ReflexĂ”es inĂșteis sobre o quĂŁo clĂĄssico e o quĂŁo cult O Corvo (1994) seria nĂŁo fosse a trĂĄgica morte de Brandon Lee
Nota: este texto foi escrito em 2024 e postado em meu antigo blog em novembro daquele mesmo ano. HĂĄ alguns detalhes que eu mudaria ou coisas que eu acrescentaria ao texto, porĂ©m quero reproduzi-lo na Ăntegra do modo exato como ele foi postado a exercĂcio de preservação de memĂłria.
O filme de reboot da franquia O Corvo estreada neste ano de 2024, estrelada por Bill Skarsgard e FKA Twigs e dirigida por Rupert Sanders, ainda que duramente criticada e um fracasso de bilheteria, ao menos atraiu novamente o olhar do pĂșblico e crĂtica ao O Corvo de 1994, hoje considerado um clĂĄssico cult, estrelado por Brandon Lee e dirigido por Alex Proyas. Parte famoso infamemente pelo trĂĄgico acidente no set envolvendo uma arma de fogo que acabou tirando a vida de seu ator principal, Brandon Lee â filho de Bruce Lee e estrela em ascensĂŁo, revisĂ”es do filme 30 anos depois de sua estreia alĂ©m de novos primeiros contatos de uma nova geração com o clĂĄssico levantam novamente (e digo aqui ânovamenteâ por esta nĂŁo ser uma especulação inĂ©dita) a questĂŁo do quĂŁo cultuado e amado o filme seria por seu pĂșblico fiel atravĂ©s dos anos nĂŁo fosse a morte trĂĄgica de sua estrela principal, como que colocando em cheque seu suposto âmĂ©ritoâ de clĂĄssico cult, reduzindo assim seu impacto e influĂȘncia a apenas um interesse mĂłrbido coletivo ao redor de uma tragĂ©dia de bastidores, fomentando a teoria de que o filme nĂŁo se sustentaria por si sĂł.
Quanto a estas questÔes, gostaria apenas de trazer algumas consideraçÔes a fim de testar um pouco esta teoria.
A histĂłria dâO Corvo, desde sua concepção nos quadrinhos atĂ© sua fatĂdica adaptação pro cinema em 1994 Ă© permeada por dolorosos âe sesâ, jĂĄ que James OâBaar, autor da HQ original, criou a histĂłria como uma maneira de lidar com o luto pela perda trĂĄgica e sem sentido de sua noiva na Ă©poca, o que lhe trouxe um sentimento de culpa ainda mais sem sentido, alimentado pelo desejo de ter sua amada de volta, achando que de algum modo ele poderia ter evitado a tragĂ©dia. âE se eu nĂŁo tivesse feito isso? E se eu tivesse feito aquilo? E se eu sĂł tivesse esperado mais um pouco pra fazer isso?â; âe sesâ que suspostamente teriam mudado o destino, porĂ©m inĂșteis, cruĂ©is e de autoflagelo em uma mente danificada pela perda; mais tarde, a tragĂ©dia de Brandon viria a assombrar OâBaar mais uma vez com mais uma leva de âe sesâ; dessa vez nĂŁo somente a ele, mas a toda uma indĂșstria, produção, famĂlia e fĂŁs ao redor do mundo.  âSe eu sĂł nĂŁo tivesse escrito essa histĂłriaâ seria para OâBaar o seu mais novo âe seâ, enquanto os envolvidos na produção teriam os seus prĂłprios para lidar, como âe se a arma tivesse sido checada sĂł uma Ășnica vez antes de chegar nas mĂŁos de Michael Massee? E se Brandon estivesse sĂł um pouco mais distante da arma? E se a cena do roteiro nĂŁo tivesse sido mudada de Ășltima hora pelo diretor?â e tantas outras... Neste contexto, a pergunta âe se Brandon Lee nĂŁo tivesse morrido, serĂĄ que O Corvo seria um filme tĂŁo cultuado e lembrado atĂ© hoje?â soa um pouco mais cruel e insensĂvel do que deveria em comparação, porĂ©m ela Ă© sĂł mais um inevitĂĄvel âe seâ dentro da vasta gama de tristes âe sesâ que permeiam a trajetĂłria dessa histĂłria fictĂcia. Pois fato Ă© que, infelizmente, O Corvo, em suas melhores e mais memorĂĄveis encarnaçÔes, parece estar indissociĂĄvel da tragĂ©dia dentro e fora de sua narrativa diegĂ©tica e, por consequĂȘncia, comentar a obra Ă© ter sempre de confrontĂĄ-la e esmiuçå-la.
Claro que hĂĄ aqueles que preferem analisar e criticar o filme (mais especificamente) sem levar em consideração a tragĂ©dia âalĂ©m estĂłriaâ; uma postura confortĂĄvel, aparentemente simples e âjustaâ de se adotar, jĂĄ que a pura âracionalidadeâ sempre traz uma falsa impressĂŁo de que seu interlocutor seria um dos juĂzes mais aptos e qualificados a executar o decisivo âteste de qualidade final do produtoâ; a famosa expressĂŁo âsou suspeito/a/e para falarâ prova a ideia deste senso comum. Contudo, o prĂłprio processo de crĂtica da arte provĂ©m de lidar, processar e entender os prĂłprios sentimentos (ou falta deles) ao entrar em contato com uma obra, portanto razĂŁo e emoção andam juntas no exercĂcio da crĂtica. Minha questĂŁo aqui Ă© com o modo como alguns crĂticos (ou nĂŁo, Ă s vezes sĂŁo apenas pessoas comuns opinando na internet) decidem lidar com O Corvo, como se os percalços da produção nĂŁo devessem ser levados em consideração no momento de se analisar o filme a fim de criticĂĄ-lo (e a crĂtica aqui nĂŁo se resume ao seu significado limitado de se âfalar malâ do filme, Ă© mais sobre o processo da crĂtica como exercĂcio de reflexĂŁo sobre a arte em todas as suas possĂveis esferas), uma vez que julgo essa postura um tanto limitante (para ser gentil), pois ao meu ver, O Corvo, desde sua concepção autobiogrĂĄfica nos quadrinhos, Ă© uma das obras onde a crĂtica nĂŁo apenas se beneficia, como ela sĂł pode ser justa e coerente ao levar em consideração toda a sua bagagem extra estĂłria; nĂŁo porque possĂveis crĂticas negativas nĂŁo devam ser feitas, afinal, nĂŁo podemos transformar a crĂtica em um ato de piedade porque tragĂ©dias aconteceram nos bastidores â o que tambĂ©m seria desrespeitoso de sua prĂłpria maneira (e tambĂ©m porque ninguĂ©m Ă© obrigado a gostar do filme, e nem creio que ele tenha sido feito com o intuito de agradar a todos mesmo), mas porque o peso que se dĂĄ Ă s conquistas atingidas por essa obra sĂł podem ser medidas justamente se as dificuldades e desafios atĂpicos enfrentados pela produção, se comparado a outros filmes que nĂŁo sofreram com os mesmos percalços, for levado em consideração, uma vez que a fatalidade do caso de Brandon mais revela as falhas e complexidades de todo um sistema que engloba o processo de se fazer filmes â o investimento que se dĂĄ para produçÔes menores e/ou independentes, as condiçÔes de trabalho nesses ambientes e, obviamente, o uso de armas de fogo e seus processos de segurança em set de filmagens â do que a culpabilidade clara e bem definida de apenas um ou alguns indivĂduos da produção; tanto foi que nem mesmo o advogado da famĂlia de Lee teve como encontrar culpados especĂficos, pois no fim do dia, a tragĂ©dia foi uma consequĂȘncia infortuna de uma produção inteira precarizada. Resumindo: a culpa Ă© do capitalismo. (Mas apenas a modo de ilustrar ainda melhor este ponto: se vocĂȘ for virar um shot de pinga assistindo ao comentĂĄrio do diretor toda vez que ele falar que queria ter feito isso ou aquilo, ou mais disso ou daquilo, porĂ©m que nĂŁo teve dinheiro, ou nĂŁo teve tempo, ou nenhum dos dois, pode apostar que ao final do filme vocĂȘ estaria a ponto de dar PT)
Para encerrar este ponto, tudo o que quero dizer é: por todos os perrengues, traumas e gatilhos que esta produção enfrentou e pela perseverança e coragem de finalizar a obra como tributo a sua estrela principal, ainda sendo capaz de atingir um resultado satisfatório, O Corvo merece ao menos seu respeito; mas também, e principalmente, a sua gentileza.
Ou seja, tĂĄ liberado desgostar do filme, mas sĂł cuidado para nĂŁo ser um babaca đ Â
Pedro Guedes do canal Depois do Cinema aponta em sua crĂtica dupla ao filme de 94 e ao reboot deste ano que, talvez para aqueles que nunca assistiram ao Corvo original e sĂł o conhecem pela infame tragĂ©dia de bastidores, Ă© comum pensar que sua força e popularidade se resuma ao fatĂdico fato, e hĂĄ que se admitir que, por vezes, ela acaba o ofuscando, porĂ©m pessoalmente, eu tenho um pouco de dificuldade de aceitar essa visĂŁo reducionista da obra, porque primeiro: O Corvo Ă© um bom filme, com mĂ©ritos artĂsticos prĂłprios, como a atmosfera pesada, gĂłtica e grunge de uma Detroit suja e corrupta (quase uma Gotham City, porĂ©m um pouco piorada), a icĂŽnica e impactante trilha sonora â uma das melhores dos anos 90, e personagens espalhafatosos e carismĂĄticos. Mas segundo e nĂŁo menos importante, porque O Corvo foi tambĂ©m um filme influente para o gĂȘnero de ação e fantasia â lembremos que ver herĂłis ou anti-herĂłis vestidos de preto e casacos longos, performando cenas de ação frenĂ©ticas em ambientes sombrios se tornaram regra da segunda metade dos anos 90 pro começo dos anos 2000 (Blade â O Caçador de Vampiros, Anjos da Noite e atĂ© mesmo o revolucionĂĄrio Matrix sĂŁo sĂł alguns exemplos). Claro que O Corvo foi tambĂ©m uma evolução natural do Batman de Tim Burton, porĂ©m ele trouxe elementos inĂ©ditos que foram replicados em obras posteriores (para uma anĂĄlise mais completa da obra neste sentido, deixarei linkado um vĂdeo â infelizmente, em inglĂȘs â que mergulha mais a fundo na influĂȘncia dâO Corvo na cultura pop, para quem tiver interesse).
Para mim, outra questĂŁo seria a prĂłpria percepção do que constitui um âclĂĄssico cultâ â quais seriam os critĂ©rios para um filme entrar nesse panteĂŁo? Ă necessĂĄrio ele sequer ser um bom filme? Afinal, se atĂ© o dito âpior filme do mundoâ â The Room, de Tommy Wiseau â entra para a leva de clĂĄssicos cults, entĂŁo talvez essa denominação nĂŁo dependa exatamente de uma suposta qualidade dos filmes, independendo, portanto, de um suposto âmĂ©ritoâ arbitrĂĄrio baseado no quĂŁo bom ou ruim um filme Ă©. Analisando do meu ponto de vista bĂĄsico e limitado do assunto (entĂŁo podem me corrigir se eu estiver errada), mas me parece que âclĂĄssicos cultsâ estĂŁo mais ligados a filmes que sobreviveram ao teste do tempo por terem uma base de fĂŁs fiĂ©is â porĂ©m nĂŁo composta pelas chamadas âgrandes massasâ, a qual permite que o filme seja redescoberto por novos pĂșblicos com âgostos parecidosâ atravĂ©s dos anos, permitindo assim a longevidade de sua memĂłria no imaginĂĄrio coletivo. No caso dâO Corvo, especificamente, para mim ele emana uma âenergia cultâ muito forte, com ou sem tragĂ©dia de bastidores, pois ele me parece ter este DNA imbuĂdo nele â e sei que isso pode soar um tanto abstrato, mas digo isso principalmente como alguĂ©m que se interessou pelo filme somente ao ver imagens e seus posteres promocionais, sem nem ao menos saber da tragĂ©dia de bastidores, pois o que me atraiu ao filme foi sua estĂ©tica gĂłtica marcante, pura e simplesmente. E ainda que nĂŁo tenha como ignorar sua mĂstica trĂĄgica (que o coloca dentro do panteĂŁo de âfilmes amaldiçoadosâ), ajudando-o assim a ser lembrado tambĂ©m por seu infortĂșnio, a qualidade do filme e o quĂŁo icĂŽnico ele Ă© nĂŁo sĂŁo pontos que devam ser ignorados, a meu ver. Pois hĂĄ que se lembrar tambĂ©m que todos os envolvidos no projeto o entendiam, sabiam o que ele era e para quem ele estava sendo feito. NinguĂ©m na produção tinha ilusĂ”es e nem pretensĂ”es de fazer um filme que agradaria a todos e que seria um sucesso ao nĂvel de um blockbuster, o filme foi conceitualizado como indie pois era de baixo orçamento, e feito para ser o mais fiel possĂvel ao seu material base; a visĂŁo de Proyas em combinação com a contribuição e dedicação de Brandon foram pontos chave para um resultado satisfatĂłrio de um filme que soube dialogar com seu pĂșblico-alvo e a juventude de sua Ă©poca, para alĂ©m das tristes coincidĂȘncias que o circundam.
Mas claro que, nĂŁo fosse a morte de Brandon, terĂamos tido um filme diferente, e nĂŁo dĂĄ para imaginar o quanto isso teria afetado o resultado final â para melhor ou pior ou se nĂŁo teria feito diferença, nĂŁo Ă© possĂvel saber, mas Ă© difĂcil imaginar que um filme com tanta personalidade nĂŁo fosse capaz de encontrar seu pĂșblico e uma base fiel de fĂŁs, afinal, hĂĄ de se lembrar tambĂ©m que O Corvo Ă© uma ode Ă subcultura gĂłtica, portanto, imaginar que este pĂșblico alternativo nĂŁo encontraria o filme Ă© um tanto estranho.
Por fim, toda obra Ă© produto de seu tempo, e como tal, existem obras que surgem, sĂŁo criadas e botadas no mundo no momento certo, onde como por um âalinhamento do universoâ elas chegam para as pessoas no tempo mais propĂcio, e O Corvo Ă© um desses casos. Ele Ă© uma representação hiperbĂłlica dos anos 90 que tocou profundamente grande parte da juventude de sua Ă©poca porque chegou na hora certa, somando o peso de todas as suas tristes coincidĂȘncias (fora a tragĂ©dia de bastidores que acabou levando vĂĄrias pessoas ao cinema para ver o Ășltimo trabalho de Brandon Lee, o filme tambĂ©m estreou nos EUA no mĂȘs seguinte Ă morte de Kurt Cobain, vocalista do Nirvana); nĂŁo Ă toa, muitos dizem que O Corvo seria uma das melhores representaçÔes do que os gringos chamam de âlightning in a bottleâ (em uma tradução livre, seria algo como ârelĂąmpago em uma garrafaâ), pois ele foi capaz de reunir e representar uma gama de tendĂȘncias artĂsticas, tropos, temĂĄticas, sentimentos e angĂșstias existenciais do recorte de uma Ă©poca â o filme âgritaâ anos 90. E a resposta mais Ăłbvia, mas que ainda precisa ser dita sobre a especulação do inĂcio â serĂĄ que O Corvo seria tĂŁo amado e cultuado se Brandon Lee nĂŁo tivesse morrido em um acidente no set? â Ă©: nĂŁo hĂĄ como saber. Eu, como fĂŁ do filme, gosto de acreditar que sim, e quero acreditar tambĂ©m que em um universo paralelo onde acidente nenhum acontecera naquele set, a carreira de Brandon Ă© longa e de muito sucesso. Mas enquanto isso, neste universo e nesta triste timeline, que saibamos celebrar sua vida e legado apreciando O Corvo e seus tantos outros trabalhos. Pois assim como James OâBaar o fez com a âmenina que era a Shellyâ, que O Corvo entĂŁo eternize Brandon Lee e o que de bom ele nos deixou.
https://www.theguardian.com/film/article/2024/may/13/brandon-lee-the-crow-death
http://www.nytimes.com/1993/09/06/us/no-charges-filed-in-actor-s-death-during-filming.html