desde o começo, fez seu melhor para manter uma expressão neutra. considerando como haejin estava começando aquela história, e o contexto de como apresentara o que desejava falar, fazia bastante sentido que seguisse com sua teoria de se tratar de toda a história envolvendo jae, seu término com ele e as amizades entre os envolvidos. na verdade, era um caminho previsível. não era nenhum mistério para a mulher que os dois eram amigos desde antes de acabarem naquela relação que teve com ele e, por mais que doesse de certa forma - mesmo não tendo confirmada sua suspeita ainda -, ainda era possível de entender porquê ela havia tomado o partido dele. era o que gostaria? não, preferia um lado mais imparcial da amiga, mas era algo com o qual poderia lidar. certamente com muita conversa e um tempo para refletir sobre, conseguiria lidar. era o que estava gostando de pensar, ao menos.
porém, no momento em que escutou as palavras da park que se seguiram, percebeu que aquilo estava tomando um rumo completamente diferente. e um que não somente nunca havia imaginado, como começava a doer de certa forma dentro de si, e não parecia que iria melhorar conforme ela entrava em mais detalhes sobre aquilo. pois parecia que a situação só iria piorar. porque uma coisa era lidar com a paixão de sua amiga com seu ex, algo que ainda poderia tentar entender melhor. não era como se tivesse tentado arruinar aquela relação que mantinham na época - nos bons dez anos ao lado de jae -, portanto, crucificá-la por sentir algo incontrolável não era nada que gostaria de fazer, embora não pretendesse agir como a santa evoluída que realmente não era - como ninguém era, na verdade - e realmente fosse ter sua cota de mágoas sobre isso, além da estranheza. e outra coisa completamente diferente era saber que a amizade das duas fora prejudicada justamente por isso.
hyena sentia-se traída, para dizer o mínimo. magoada, chateada, decepcionada; a porcaria que fosse, não conseguiria descrever como se sentia verdadeiramente. arrasada, talvez, fizesse um pouco do trabalho. porque poderia aprender a lidar com o fato de sua amiga ter gostado de seu namorado, e aparentemente ainda gostar, durante todos os anos em que se conheciam. poderia estar se enganando e imaginando uma utopia em que enxergaria a situação de haejin com toda a compreensão dentro de si, e que a amizade das duas falaria mais alto, no fim das contas. pois não tinha como saber a forma que aquilo realmente se desenrolaria na vida real, durante aquela conversa, simplesmente por não ser realidade. justamente porque haejin não deixara a amizade das duas falar mais alto, como se não tivesse o mínimo de valor para ela; inventando mentiras e justificando com desculpas completamente esfarrapadas o motivo de não estar mais próxima de hyena, permitindo que passasse a mão em sua cabeça e genuinamente se preocupasse com o bem-estar dela, sem imaginar que não passavam de mentiras.
deviam ter se passado mais de cinco minutos desde que terminou de ouvir o que haejin tinha a dizer, e hyena não conseguia nem mesmo olhar para ela. encarava as mãos desde metade das coisas que ela tinha a dizer, entrelaçando seus dedos e os apertando de forma que pudesse ter sua atenção removida, nem que ao menos um pouco, do que estava acontecendo. de tudo que estava sendo jogado em seus ombros e de uma situação que era capaz de machucá-la apenas por ser citada nela. mordeu o interior da bochecha para conter a vontade de chorar, os anos de prática em ocultar suas verdadeiras emoções em momentos difíceis enfim fazendo bom uso. e, então, respirou fundo. uma, duas vezes. até tomar a coragem necessária para colocar tudo que tinha em mente em forma de palavras, por mais rudes que estas pudessem acabar saindo. não estava realmente tendo isso como sua maior preocupação no momento, realmente.
“sinceramente-” começou, engolindo em seco e finalmente conseguindo a força para olhar nos olhos de haejin ao falar. não seria covarde e levaria aquilo até o fim, se recusava a hesitar ou se permitir amolecer por algum motivo. porque necessitava desesperadamente por para fora tudo o que agora armazenara dentro de si, fervendo em raiva e mágoa. “eu não sei o que te dizer. de verdade. porque eu não consigo acreditar que tudo o que eu ouvi é verdade. não consigo, não consigo mesmo. simplesmente porque não entra na minha cabeça que você poderia- e, sim, você pode, fazer algo assim comigo.” trincou os dentes. “e, não, porra, não estou te falando isso pelo yoengjae, pelo que você sentiu, sente, eu não sei mais o quê, por ele… é o que menos me importa nesse momento, de verdade. nesse momento eu, realmente, não consigo nem me incomodar ou a porra que for com essa parte, porque existe coisa pior. e bem pior, na verdade, nessa história toda. ou você chamaria de outra coisa simplesmente agir como se nossa amizade não fosse nada e jogar ela em uma lata de lixo? porque isso, sim, foi exatamente o que você fez.” poderia estar sendo rude, maldosa, o que fosse, mas go não poderia se importar menos naquele momento. se sentia no direito de não pensar antes de ir falar o que tinha em sua mente, da mesma forma que haejin não parecia ter pensado em hyena, na amizade das duas, em tudo, antes de fazer tudo aquilo. “sabe, eu precisava de você. pode me achar uma insensível, uma desgraçada que não soube aproveitar o que você queria, e por mim tanto faz. mas eu também fiquei extremamente mal com o término, mesmo que o meu sentimento no final diferisse tanto do dele. pode ser que a minha memória esteja me falhando agora, mas eu não me lembro de você ter ficado ali por mim como uma amiga, o que você dizia tanto que me considerava. quando eu mais precisava de você, também. ou só o yoengjae merece ter sentimentos e se sentir mal, por não ter sido quem terminou? e agora, vai me dizer que de alguma forma ele era mais merecedor de consolo por todos os meses desde o nosso término, só porque você sentia pena dele? e nunca parou pra ver o meu lado, por acaso? ah, não.” pausou, furiosa. respirando fundo e colocando uma mecha de cabelo para trás da orelha. “você nem sequer tinha como saber o meu lado, sabe por quê? porque você não estava lá. não estava. não estava por meses a fio, inventando um monte de desculpinhas quando não estava ocupada porra nenhuma, só se contasse ficar dando consolo pra ele. porque você não pode realmente olhar na minha cara e me dizer que não ficou do lado dele esse tempo todo, como se fosse o seu único amigo ali. não pode, e eu sei disso.” a mágoa, misturada com a raiva, era presente em cada palavra de hyena. era difícil, muito difícil, assimilar que tudo aquilo estava acontecendo; que tudo aquilo tinha acontecido. ela só queria acabar com aquilo de uma vez. “sabe, haejin, que eu te considerei a minha melhor amiga por muito tempo? eu sentia que podia contar contigo, confiar em ti, e sabia que era uma pessoa que estaria ali por mim. mas, aparentemente, é só mais uma coisa na vida na qual eu me enganei. e me enganei pra caralho. porque você simplesmente preferiu deixar de ser minha amiga, e esqueceu de me avisar dessa parte.” fungou, contendo-se mais uma vez de acabar chorando no meio daquilo. respirando fundo mais uma vez e se esforçando para falar em um tom mais frio, sem as emoções marcando completamente suas palavras. “então… você me pediu pra te desculpar. mas eu sinceramente não acho que consigo.”
o silêncio que se seguiu era visceral. por nem um único minuto dele, haejin conseguiu manter o olhar fixo no rosto daquela a sua frente por mais que meros segundos, usados para avaliar a expressão da outra, mas que logo se refugiavam em qualquer ponto aleatório do ambiente para não precisar perpetuar aquela encarada. tampouco o fazia hyena, e isso, talvez, fosse o pior. o fato dela não conseguir olhar mais para si havia sido, inclusive, um dos maiores temores da park na hora de trazer aquele assunto a tona. por isso que evitara tanto aquela conversa. e por mais que parte de si começasse a repassar em sua cabeça todas as palavras usadas para sua revelação, começando a se arrepender de algumas e de tantas, principalmente, não era como se fosse otimista de achar que a reação teria sido maior se tivesse evitado aquilo por ainda mais tempo.
quando finalmente aquele silêncio fora rompido, a mais nova forçou a si mesma a pregar os olhos em hyena. por mais que não fosse uma sensação agradável e por mais que chegasse perto de ser uma dor quase física fitá-la, o mínimo que a outra merecia era que haejin tivesse um pouco de dignidade de olhá-la para receber sua resposta. estava esperando por tudo de ruim que sabia que merecia, e carregaria aquela culpa de bom grado, porque, se por um lado não era sua escolha cultivar aquele sentimento por tanto tempo, por outro, a única culpada de ter escondido ele por todos aqueles anos era ela mesma. aquela decisão ela havia tomado. mas conforme a linha de raciocínio de hyena era construída e tomava um rumo completamente diferente do que ela esperava, o cenho da pianista prontamente se franziu.
as acusações que chegavam a seus ouvidos eram sérias, carregavam uma mágoa palpável por parte de hyena, mas, para haejin, não pareciam fazer sentido. justamente porque o fato de ter ficado ao lado dos dois durante tudo aquilo, e até mesmo depois do término, permanecer se dividindo, havia sido uma das coisas mais difíceis que ela já fizera — porque fizera, e disso sabia. porque ela se lembrava bem de como a sua própria vida havia ficado um pouco bagunçada ao longo daqueles meses que haviam se seguido após a separação, mesmo que, na teoria, ela não tivesse porra nenhuma a ver com aquilo. mas na prática, haejin estava ali. pelos dois. permitindo-se machucar-se com os lamentos de yoengjae, e lutando para que nada daquilo interferisse em sua visão sobre hyena.
ela chegou a abrir a boca para interrompê-la. uma. duas. três vezes. mas não o fez. porque não tinha aquele direito. sentia o coração martelar no peito a cada nova sentença afiada que complementava a anterior, mas o mínimo que devia a ela, naquele momento, era respeitá-la o suficiente para deixá-la ser ouvida. mesmo assim, não conseguiu controlar a própria expressão, que se mantinha dura e confusa ao que novas palavras escapavam na voz da amiga e desvalorizavam mais ainda os esforços que ela havia feito para não deixar a corda arrebentar para qualquer um dos lados. por alguns segundos, chegou a perguntar-se se ela realmente havia feito tudo aquilo do que hyena a acusava, pois a convicção da outra era tão grande que assustava, mas bastava se lembrar de como sentia-se exausta todas as vezes que chegava em casa, após um encontro com qualquer um dos dois, que ela se assegurava, mais uma vez, que havia, sim, se feito presente da maneira mais árdua que pôde.
aquela última frase de hyena reverberou nas lacunas da mente de haejin, que deixou um suspiro pesado escapar, notando só ali que havia prendido a respiração pelos últimos momentos do pequeno monólogo da amiga. encarou-a, mesmo a contragosto, e foi com muito cuidado que voltara a falar. “eu respeito o seu sentimento.” fora a primeira frase escolhida, pois realmente, não a culpava por sentir qualquer coisa das descritas. era a última pessoa que podia culpar outra pela forma como esta se sentia, devido a seu histórico. “mas eu não concordo com o que você disse. eu nunca abandonei você, hyena.” prosseguiu, negando levemente com a cabeça. “os meus sentimentos pelo jae não tem nada a ver com a minha amizade com você, e isso é uma das poucas coisas que sempre estiveram claras na minha cabeça durante todo esse tempo.” umedeceu os lábios, respirando fundo antes de continuar. “eu sei que não te abandonei porque, porra, só eu sei como foi difícil acompanhar os dois lados dessa história e manter o equilíbrio enquanto eu fazia isso. mesmo nas noites que eu passava tentando fazer ele se sentir melhor, escutando os desabafos sobre o término, nunca deixei isso afetar a visão que eu tinha sobre você, porque eu sabia que não seria justo.” explicou, e por mais que tentasse manter-se o mais calma e complacente que conseguia, não era fácil manter-se assim tão fria abaixo de todas as coisas que lhe foram faladas. “eu não me lembro exatamente de uma única vez que você tenha me chamado e eu não tenha ido, então, é um pouco difícil pra enxergar onde foi que eu falhei tanto como amiga. não sei o que mais eu poderia ter feito. eu sempre te escutei, hyena, sempre soube que também foi muito difícil pra você ter feito o que fez, eu me preocupei de ouvir cada um dos seus motivos e de dar o meu máximo pra me fazer disponível, para te dar a certeza que você não me perderia.”
o corpo era minimamente inclinado para frente, provavelmente movido pelo calor do momento. haejin, então, decidiu desacelerar, lembrando a si mesma que, mesmo que não se sentisse culpada por aquilo, ainda era a culpada de alguma coisa da situação. respirando fundo, ela relaxou a postura, voltando a recostar-se contra a cadeira ao que desviava o olhar do de hyena. “eu estou me desculpando por ter demorado tanto tempo pra te contar isso, hy, por ter adiado tanto essa conversa. não estou nem pedindo desculpas por sentir o que eu sinto, porque eu não escolho isso. e muito menos por ter virado as costas para você, porque isso eu não fiz. você pode não estar enxergando isso agora, e eu nem te culpo por isso, porque eu joguei nos seus ombros uma informação pesada demais para ser digerida em quinze minutos de conversa. eu sei. mas também sei que quando você parar pra pensar direito sobre tudo, vai perceber que o que eu digo é verdade.” seu tom era muito mais brando agora, e novamente, ela encarou-a nos olhos. “não vou questionar se você quiser se afastar de mim, ou se não me considerar mais alguém digna de sua confiança, só não quero que você faça isso pelos motivos errados, porque eu sempre soube que nossa amizade valia mais do que um sentimento que não tem futuro nenhum.”