diria que o som compassado das máquinas é a terapia que ritmiza os pensamentos. o que ameniza os sentimentos revoltantes.
‘ pode ir. ’ ele sinaliza na linguagem de sinais francesa para a assistente. se considera sortudo por tê-la ao lado, mesmo quando ambos deixaram o país e voaram para tão longe. ‘ eu sigo com o resto.’
poderia até admirá-la pela coragem em aceitar morar em um lugar completamente diferente, com uma cultura completamente diferente e onde ela nunca vai se encaixar completamente – emile não tem nenhum sangue coreano ou de qualquer parte do leste da ásia. dasol, no entanto, não acha que precisa apontá-la pela coragem sobre algo tão supérfluo.
ela é como ele: capaz de muito para conseguir o que quer. e o que ela quer é o mesmo que toda o quarteto francês, agora na coréia do sul, sonha todos os dias: a cura.
ela assente para dasol e acena para o garoto loiro no laboratório.
“ é incrível o que acontece com os sentidos que nos resta. ” dasol volta sua atenção para aquele que, na verdade, sempre teve sua atenção. “ eu nunca conheci ninguém com a visão e percepção tão boa como ela. a mínima mudança, ela encontra em segundos. coisas que não percebemos. ”
poderia falar mais sobre cada um dos quatro que conseguiu trazer consigo, mas o assunto não lhe tem o interesse quando dalbit está presente.
“ bom, ” ele termina de colocar as luvas descartáveis. haviam terminado com os radiografia e colhido um pouco do sangue. o check-up de sempre; rotina. “ acho que terminamos por aqui. como você está se sentindo? ah, ” os olhos caem para os resquícios da luta no ringue.
não dá para explicar o que sente na boca do estômago, mas é preciso se concentrar nos bipes das máquinas novamente.
“ quer trocar os curativos aqui, comigo, logo? ”
dalbit gostava de fazer perguntas, quase como um hobby, mas naquele momento, ficou em silêncio. se perguntassem, talvez dissesse o que acontecia dentro de sua cabeça, ou talvez não. o fato é que os próprios pés balançando no ar o irritavam grandemente, embora não pudesse parar; aquela era só mais uma das mil coisas que fazia sem pensar, como uma obsessão, e odiava cada uma delas, sem exclusão. observava a moça que se movia com graça pela sala, pensou em como devia ser sentir daquela maneira. ‘as pessoas realmente tem propósitos? tipo, elas vivem com alguma ideia concreta do que fazer?’ pensou sozinho. parecia aleatório, mas é que pensava naquilo quando via as pessoas trabalhando, treinando, vivendo. talvez ele não estivesse realmente fazendo aquilo, ou talvez houvesse apenas decidido que era mais fácil se fechar. não que tivesse muita escolha, sua vida era um grande amontoado de mentiras. pensar naquilo fazia o estômago revirar... quase esqueceu de acenar de volta para a estrangeira que agora deixava a sala.
também gostava de ouvir a voz de dasol, mesmo que falasse sobre coisas que dalbit não precisava saber. o convencia com poucas palavras de que, sim, era necessário conhecer a vida e apercepção de emile. era como ter alguém pra conversar, alguém que sabia de tudo. reconhecia que não era o melhor lugar e talvez não a melhor escolha (seus colegas o linchariam se pudessem ler seus pensamentos), mas não conseguia evitar. os lábios deslizavam em sorrisos sinceros para o homem enquanto a franja adornava a testa, cobrindo metade dos olhos curiosos. “gosto dela, eu acho” ele disse baixo, não haviam realmente muitas coisas das quais ele tinha certeza. de qualquer forma, ainda tentava. logo os cílios fizeram cócegas na parte inferior aos olhos (como podiam ser tão longos, sério?), descansando as pálpebras enquanto fungava para si mesmo. suspirou, por fim.
“estou bem” não era mentira, mas também havia uma coceirinha triste. não queria sair dali tão logo, porque se sentia mais como ele mesmo quando não era só o menino do nome estranho. sério, essa frase tem o assombrado nos últimos dias depois de ser chamado de suspeito por aqueles alunos fofoqueiros. deu de ombros, e deve ter parecido sem contexto, porque mais pensava que falava. olhava para si mesmo, e então para dasol. “estou bem, mesmo” repetiu, embora não fosse necessário. balançou mais os pés no ar, praguejando baixinho. ele sentia que o outro o conhecia o suficiente para desvendar o nervosismo por trás das manias. as palavras o atingiram e ele riu sozinho; dasol sempre dava um jeito de cuidar dele, mesmo quando não precisava ser ele a fazê-lo. “quão logo?” ergueu uma das sobrancelhas, tamborilando os dedos por sobre os curativos. até doeu um pouco; o suficiente para fazê-lo o ar entre os dentes, o som da saliva o fazendo sentir vergonha. riu novamente, agora por timidez. “logo tipo... umas horas ou uns dias?” ergueu uma das sobrancelhas. os barulhos das máquinas pareciam muito irritantes depois de tanto tempo ouvindo, então sentiu a necessidade de puxar mais um assunto. “como você passa o dia todo ouvindo isso? chaaato...” moveu os ombros para rir, um exagero, nossa. mas mais fácil rir que demonstrar que queria ficar sentado ali ouvindo os bipes irritantes por mais uns minutos.