O que eu (acho que) sei até então
E veja como foi bom chegar até aqui. Seus cabelos continuam lisos, após muita química. Sua cabeça, por motivos ainda não descobertos, continua sã e pensativa. Seu coração, todo remendado, ainda bate, acelerado. Seu corpo carrega alguns roxos proporcionados pelo seu descuido, mas não lhe falta nenhum membro. A vida te ofereceu oportunidades valiosas, algumas aproveitadas, outras perdidas. A vida ainda te deu sorrisos e trouxe diversas vezes sentimentos que você não soube nomear. Hoje você olha para trás e sente saudades, sinal de que a experiência foi válida. Você olha para o futuro e não sabe ao certo como chegar lá, mas tenta aprender. Muitos de seus sonhos viraram realidade, outros não passaram de fantasias em luz negra. Você sonhou acordada e dormindo também. Pesadelos te trouxeram escuridão, mas você foi ensinada a acender a luz. Enfrentou temores em plena madrugada e ao amanhecer, encontrava-se destemida. Você foi alimentada pela saudade. Discriminada por atitudes medíocres. Sentiu o sabor pleno de felicidade e aquele como goma de mascar que acaba rápido. Foi atingida por relâmpagos de perdas que reluziram ao mesmo tempo que apavoraram. Sofreu preconceitos superficiais e julgamentos infundados. Foi compensada ao decorrer e injustiçada por meios inevitáveis. A fé foi descoberta como algo subjetivo, algo que se provoca em alguém a procura de sentido, em fuga do martírio. A religião tornou-se obsoleta no momento em que percebeu a inutilidade de um sentido artificialmente absoluto que permanece imutável. Decidiu seguir seus próprios mandamentos de forma que estivesse sempre disposta a mudá-los se por ventura isso fosse provocado por razões conscientes e voluntárias. Exerceu sua capacidade de bondade. Por circunstâncias ímpares seus demônios foram despertados e por momentos finitos falaram mais alto. Ouviu e assentiu. Concordou e discordou. Procurou ser justa e muitas vezes teve êxito. Noutras, lidou com a responsabilidade de educar sua sabedoria, de modo que ela não falhasse novamente. Mas, você não é uma máquina e seus movimentos não são previsíveis, suas atitudes podem ser premeditadas, mas suas reações são desconhecidas. Você tem a capacidade de amar. Já o fez e ainda o faz. Sua fala não o abandona assim como seus olhos e ouvidos. Suas pernas podem andar e sua gargalhada pode ser facilmente provocada, assim como seu pranto. A sua realidade não conhece a fome, nem o frio e o desabrigo. Você é ouvida e compreendida. Você teve chances na vida que muitos nunca virão a ter. A gratidão toma-lhe os pulmões e seus pulsos contemplam o ponto principal da existência: A batida rítmica de seu coração.
Você tornou-se a pessoa que não pensara em ser e apenas uma coisa ou outra tomou o rumo que esperava. Você não está desapontada e não tem mais vontade de fazer diferente. Você desistiu do projeto "Voltar no tempo" e focou no "Viver a realidade". Você esteve próxima do abismo e próxima do paraíso. Hoje, você conhece o meio termo e o acha suficiente. Você desconhece razões maiores e prefere desse jeito. Você não conhece si mesma a fundo e pergunta se realmente seria possível. Você não sabe se vive a vida da maneira que deveria viver. Mas, veja só, foi bom chegar até aqui.













