desde que havia começado a considerar a ideia de ter aquela conversa com hyena, ela sabia que nĂŁo seria fĂĄcil. nĂŁo era o momento, e possivelmente nem o lugar mais adequado, mas, bem, duvidava um pouco que existia um cenĂĄrio que fosse capaz de tornar aquilo minimamente melhor. as perguntas que a amiga lançava a si fizeram-na respirar fundo, olhando em volta rapidamente antes de pregar o olhar nela mais uma vez. âeu era bem nova quando voltei pra cidade, foi numa Ă©poca que eu estava bem⊠fechada. pra tudo, pra todo mundo. o jae foi uma das primeiras pessoas que eu conheci aqui e realmente me permiti ser amiga.â sua voz era alta apenas o suficiente para que a amiga pudesse a ouvir, e a partir dali, sabia que nĂŁo seria mais capaz de manter o olhar no dela. antes de continuar, baixou a atenção para as prĂłprias mĂŁos. âfaz tanto tempo agora que eu nem consigo mais lembrar direito como começou⊠e no inĂcio, nem era algo pra ser levado a sĂ©rio. eu era tĂŁo nova, e era um sentimento tĂŁo idiota por alguĂ©m que simplesmente era legal comigo⊠mas era isso. um sentimento.â engoliu em seco antes de prosseguir. âna Ă©poca, eu pensei em falar sobre isso com ele, mas antes que eu pudesse, vocĂȘs se conheceram. e tudo bem! porque era sĂł uma quedinha idiota, entĂŁo, eu sĂł fiquei esperando passar⊠mas nĂŁo passou. nunca passou.â ergueu o olhar para ela novamente. sĂł ali parara para pensar o quĂŁo mal interpretada poderia ser, o que a fez sair de seu estado de quase paralisia e se mover, arqueando o corpo para frente na mesa, na direção dela. ânĂŁo me entenda mal, hy! eu sempre respeitei o relacionamento de vocĂȘs. nem por um Ășnico segundo eu senti raiva de vocĂȘ, eu juro! nunca tentei nada com ele, nunca cogitei tentar atrapalhar o que vocĂȘs tinham. ele⊠ele nem sabe. quase ninguĂ©m sabe.â frisou aquilo com tanta Ăąnsia que perdeu-se um pouco no fio da meada, comprimindo os lĂĄbios em uma linha reta enquanto voltava a recostar as costas contra o apoio da cadeira. âtoda noite eu peço pra parar de sentir isso, pra parar⊠parar de amar ele dessa formaâŠâ aquela nĂŁo era uma palavra que ela utilizava muito com as poucas pessoas com quem ela conversava sobre o assunto, porque, cĂ©us, doĂa admitir para si mesma que se tratava de algo tĂŁo forte. âporque todo dia que eu acordo ainda gostando dele, eu gosto menos de mim mesma por ser⊠por ser assim. por nĂŁo conseguir fazer nada sobre isso⊠ser completamente incapaz de me afastar, e ser ainda menos capacitada de falar alguma coisa⊠jĂĄ faz dez anos que Ă© desse jeito. dez anos.â era muito tempo. era tempo demais, e ainda assim, ela nĂŁo via qualquer indĂcio de melhora. Ă quela altura, as pausas ficavam mais longas, a medida que ela percebia que nĂŁo tinha uma conclusĂŁo boa para dar a tudo aquilo. estava sĂł falando, despejando coisas em cima de hyena que ela guardou por todo aquele tempo, coisas que nem eram responsabilidade dela escutar. era apenas haejin transbordando. ela respirou fundo. âacho que Ă© por isso que eu nunca consegui ser a amiga que vocĂȘ merecesse que eu fosse. Ă© por isso que eu nem ao menos consigo ser alguĂ©m por inteiro, porque uma parte minha âtĂĄ estagnada nesse mesmo lugar, e eu sinto muito. sinto muito por nunca ter te falado isso antes, e por ter deixado chegar a isso. eu sĂłâŠâ quando o nĂł na garganta jĂĄ era grande demais para conseguir ser ignorado, haejin soltou um suspiro. longo, pesado, baixo. âme desculpa.â
desde o começo, fez seu melhor para manter uma expressĂŁo neutra. considerando como haejin estava começando aquela histĂłria, e o contexto de como apresentara o que desejava falar, fazia bastante sentido que seguisse com sua teoria de se tratar de toda a histĂłria envolvendo jae, seu tĂ©rmino com ele e as amizades entre os envolvidos. na verdade, era um caminho previsĂvel. nĂŁo era nenhum mistĂ©rio para a mulher que os dois eram amigos desde antes de acabarem naquela relação que teve com ele e, por mais que doesse de certa forma - mesmo nĂŁo tendo confirmada sua suspeita ainda -, ainda era possĂvel de entender porquĂȘ ela havia tomado o partido dele. era o que gostaria? nĂŁo, preferia um lado mais imparcial da amiga, mas era algo com o qual poderia lidar. certamente com muita conversa e um tempo para refletir sobre, conseguiria lidar. era o que estava gostando de pensar, ao menos.Â
porĂ©m, no momento em que escutou as palavras da park que se seguiram, percebeu que aquilo estava tomando um rumo completamente diferente. e um que nĂŁo somente nunca havia imaginado, como começava a doer de certa forma dentro de si, e nĂŁo parecia que iria melhorar conforme ela entrava em mais detalhes sobre aquilo. pois parecia que a situação sĂł iria piorar. porque uma coisa era lidar com a paixĂŁo de sua amiga com seu ex, algo que ainda poderia tentar entender melhor. nĂŁo era como se tivesse tentado arruinar aquela relação que mantinham na Ă©poca - nos bons dez anos ao lado de jae -, portanto, crucificĂĄ-la por sentir algo incontrolĂĄvel nĂŁo era nada que gostaria de fazer, embora nĂŁo pretendesse agir como a santa evoluĂda que realmente nĂŁo era - como ninguĂ©m era, na verdade - e realmente fosse ter sua cota de mĂĄgoas sobre isso, alĂ©m da estranheza. e outra coisa completamente diferente era saber que a amizade das duas fora prejudicada justamente por isso.
hyena sentia-se traĂda, para dizer o mĂnimo. magoada, chateada, decepcionada; a porcaria que fosse, nĂŁo conseguiria descrever como se sentia verdadeiramente. arrasada, talvez, fizesse um pouco do trabalho. porque poderia aprender a lidar com o fato de sua amiga ter gostado de seu namorado, e aparentemente ainda gostar, durante todos os anos em que se conheciam. poderia estar se enganando e imaginando uma utopia em que enxergaria a situação de haejin com toda a compreensĂŁo dentro de si, e que a amizade das duas falaria mais alto, no fim das contas. pois nĂŁo tinha como saber a forma que aquilo realmente se desenrolaria na vida real, durante aquela conversa, simplesmente por nĂŁo ser realidade. justamente porque haejin nĂŁo deixara a amizade das duas falar mais alto, como se nĂŁo tivesse o mĂnimo de valor para ela; inventando mentiras e justificando com desculpas completamente esfarrapadas o motivo de nĂŁo estar mais prĂłxima de hyena, permitindo que passasse a mĂŁo em sua cabeça e genuinamente se preocupasse com o bem-estar dela, sem imaginar que nĂŁo passavam de mentiras.
deviam ter se passado mais de cinco minutos desde que terminou de ouvir o que haejin tinha a dizer, e hyena nĂŁo conseguia nem mesmo olhar para ela. encarava as mĂŁos desde metade das coisas que ela tinha a dizer, entrelaçando seus dedos e os apertando de forma que pudesse ter sua atenção removida, nem que ao menos um pouco, do que estava acontecendo. de tudo que estava sendo jogado em seus ombros e de uma situação que era capaz de machucĂĄ-la apenas por ser citada nela. mordeu o interior da bochecha para conter a vontade de chorar, os anos de prĂĄtica em ocultar suas verdadeiras emoçÔes em momentos difĂceis enfim fazendo bom uso. e, entĂŁo, respirou fundo. uma, duas vezes. atĂ© tomar a coragem necessĂĄria para colocar tudo que tinha em mente em forma de palavras, por mais rudes que estas pudessem acabar saindo. nĂŁo estava realmente tendo isso como sua maior preocupação no momento, realmente.
âsinceramente-â começou, engolindo em seco e finalmente conseguindo a força para olhar nos olhos de haejin ao falar. nĂŁo seria covarde e levaria aquilo atĂ© o fim, se recusava a hesitar ou se permitir amolecer por algum motivo. porque necessitava desesperadamente por para fora tudo o que agora armazenara dentro de si, fervendo em raiva e mĂĄgoa. âeu nĂŁo sei o que te dizer. de verdade. porque eu nĂŁo consigo acreditar que tudo o que eu ouvi Ă© verdade. nĂŁo consigo, nĂŁo consigo mesmo. simplesmente porque nĂŁo entra na minha cabeça que vocĂȘ poderia- e, sim, vocĂȘ pode, fazer algo assim comigo.â trincou os dentes. âe, nĂŁo, porra, nĂŁo estou te falando isso pelo yoengjae, pelo que vocĂȘ sentiu, sente, eu nĂŁo sei mais o quĂȘ, por ele... Ă© o que menos me importa nesse momento, de verdade. nesse momento eu, realmente, nĂŁo consigo nem me incomodar ou a porra que for com essa parte, porque existe coisa pior. e bem pior, na verdade, nessa histĂłria toda. ou vocĂȘ chamaria de outra coisa simplesmente agir como se nossa amizade nĂŁo fosse nada e jogar ela em uma lata de lixo? porque isso, sim, foi exatamente o que vocĂȘ fez.â poderia estar sendo rude, maldosa, o que fosse, mas go nĂŁo poderia se importar menos naquele momento. se sentia no direito de nĂŁo pensar antes de ir falar o que tinha em sua mente, da mesma forma que haejin nĂŁo parecia ter pensado em hyena, na amizade das duas, em tudo, antes de fazer tudo aquilo. âsabe, eu precisava de vocĂȘ. pode me achar uma insensĂvel, uma desgraçada que nĂŁo soube aproveitar o que vocĂȘ queria, e por mim tanto faz. mas eu tambĂ©m fiquei extremamente mal com o tĂ©rmino, mesmo que o meu sentimento no final diferisse tanto do dele. pode ser que a minha memĂłria esteja me falhando agora, mas eu nĂŁo me lembro de vocĂȘ ter ficado ali por mim como uma amiga, o que vocĂȘ dizia tanto que me considerava. quando eu mais precisava de vocĂȘ, tambĂ©m. ou sĂł o yoengjae merece ter sentimentos e se sentir mal, por nĂŁo ter sido quem terminou? e agora, vai me dizer que de alguma forma ele era mais merecedor de consolo por todos os meses desde o nosso tĂ©rmino, sĂł porque vocĂȘ sentia pena dele? e nunca parou pra ver o meu lado, por acaso? ah, nĂŁo.â pausou, furiosa. respirando fundo e colocando uma mecha de cabelo para trĂĄs da orelha. âvocĂȘ nem sequer tinha como saber o meu lado, sabe por quĂȘ? porque vocĂȘ nĂŁo estava lĂĄ. nĂŁo estava. nĂŁo estava por meses a fio, inventando um monte de desculpinhas quando nĂŁo estava ocupada porra nenhuma, sĂł se contasse ficar dando consolo pra ele. porque vocĂȘ nĂŁo pode realmente olhar na minha cara e me dizer que nĂŁo ficou do lado dele esse tempo todo, como se fosse o seu Ășnico amigo ali. nĂŁo pode, e eu sei disso.â a mĂĄgoa, misturada com a raiva, era presente em cada palavra de hyena. era difĂcil, muito difĂcil, assimilar que tudo aquilo estava acontecendo; que tudo aquilo tinha acontecido. ela sĂł queria acabar com aquilo de uma vez. âsabe, haejin, que eu te considerei a minha melhor amiga por muito tempo? eu sentia que podia contar contigo, confiar em ti, e sabia que era uma pessoa que estaria ali por mim. mas, aparentemente, Ă© sĂł mais uma coisa na vida na qual eu me enganei. e me enganei pra caralho. porque vocĂȘ simplesmente preferiu deixar de ser minha amiga, e esqueceu de me avisar dessa parte.â fungou, contendo-se mais uma vez de acabar chorando no meio daquilo. respirando fundo mais uma vez e se esforçando para falar em um tom mais frio, sem as emoçÔes marcando completamente suas palavras. âentĂŁo... vocĂȘ me pediu pra te desculpar. mas eu sinceramente nĂŁo acho que consigo.â