DEITEI-ME COM A MORTE A primeira vez que me deite com a morte, tinha apenas 14 anos, e nossa foi demasiado assustador, tive uma infĂąncia comum, corria, gritava e brincava, num dia daqueles ensolarados e lotado de correrias e confusĂ”es, como devia ser a vida de toda criança, estava brincando com meu skate, e nossa, como eu amava aquele skate, corria de cima para baixo, qualquer barranco era divertido com o skate, e em um desses barrancos, acabei sofrendo um acidente, caĂ, quebrei a perna, cortei tambĂ©m o braço, e perdi bastante sangue, foi a primeira vez que deite-me com a morte. E nossa, ela era medonha, sentia muito medo dela, fria e triste, queria fugir, havia em mim uma repulsa quase que natural a ela, a descreveria como um monstro horrendo que nos rouba aquilo que amamos, ela nos rouba o skate. Acordei em um hospital, minha mĂŁe ao meu lado chorava copiosamente, se culpava pelo acontecido, dizia ser uma pĂ©ssima mĂŁe, e todas essas coisas que a culpa traz consigo, fiquei aliviado ao ver o rosto de minha mĂŁe, mesmo que deformado pela tristeza. A segunda vez que me deite com a morte, tinha 32 anos, a vida tinha corrido a passos largos, muita coisa havia acontecido desde a primeira vez que a vi, havia me casado e tinha um filho lindo, tudo andava bem, atĂ© aquele fatĂdico dia, um dia em uma triste manhĂŁ, chego em casa e vejo minha mulher de malas prontas, com meu filho no braço, esbravejando aos ventos, ela dizia, ânĂŁo aguento mais, a muito tempo nĂŁo sou feliz, nĂŁo consigo sorrir, nĂŁo quero mais vocĂȘ!!â; esses quatro nĂŁo me feriram a alma, naquele mesmo dia ela foi embora, levando consigo tudo, absolutamente tudo, minha vida, minha alma e minha alegria, decidi sair para beber, jĂĄ nĂŁo aguentava mais tudo isso, nada fiz para merecer tal coisa, sempre fui bom para ela e para nosso filho, aquela vagabunda. Chegando em casa, estava decidido a dar um fim a tudo, tomei todos os comprimidos que encontrei pela casa, foram cerca de 35, e deitei, torcendo e esperando pela morte. Quando dei por mim, ela lĂĄ estava, deitada ao meu lado, tĂŁo linda, nĂŁo recordava de tamanha beleza, tinha um cheiro agradĂĄvel, quase que familiar, me abraçava de maneira tĂŁo amena e calma, estava apaixonado por ela, desejei ela para mim, porĂ©m, fui tirado do meu deleite, acordei, e dei de cara para o mesmo dia cinza e horrĂvel teto, nunca amaldiçoei tanto a mim mesmo. Hoje tenho 73 anos, estou cansado, porĂ©m experiente, passei por poucas e boas, estou escrevendo isso da cama de um hospital, hĂĄ vĂĄrios aqui como eu, desenganados, vou deitar-me com ela mais uma vez, mas dessa vez, tenho a impressĂŁo de que serĂĄ a Ășltima, dessa vez, ela estĂĄ mais paciente, me espera no canto da sala, com a fundada certeza que irei ter com ela. Ela tem um aspecto frio, mas nĂŁo medonho, sei que serĂĄ uma longa viagem, mas sinto que ela tem experiĂȘncia em ser companheira de pessoas como eu, ela me olha com o olhar diferente das Ășltimas vezes, nĂŁo Ă© sedento, Ă© quase rotineiro, acho que um velho decrepito como eu, nĂŁo lhe chamarĂĄ tanta atenção, em suma, a morte me parece normal agora. E vocĂȘ que estĂĄ lendo esse texto, como parece a morte para vocĂȘ? e estĂĄ preparado para recebĂȘ-la?

















