aguentaria viver sua vida em loop infinito, incluindo os momentos dolorosos? Você entraria em desespero ou ficaria tranquilo?
Belchior viveu para provar que conseguiria, viveu o eterno retorno, o amor fati. A música de Belchior onde essa relação é mais óbvia, até pelo título é: Tudo Outra Vez. Ele relata vários acontecimentos tristes e felizes e no fim diz: “agora eu quero tudo, tudo outra vez.” Ressaltando seu aspecto de aprendiz da vida.
Belchior teve uma vida que o mainstream considera muito sofrida, mas foi a que ele escolheu viver. O dinheiro que ele ganhou, ele gastou. Chegou a ser acusado de calote. Não ficou fazendo cálculo de futuro. Basta pesquisar um pouco para ver vários exemplos. Apenas viveu, como se sua vida fosse a coisa mais importante (coisa que poucos de nós tem coragem de fazer).
Em Coração Selvagem ele diz “E esse jeito de deixar sempre de lado a certeza. E arriscar tudo de novo, com paixão. Andar caminho errado pela simples alegria de ser.”. Ele não apenas poetizou Nietzsche, mas praticou. Sempre que tinha a certeza a sua frente, ele abandonava. Carreira de sucesso? Para que? Tocar no Fantástico? Que diferença faz? “Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente. Tome um refrigerante, coma um cachorro-quente. Sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem. Tem essa pressa de viver”. Poderia passar um mês fazendo essas comparações. Quem sabe rende outro texto.
Quero terminar dizendo que um mamífero como Belchior, que viveu sua animalidade como nenhum outro, tinha lugar. “eu sou um menino do interior, de sobral, e o primeiro grande desejo que eu tive na vida foi ver o mar. Isso me levou sempre pra ser, intuitivamente, um cidadão de Fortaleza.”. Belchior é como arco-íris. Projeção do sol na chuva.
NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência (tradução de Antônio Carlos Braga). São Paulo: Editora Escala.
BELCHIOR. Tudo Outra Vez. Warner Bros. Records. 1999.
BELCHIOR. Coração Selvagem. WEA Discos. 1977.