- Nós somos como uma música ruim - disse ela em meio a mais uma discussão. Só na última semana somavam-se três, uma importante, uma besta e uma besta que se tornou importante.
- Eu não aguento mais! - continuava, perdendo o fôlego e segurando o choro.
Ele se aproximou, tocou seu rosto e não hesitou em dizer:
- Eu te amo, nós vamos consertar e passar por isso.
- Não, não vamos. Você me amar não é mais o bastante.
- O que você precisa então? Eu faço todo o possível… - ela então o interrompeu:
- Para. Chega! Você não vê? O que eu preciso é impossível você fazer.
- Eu preciso sentir de novo tudo o que eu senti quando nos beijamos pela primeira vez. Eu preciso que você me olhe nos olhos e me diga o que está errado, o que você não gosta, o que você quer. É pedir muito? Sim, é pedir que você faça o impossível, porque você nunca vai enxergar o que eu realmente preciso. Esse campo de visão é turvo ao seu ver, essa atitude não está na sua essência. Estamos presos entre quatro paredes e eu não me sinto bem estando aqui com você, porque no fundo, você não dá a mínima, você não entende e nem quer. – seus olhos jorravam lágrimas e era tarde demais para voltar atrás.
O garoto não se conformava com as palavras que ouvia, nada daquilo fazia sentindo pra ele:
- Você perdeu a cabeça! Como tudo pode ser minha culpa? Eu me esforço todos os dias por você, eu faço o melhor que eu posso e eu ainda sinto como se fosse nosso primeiro dia juntos, eu ainda tenho motivos pra acreditar na gente.
- Como você pode? Na nossa primeira discussão você deixou claro o seu pensamento sobre mim e eu passei por cima disso, eu fiz de tudo pra esquecer aquelas palavras secas e vazias. Eu lutei, você não vê, mas eu mudei por você e você nunca vai enxergar isso. O ponto é esse, nós somos distintos emocionalmente, você quer me dar o mundo, mas num momento sombrio, me tira o chão e eu não posso continuar flutuando sob meus próprios pés.
- Então é isso? Você quer jogar tudo que construímos fora?
- O que foi que construímos até agora? As mágoas que afloram dentro de mim são incrivelmente mais fortes do que todos os bons momentos e eu não sei como mudar isso, não posso mais deixar o tempo passar, porque eu vou implodir e o que eu ainda sinto, vai se transformar e criar raízes profundas de sentimentos ruins impossíveis de serem curados.
- Você está jogando tudo sobre mim, toda a culpa que eu não tenho.
- A culpa também é minha. Eu fui honesta, na grande maioria das vezes, eu já estive muito confusa e volúvel, mas você procurou falhas, você procurou meu erro e achou, mas veja bem, você entendeu tudo errado, ou melhor, você entendeu do seu jeito, sem expectativas de explicações. Eu errei sim, mas você errou incontestavelmente mais.
- Porque não é assim que deveria ser entre duas pessoas que se amam, entende? Não devia ter espinhos por toda parte, eu não devia me sentir insegura sempre que estou contando uma memória, eu não devia te olhar nos olhos e não te conhecer. Eu nunca te conheci, você nunca me conheceu. Quem é você? Você é um estranho.
- Não fala desse jeito. É claro que eu te conheço, você adora elefantes e música eletrônica… - ela mais uma vez o interrompeu:
- Uau! Você sabe mesmo tudo sobre mim. Você só não sabe o que realmente importa, você não sabe como me amar.
A raiva sentida por ele exaltou seus sentidos e voz, ele não conseguia mais verbalizar e sentou por um momento no banco da praça, agora vazia e pouco iluminada. A noite estava quente, assim como sua cabeça naquele momento:
- Você se acha perfeita não é mesmo? Você sempre bebeu mais do que aguentava, você sempre foi irresponsável, sempre saiu com qualquer cara que te disesse um refrão de bolero. Você não tem valor.
- E o que isso tem a ver? Tá vendo? É exatamente disso que eu tô falando, você é baixo e mesquinho. Você é um arrogante, metido a esperto. Acha que pode destruir com as suas palavras medíocres, mas você só fortalece minha decisão desse jeito, adiei o fim, mas aqui está ele. Eu não quero mais nada que venha de você.
- Ótimo. Volta pros seus amiguinhos intímos. Você conseguiu o que queria.
Ela estava frustrada, angustiada, todos seus pensamentos estavam embolados e ela sentia uma forte enxaqueca. Era o término que ela não queria que acontecesse. Ela sabia que era o melhor, mas ainda doia, ainda latejava o coração e seus nervos. Ela caminhou para o oeste em busca do ponto de ônibus mais próximo. Seus braços entelaçados, a sapatilha que vestia contraia seus dedos dos pés e embora a noite estivesse quente, ela sentia frio. Ela queria apagar da memória os últimos meses, ela queria uma perspectiva nova, um cigarro e um copo de cerveja. Ela queria voltar no tempo, ela queria poder. Desolada, seguiu andando em passos largos:
“É o fim.” Repetia à si mesma.
Ela estava certa da sua decisão, mas por que suas lágrimas não secavam? Por que seu coração batia aceleradamente? Por que seus olhos tentavam enxergar o outro lado da rua?
Finalmente em casa, deitou-se e após poucos minutos caiu num sono profundo. Aquele dia infernal chegara ao fim.
Não existe jeito certo de terminar essa história ou qualquer outra. Os dois seguiram em frente e estão bem. O garoto não vai mudar, suas palavras continuarão machucando aqueles que o encontrarem pelo caminho. A garota não vai mudar, continuará a acreditar que fez o certo desde o princípio. Afinal, ele é como é e ela também. O que tiveram foi precipitado, mas verdadeiro. Honesto, mas vago. Intenso, mas passageiro. O que tiveram foi uma solução de elementos diferentes que no início se misturou muito bem, mas depois de algum tempo, voltou a sua forma inicial; heterogênea.