era fácil compreender, então, por que distrações ocupavam tão pouco espaço na vida de leyla. organizada em torno de um propósito, como já afirmado, qualquer desvio, por menor que fosse, trazia consigo a sensação de estar cedendo terreno a alguma coisa que não importava. distrações embaralhavam prioridades, alteravam o peso das escolhas. ainda assim, com amara, era irremediável. como acontecia com zehra, acontecia também com leyla. podia esquecer, por instantes, tudo o que havia vivido sob o outro rosto, tudo o que aquele vínculo significava quando observado a partir de uma identidade distinta, e ainda assim permanecer absurdamente envolvida. a memória da proximidade continuava inteira, sensação retida no corpo. o toque breve, a maciez da pele de amara contra seu rosto, o roçar delicado junto à testa, quase nada. e, no entanto, o bastante para interromper a urgência de partir. o bastante para que começasse a reunir desculpas em silêncio, uma após a outra, que lhe permitissem ir embora acompanhada. só por aquela noite, poderia conceder a si mesma uma exceção? pois além de uma pessoa dirigida com propósito, leyla era tão humana quanto zehra. “temo que nunca consiga ficar tempo o suficiente.” sorriu ao dizer, acompanhando o sorriso que se formava nos lábios de amara. não era negar, apenas uma confissão incompleta. na intimidade discreta oferecida pelo camarote, o espaço entre ambas parecia menor do que realmente era. os ombros se tocavam de vez em quando, roçavam com a leveza de um acaso repetido. quando baixava os olhos para as mãos, tinha a impressão absurda de que os próprios dedos adquiriam vontade, curiosidade independente, ansiosos para tocá-la pela mão, pelo pulso. não o fazia. mantinha as mãos consigo, imóveis, enquanto memorizava tudo o que lhe era permitido perceber em suas palavras. informações pequenas, mas leyla suspeitava que muitas delas não fossem divididas com mais ninguém. “não costumo ficar para as apresentações. talvez devesse assisti-las mais.” voltou os olhos para o palco, embora a atenção permanecesse fragmentada pela presença ao lado. “você faz parecer mais interessante do que acho que conseguiria perceber por conta própria.” não insistiu no assunto da mãe. ali, desviou os olhos para o restante do camarote. percorreu as fileiras, os rostos iluminados apenas pela luz que escapava do palco, tentando descobrir se alguém havia se interessado demais pela conversa. pareciam protegidas pela concentração coletiva no espetáculo, mas leyla não julgava suficiente. quando tornou a encará-la, entretanto, a cautela parecia ter perdido parte de sua força. “e se...” começou, deixando a frase repousar enquanto diminuía um pouco a voz. “se eu lhe mostrar, em vez de dizer?.. talvez consiga responder melhor às suas perguntas.” sustentou o olhar de amara por mais um instante, como se tentasse descobrir, antes da resposta, quanto daquela proposta já havia sido compreendido. “você viria comigo?”