Vocês acharam que a gente não ia mais falar de Bananada?
Finalizando nossa série de entrevistas realizadas durante o Festival que rolou em maio e que proporcionou encontros com artistas de todo o lado do país, apresentamos hoje a goianiense Bruna Mendez que em 2016 lançou o álbum “O Mesmo Mar Que Nega a Terra Cede à Sua Calma” que contou com a produção do Adriano Cintra (ex-CSS).
W: A gente começa pedindo pra ti te apresentar com teu nome,idade e o instrumento que tu toca.
BM: Meu nome é Bruna Mendez, eu tenho 26 anos e assim, tocar real, eu toco nada né? Mas aí eu toco um pouquinho de cada coisa e quando você toca um pouquinho de cada coisa, cê não toca nada direito, mas o que eu sei tocar mais um pouquinho é a guitarra.
W: E há quanto tempo tu tá na trajetória da música?
BM: Assim, se for comparar com a história das outras pessoas que estão aqui e que tem banda e tal, é até pouco. Tem cinco anos mesmo que eu tô no rolê assim.
W: Mas que tu começou a tocar?
W: Tu te lembra quando te deu o start assim pra tocar, tipo “ó, quero isso, quero tocar”.
BM: Como em Goiânia é comum, você tem três festivais muito importantes do Brasil, então a gente cresceu vendo festival, da época que você podia ser menor de idade e entrar em festival. Então, eu comecei a ir em festival com 13 anos no Martim Cererê que é um lugar aqui de Goiânia que antigamente rolava, as coisas ainda cabiam lá. São dois teatros feito de caixa d'água antiga e é muito foda, a gente ia lá, via os shows e pensava “nossa, que massa seria tá no palco tocando”. Só que isso pra mim, nunca foi (…) - eu achava legal as pessoas lá tocando - mas não era possível, até que as coisas começaram a caminhar pra isso. Porque Goiânia é isso: se você toca, tem uma banda legal, em algum momento você vai tocar num rolê desses assim, vai tocar no Bananada, no Vaca Amarela, no Noise.
W: Sobre esse distanciamento, quando tu acha que rolou? Quando se tornou possível?
BM: Foi quando eu comecei com uma banda, eu tinha uma banda antes de ser Bruna Mendez e a gente já ia ensaiar coisas certinhas assim pra tocar em algum lugar legal. Até que rolou um Bananada, assim, então foi com essa banda, que a gente ensaiou uns seis meses, não fez show, nem nada, só ensaiou, ensaiou (…)
BM: Chamava Coletivo Musical e a gente fez assim, alguns shows poucos na cidade e nessa no próximo Bananada que rolou a galera já chamou a gente e foi muito foda. Tinha uma galera, foi num lugar legal sabe? Foi ai que eu pensei “nossa, é possível”.
W: E enquanto Bruna Mendez, teu projeto “solo” há quanto tempo ele existe?
BM: Ele existe desde que eu lancei o meu EP em 2014. Então foi desde esse EP que eu existo, foi quando eu larguei a banda e era eu que fazia os arranjos, as músicas, tudo e eu pensei assim: “vou fazer o meu negócio porque ninguém vai fazer o meu role melhor que eu sabe”.
W: E em que momento rolou essa necessidade de criar um projeto teu?
BM: É porque é foda quando você vê assim um monte de cara levar o seu negócio, ser a maioria na banda e levar seu nome, os seus méritos. Tipo “ai que legal essa bateria que você fez”. Não, não foi você que fez, você só tá reproduzindo.
W: Era mais ou menos como se tu fosse o crédito por detrás da banda porém sem os créditos?
BM: Sim, sim, era como se eu só fosse a cantora e na real eu só era a cantora porque eu fazia as músicas e tal, saca? Então foi nisso que eu pensei, “não sei se tá legal sabe?”. Porque as pessoas não contribuem como deveriam numa banda, e a gente sabe que banda é complicado, que é muito raro uma banda ter cinco pessoas e as cinco estarem na mesma vibe. Então foi nesse momento que eu percebi ó “só eu vou fazer o melhor pra mim, então, eu vou fazer o meu negócio”.
W: E nesse percurso de sair da banda, criar teu projeto foi difícil encontrar outras mulheres nesse caminho pra pegar junto contigo ou não era uma questão que importava ou que tu nem pensava “ah quero tocar com um mina” ou não apenas" quero alguém pra tocar comigo". A dúvida é onde se acha mulher no meio do caminho?
BM: É difícil até hoje, então a gente meio que… a prioridade é alguém que tenha a mesma vibe.
BM: É. Porque o caminho é muito foda o caminho pra gente. Me perguntaram se tem muitas mulheres na música atualmente, mais em Goiânia especificamente. Tipo, não tem velho, não tem, saca?. Vamo pensar assim, qual é a banda daqui de Goiânia que tem uma maior projeção que tem uma mulher? Carne Doce. Só! E se você for pensar todas as bandas dos caras de Goiânia, têm infinitas assim.
W: De Goiânia, o que a gente mais ouve falar é tu, Carne Doce e BRVNKS.
W: E em relação ao teu trabalho, qual tua pretensão a curto, médio e longo prazo?
BM: Então, com o EP, pelo que ele era a gente fez muito aqui em Goiânia, e com o disco, era muito mais um lance de eu me afirmar mesmo, sou eu, esse é meu trabalho e vocês vão ter que me aceitar daqui pra frente assim. Então com o disco meio que foi um rolê pra eu me afirmar, um esquema todo pra aparecer um pouco mais, ele tem a produção do Adriano Cintra (ex-CSS), até isso foi pensado pra ter uma projeção maior, sabe? Então eu tô pensando em lançar um outro disco no ano que vem e sim vai ser o disco que eu vou conseguir consolidar mais no meu espaço e conseguir fazer mais shows e circular mais porque pra mim ainda é meio inviável circular fazendo show.
W: E como foi esse processo de produção com o Adriano?
BM: Foi surreal. Eu só cheguei pra ele assim e falei: “Adriano, eu tô com a grana aqui que eu acho que dá pra gravar. Cê topa?” E ele falou “topo demais”. E em janeiro a gente pré-produziu o disco em uma semana aqui em Goiânia, a gente foi pra Pirinópolis que é uma cidadezinha aqui perto (histórica) e lá a gente gravou o disco em mais duas semanas e o processo foi muito corrido, mas acabou que a gente ficou junto um mês, assim. Foi muito massa pra sacar o jeito que ele produz, pra sacar ele, pra entender também como as coisas se movimentam, meu universo se expandiu, porque era minúsculo aqui dentro, e foi muito foda poder produzir com ele, porque depois dele ter produzido o disco eu consegui ter mais segura pra me afirmar. É até escroto isso.
W: Mas também até pela escolha de ser uma pessoa que tem uma visibilidade mais nacional, rola uma segurança.
BM: É. Ter muito mais orgulho do disco assim, Se fosse que nem o EP que eu gravei em casa, não teria orgulho, o EP não é paia tá? Tem uma sonoridade bem legal, é diferente do disco, mas funciona direitinho, a mensagem é legal, mas se eu tivesse feito desse mesmo jeito o disco, eu teria aquela vergonhazinha: “ô, toma ai meu cd”.
W: Sim, não ter um nome ali pra validar o quão bom ele é né?
BM: É (!!) Mas a gente precisa desse nome, se alguém chegar no rolê e falar assim: “ô escuta ela aqui porque ela é boa”, ninguém vai te escutar, então, isso é importante também.
W: Eu queria te perguntar sobre o teu processo artístico ou teu processo de criação, como que ele funciona normalmente? Pra criar uma música, pensar num ep?
BM: Antigamente eu tinha uma coisa muito com violão, pensava na música, ja gravava a guia pra fazer um arranjo, e hoje eu tenho experimentado muitas coisas que eu acho que vai ser mais caminhar o próximo eu cd, eu tenho feito coisas com synth, eu pego a guitarra, tento fazer camada de voz com synth, as letras do disco são um pouco mais difíceis uma letra ou outra, entender o que eu quis dizer, ou se eu tô falando nada, ou se é só viagem pra fritar a cabeça dos outros, mas eu tenho feito umas coisas mais fáceis, mais o instrumental primeiro e depois letra e voz, porque eu tenho um pouco de preguiça desse rolê: “ai, você é cantora né?” é, eu canto porque eu faço as músicas né, mas se for pra falar “ah, você é cantora né, canta essa música aqui então” não vai rolar, sabe?
W: Hoje em dia ainda acontece aquele processo de tu criar e repassar pra banda reproduzir?
BM: Sim, eu sou meio complicada nos processos, sabe? Ás vezes eu faço uma bateria e na hora de reproduzir, eu preciso ficar pelo menos perto e fico assim: “dá pra afinar essa caixa de outro jeito, porque não era assim que eu tinha feito” eu prefiro ter o controle por causa disso, se eu fiz e achei legal é o legal que eu quero pra reproduzir.
W: Basicamente é tua banda de apoio.
BM: É, minha banda de apoio, mas assim, os meninos que tocam hoje comigo não são os mesmos que gravaram o disco, só que a gente tá chegando num ponto que assim “beleza, eu gravei o disco lá, mas não significa que ele funcione 100% ao vivo do jeito que eu gravei, se vocês puderem fazer uma contribuição pra rolar de um jeito que vocês acham que funciona melhor, massa” e eles estão fazendo e eu tô achando que tá rolando legal.
W: Tu tem alguma música preferida do último álbum que tu tem maior apego? Ou é tipo filho assim: “gosto de todas”.
BM: Não gosto de todas, é mais fácil falar das que eu não gosto, mas também não vou falar porque as pessoas vão ouvir pensando nisso. Eu gosto muito de “Calor sol e sal” que têm um monte de gente que acha que é uma musiquinha de amorzinho, mas é uma música que eu tava muito grilada com Goiânia, larguei tudo, vendi tudo, fui morar fora e aí essa música surgiu, sabe, essa música é minha relação com Goiânia e não com outra pessoa. Daí eu fui morar fora, levei uns tapas na cara, voltei e aprendi aceitar Goiânia e a música, assim, sabe. A galera sempre pira porque eu digo “Goiânia é o melhor lugar do mundo”. Se você nasceu em Goiânia, é o melhor lugar do mundo. A gente sabe os limites da cidade, sabe onde pode circular, sabe onde acontece as coisas sabe. Acho que funciona pra quem é de outra cidade também, a não ser que a pessoa tenha uma relação muito fudida com a cidade em que nasceu. Mas é isso, eu fico duas semanas fora e já fico : “ai Goiânia”.
W: Falando um pouco das tuas influências. Quais as principais e o que tu tem ouvido.
BM: Depende do momento, a música tradicional brasileira já não me toca, só porque é bonita e tem uma letra sabe. Eu tenho escutado muita coisa instrumental, muito soul, tem uma banda que eu acho que é de Berlim que eu tenho escutado demais que é Vulpeck. Tenho escutado mais coisas assim, eu nem consigo sacar nomes, tenho ido mais pelo que a música consegue me instigar a pensar em fazer timbres, arranjos, quanto mais bagaceira e legal eu tenho achado que é o que influencia.
W: Retrospecto sobre o Bananada.
BM: Acho muito foda, se você for pensar em quatro anos atrás, não era o que é isso hoje, acho que tava pensando em ser. Eu fui tendo lugares melhores no festival e conquistando espaço a medida que ele foi crescendo e esse ano eu toquei segunda num show e hoje, e eu nunca tinha tocado num final de semana, acho que há uns quatro anos eu abro o festival numa terça, ou segunda, o que é legal também, mas não tinha uma projeção, os jornalistas ainda não tinham chegado e ano passado eu lancei um trabalho e as pessoas já viram que tem mais alguém em Goiânia que tem algo em potencial. E como eu lancei o disco no ano passado, eu acho que pra esse ano melhorou muito, conheci várias bandas legais pra gente trocar umas mensagens assim, tipo os meninos da El Toro (BH) foi muito massa pras relações assim, né, agora eu tenho que mostrar e interagir, nos outros anos parece que eu não existia no Bananada, agora eu passei a existir.
W: Pra finalizar, como o projeto tem um foco mais no feminino, eu queria saber de ti se tu tivesse que dar um conselho pra uma menina que tá começando, o que tu diria?
BM: É o que eu sempre digo pros meus amigos homens, velho, não mete a mão no rolê que não é seu, principalmente se tem uma menina, e pras meninas, tenham o controle do seu processo, não deixar o processo na mão de um cara, porque inevitavelmente ele vai te anular, então é isso, ter o controle dos seus processos e bater o pé, porque ninguém vai fazer melhor que você, fazer o seu acreditar em você.
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Fotos: Filipa Aurélio // Texto: Daniele Rodrigues