( 𝑐𝑒𝑚𝑟𝑒 𝑏𝑎𝑦𝑠𝑒𝑙 ) há algo profundamente perigoso em certas histórias… especialmente naquelas protagonizadas por 𝐳𝐞𝐡𝐫𝐚 𝐲𝐚𝐬𝐞𝐦𝐢𝐧 𝐡𝐨𝐨𝐤. aos 𝐯𝐢𝐧𝐭𝐞 𝐞 𝐪𝐮𝐚𝐭𝐫𝐨 anos, ela carrega o legado de 𝐣𝐚𝐦𝐞𝐬 𝐡𝐨𝐨𝐤 ( 𝐩𝐞𝐭𝐞𝐫 𝐩𝐚𝐧 ) em cada aspecto de sua narrativa. ligada a casa 𝐚𝐫𝐬𝐞̂𝐧𝐢𝐨, tornou-se conhecida entre outros alunos por sua reputação de 𝐩𝐞𝐭𝐮𝐥𝐚𝐧𝐭𝐞 e 𝐞𝐠𝐨𝐜𝐞̂𝐧𝐭𝐫𝐢𝐜𝐚 — qualidades extremamente valorizadas em mythborne — ainda que existam rumores persistentes sobre uma natureza 𝐨𝐛𝐬𝐭𝐢𝐧𝐚𝐝𝐚 e 𝐚𝐝𝐚𝐩𝐭𝐚́𝐯𝐞𝐥 escondida sob toda essa deturpada perfeição.
𝖔𝖓𝖈𝖊 𝖚𝖕𝖔𝖓 𝖆 𝖙𝖎𝖒𝖊…
muito antes da reescrita, antes do conselho, antes das palavras “felizes para sempre” começarem a soar perigosas demais para serem pronunciadas em voz alta, neverland era um reino suspenso fora do tempo; uma ilha onde o céu permanecia jovem, o mar parecia infinito e crianças jamais precisavam crescer. para muitos, era um paraíso. para james hook, no entanto, neverland sempre se pareceu mais com uma prisão cuidadosamente disfarçada de sonho. peter pan jamais envelhecia. jamais mudava. jamais sofria as consequências das coisas que destruía pelo caminho. enquanto o restante do mundo aprendia sobre perda, responsabilidade e decadência, peter continuava voando sobre os próprios destroços como se eternidade fosse um presente ao invés de uma maldição. garotos perdidos desapareciam. fadas morriam lentamente quando deixavam de ser lembradas. piratas enlouqueciam presos em ciclos repetitivos de derrotas previsíveis. e pan… ele continuava sorrindo como se aquilo tudo fosse apenas mais uma grande aventura. james hook odiava muitas coisas naquela época, mas acima de todas elas, odiava a sensação sufocante de perceber que neverland jamais permitiria que ninguém se tornasse algo além daquilo que a narrativa havia decidido. não existia futuro naquele reino. apenas repetição. então ele encontrou uma causa para se aliar.
a reescrita começou como muitas tragédias começam: silenciosamente. um acordo. um sequestro. sete pessoas ressentidas o suficiente para arrancarem o mundo dos trilhos e obrigarem a própria realidade a se curvar diante delas. enquanto rainha má desejava poder e ja’far desejava controle, hook desejava algo muito mais perigoso: ele queria que neverland finalmente crescesse. então o senhor tempo foi forçado a alterar os livros narrativos de mythborne. destinos foram mutilados. histórias foram rearranjadas. e pela primeira vez desde sua criação, neverland sentiu o peso do tempo cair sobre ela. as estrelas mudaram primeiro. depois vieram os ventos. as crianças começaram a crescer rápido demais. algumas adoeceram. outras simplesmente desapareceram floresta adentro, incapazes de sobreviver fora da lógica antiga daquele reino. as fadas perderam parte de sua luz. o mar tornou-se escuro, pesado e silencioso. e peter pan… peter finalmente caiu.
ninguém sabe exatamente o que aconteceu entre eles naquele dia. existem histórias diferentes espalhadas pelos corredores de everafter e pelos portos de neverland. algumas dizem que hook matou peter pan. outras afirmam que peter enlouqueceu ao sentir o tempo alcançá-lo pela primeira vez. há quem jure tê-los visto lutando sobre o mar durante horas antes do céu inteiro desaparecer sob uma tempestade negra. o único fato conhecido é que peter jamais voltou a ser o mesmo. hoje, poucos sequer ousam chamá-lo por aquele nome. o garoto que nunca crescia tornou-se apenas mais um homem escondido em algum lugar de neverland, longe dos olhos públicos, enquanto james hook assumia o controle do reino ao lado de wendy darling. sim, wendy darling. talvez essa tenha sido a parte mais cruel da história. wendy lembrava de tudo. das aventuras, da infância, do amor e do menino que um dia a ensinou a voar acima das estrelas. e ainda assim, quando a reescrita terminou, ela escolheu permanecer ao lado de hook. alguns acreditam que foi medo. outros, sobrevivência. existem aqueles que dizem que james jamais lhe deu escolha alguma. a verdade provavelmente se perdeu em algum lugar entre todas essas versões. mas wendy ficou. e neverland assistiu seu novo rei transformar o antigo paraíso em algo completamente diferente.
sob o governo de hook, o reino tornou-se belo da mesma maneira que naufrágios podem ser belos vistos de longe: melancólico, silencioso e condenado. os mares passaram a obedecer magia abissal antiga, criaturas marítimas começaram a surgir nas profundezas ao redor da ilha e a antiga alegria caótica de neverland foi substituída por uma corte aristocrática onde festas luxuosas acontecem sob lustres dourados, enquanto o restante do reino apodrece lentamente além das janelas.
hook venceu.
(créditos à @fairytaleish e @vicklvnd)
𝖆𝖓𝖉 𝖓𝖔𝖙 𝖘𝖔 𝖍𝖆𝖕𝖕𝖎𝖑𝖞 𝖊𝖛𝖊𝖗 𝖆𝖋𝖙𝖊𝖗…
mas a história não terminava ali, terminava? neverland era uma terra absolutamente resistente ao fim, independente da reescritura. ela queria continuar vivendo além do lugar decadente que havia se tornado. wendy, agora vítima do envelhecimento, se colocava na história como alguém deslocado por forças infinitamente fora de seu controle. entre peter, já quase reduzido a um vestígio mal sustentado pela memória coletiva, e um reino decrépito, a escolha passara a ser uma espécie de acomodação progressiva dentro de limites cada vez mais estreitos. não havia resolução clara. sem possibilidade de retorno à terra de origem, sem qualquer promessa de desfecho que não repetisse variações do mesmo ciclo, wendy aceitara aquilo que surgira; um cenário inimaginável. a aliança com hook veio da sua vontade de resistir, de sobreviver. com o tempo, entretanto, mais que um pacto político ou arranjo funcional, a conexão passou a adquirir uma densidade cotidiana feita de presenças contínuas, silêncios que se acumulavam sem necessidade de explicação e uma proximidade que já não se justificava. era uma espécie de entendimento não verbalizado, como se certas perguntas, ao serem formuladas, desorganizassem aquilo que ainda se mantinha minimamente estável. hook era tudo que havia lhe sobrado. e a resposta para qualquer outra pergunta não lhe importava.
é nesse arranjo que zehra surgiu, o bebê chorão de cabelos negros que nasceu num dia de mares revoltos e tempestades intensas. ela tinha os olhos exatos do pai. ou, pelo menos, pelos segundos iniciais em que conseguiram acalmá-la. pois uma vez novamente entregue ao berreiro, poderia ser visto a manifestação de uma tonalidade azulada. que desapareceria se a fizessem rir, como se obedecessem a manifestação de seus sentimentos. não importava muito se, no fim do dia, quando distraída sobre nada em específico, os olhos retornassem à coloração biológica, iguaizinhos aos de seu pai. porque para hook, isso não se configurava como herança… nem como promessa de orgulho. se fosse sincero, o nascimento de zehra era apenas uma sobra sem função dentro de uma lógica de sucessão que já estava completamente ocupada por zayhan. talvez estivesse atrasada demais, ou talvez fosse simplesmente a maneira como as coisas sempre funcionariam. ela aprendera da pior forma que em neverland, as coisas funcionavam exatamente assim.
para wendy, no entanto, zehra nunca ocupou o lugar do excesso dispensável, mas o de uma centralidade instável que exigia manutenção constante. seguia na repetição de gestos que tentavam sustentar alguma continuidade em meio a um ambiente que parecia sempre à beira de se desfazer. pentear os cabelos, repetir histórias antigas, dividir os restos de memórias que pareciam perdidas em sua mente. sobre seus avós, sobre seus tios… sobre… algo que ela parecia perder meio a fala. ela também incorporava narrativas sobre piratas, alimentava os sonhos da filha sobre mimetizar o pai e lançar-se para dominar os mares além de neverland. a menina cresceu atravessada por essa duplicidade. nela se acumulavam traços que surgiam de hook sem mediação consciente, e fragmentos de wendy que apareciam em momentos isolados. era ignorante, egocêntrica, petulante e egoísta… mas também absurdamente sagaz, sonhadora… e escondido em suas camadas mais profundas, esperançosa. entre essas duas origens não havia conflito definido nem possibilidade de síntese, apenas sobreposição que variava conforme o tempo e as circunstâncias. ela podia agir com dureza sem perceber plenamente o impacto disso, e ao mesmo tempo demonstrar uma atenção inesperada a detalhes que pareciam não interessar a mais ninguém. tudo de bom que se concentrava em seu sangue parecia vir da mãe, e estar em constante batalha com a outra parte sua.
o amor de wendy, entretanto, pouco pareceu importar em seu aniversário de treze anos. como já estabelecemos, hook era alguém egocêntrico. egocêntrico o suficiente para não pagar por algo que ele achava que não merecia ser pago. não importava quem fosse, nem mesmo úrsula. e dentre todos vilões, a rainha do fundo do mar parecia ser uma das poucas que sabia que zehra não era mais uma criança perdida que fora adotada. ah, e que momento para ter esse conhecimento. pois ela achara, em sua ilusão, que muito mais doeria para hook ao ter sua filha biológica arrancada de seu lar, mais do que qualquer outro. para aquilo, não houve espetáculo, não houve anúncio. em uma noite, sem deixar vestígios, zehra foi arrancada de seu lar. sua mãe se desesperara, seus irmãos entraram em pânico… e hook… ele não reagiu. de forma visível, de forma invisível. poderia ser que seu orgulho estivesse ferido por ter algo que era uma propriedade sua sendo subtraído para o fundo do mar. mas ele se recusava a transformar o acontecimento em algo que tinha o afetado. preferia dar à úrsula o gosto de sua indiferença. independente dos meses… independente dos anos. ela fora esquecida como um navio naufragado.
foram anos de muito estresse entre o casal, pois wendy desconhecia quem havia sequestrado zehra, e muito menos por quais motivos. nada disso lhe chegara por vias diretas, e ela nunca parara de lutar para encontrar sua filha. por seis anos, sua ausência sustentou formas distintas. no início, apenas como consequência de uma dívida, depois como presença funcional dentro do domínio de úrsula, onde sua capacidade de metamorfosear passou a ser moldada para responder a conflitos que fossem úteis à marelis. nesse processo, qualquer margem de escolha foi sendo reorganizada em utilidade. pagava lentamente a dívida de seu pai com o própria empenho, e conquistava seu lugar ali. mais confiança. mais espaço. a liberdade mínima para que se expandisse e conhecesse o mar que tanto sonhara em dominar.
havia ali um ligeiro benefício implícito. porque o ambiente em que ficara restrita, mais que qualquer ano de aula em everafter, fora capaz de aprimorar como nunca suas habilidades. desenvolveu a capacidade de respirar embaixo d’água, para que os feitiços não fossem mais necessários. pudera adaptar-se para igualmente mover de maneira mais fácil embaixo da água. livrar-se das pernas que pareciam destoar tanto dos demais ali; algo que sequer conhecia ser capaz de fazer. e ao fim de sua captividade, parecia-se muito menos com uma prisioneira e mais como uma cidadã de marelis. não havia nisso qualquer traço de libertação, entretanto. a adequação progressiva e forçada não lhe servira para diminuir nem um grama do ódio crescente pelo seu pai. quando kismet finalmente revelou a localização para zayhan, o resgate aconteceu sem que houvesse retorno real ao ponto de origem, porque o que encontraram já não coincidia com aquilo que havia partido. zehra voltou, mas o retorno apenas evidenciou a distância entre versões de uma mesma vida que já não se sobrepunham.
na noite de seu retorno, neverland implodiu em outra tempestade terrível. nem james nem wendy foram poupados da violência acumulada daqueles anos. fora zayhan quem a resgatara, e era o único a quem deveria respeito. zehra chegou sem margem para negociação. houveram gritos, objetos quebrados, ameaças, verdades descobertas sendo jogadas ao ar. e então, no ponto em que qualquer resolução parecia improvável, ela deixou o lugar com o irmão, para nunca mais retornar
foram meses ao lado dele, para enfim deixá-lo quando conquistou o próprio barco. a partir daí, aquilo que havia sido vivido sob forma de aprisionamento se transformou em rejeição gradual de qualquer definição fixa. a ideia de vilania passou a produzir asco; nem vilã, nem heroína, mas algo que circulava entre ambas as posições sem se fixar em nenhuma delas. um lado faz contrabandos, fecha negócios ilícitos, com fins questionáveis. lucra em cima daquele disposto a pagar mais. e outro… parece estar junto das camadas de oposição. travestida da identidade de heroína, com um nome inventado, sob metamorfose suficiente para não ser identificada pelo seu nome verdadeiro. em alguns dias, é difícil para ela de saber exatamente qual das duas partes é a verdadeira, qual é o personagem. ela não pensa muito sobre isso, e segue vivendo em sua deliciosa dualidade.
𝔴𝖍𝔞𝖙 𝖑𝔦𝖊𝔰 𝔴𝖎𝔱𝖍𝔦𝖓…
metamorfose.
o metamorfo possui a habilidade de alterar sua forma, aparência e constituição. essa transformação pode envolver mudanças simples, como altura, peso, cor dos olhos, tom de pele, textura dos cabelos e traços faciais, ou modificações muito mais profundas, capazes de reestruturar músculos, ossos, órgãos, tecidos, e composição celular. através desse poder, o usuário pode assumir diferentes formas, adaptar-se a ambientes hostis, reproduzir características de outras criaturas, ampliar capacidades físicas específicas ou modificar completamente sua identidade visual.
esse domínio permite que o metamorfo altere livremente sua densidade, elasticidade, resistência, flexibilidade e proporções corporais. membros podem ser alongados ou encurtados, partes do corpo podem assumir formatos incomuns, e sua anatomia pode ser reorganizada para atender necessidades específicas. dependendo da extensão da habilidade, pode desenvolver estruturas biológicas temporárias, como garras, presas, carapaças, asas, brânquias ou sentidos aprimorados, adaptando-se rapidamente às circunstâncias. formas compactas podem favorecer infiltração e furtividade, enquanto formas ampliadas podem aumentar força, alcance e capacidade destrutiva. uma das aplicações mais versáteis desse poder consiste na imitação. o usuário pode reproduzir a aparência de indivíduos específicos, copiando traços físicos, proporções corporais, voz e outras características visíveis.
apesar de sua enorme versatilidade, o usuário altera apenas a si mesmo, não possuindo controle direto sobre a forma de outros seres ou objetos externos. mudanças mais complexas exigem compreensão daquilo que está sendo reproduzido. copiar superficialmente a aparência de uma criatura é consideravelmente mais simples do que recriar estruturas internas funcionais ou capacidades biológicas específicas. características físicas podem ser imitadas dentro dos limites da transformação, mas conhecimentos, memórias, experiências, poderes sobrenaturais e habilidades aprendidas permanecem fora de alcance.
modificações sucessivas em curto período podem provocar fadiga física, desgaste metabólico, dores intensas, perda de precisão nas transformações ou colapso parcial da forma adotada. alterações extremamente complexas exigem concentração constante, podendo falhar sob estresse, ferimentos graves ou exaustão. a integridade do usuário permanece vinculada à sua capacidade de sustentar a própria estrutura. danos sofridos durante uma transformação afetam diretamente o corpo assumido e podem comprometer futuras alterações. caso ultrapasse seus limites, o metamorfo corre o risco de sofrer instabilidade biológica severa, regressão involuntária à forma original, e falência orgânica temporária.
𝖙𝖍𝖊 𝖉𝖆𝖎𝖑𝖞 𝖗𝖔𝖚𝖙𝖎𝖓𝖊…
contrabandista.
dizem que… o que você precisar, zehra pode conseguir para você. com a capacidade de metamorfose, ir e vir não é um problema, e tampouco adquirir qualquer que seja o produto, lícito ou ilícito. portas trancadas, fronteiras, identidades, autorizações; tudo isso tende a perder importância quando se pode vestir outro rosto. por isso, seu nome circula com frequência nos mercados paralelos, entre negociantes, criminosos e gente desesperada o suficiente. só saiba: nada é barato com ela. zehra não construiu sua reputação distribuindo favores. cada pedido tem um preço, e quanto mais raro, perigoso ou inconveniente for o item desejado, maior será a conta. ainda assim, muitos consideram um valor justo a pagar, afinal, poucos conseguem entregar resultados com a mesma eficiência. e… é muito importante que você não deva absolutamente nada para zehra. porque ela cobra; e quando não é em dinheiro, costuma sair muito mais caro.
𝖙𝖗𝖎𝖛𝖎𝖆 𝖙𝖎𝖒𝖊!
vem aí!

















