Cartas para mim: Nosso Ăltimo Beijo
JĂĄ passava das duas da madrugada. Eu deveria estar indo para casa e vocĂȘ, assistindo sĂ©ries em seu quarto, mas estamos aqui, sentados um de frente para o outro, dançando com nossas mĂŁos enquanto ouvimos âCan I Call You Tonight?â. Sua expressĂŁo de ternura enquanto eu acaricio o seu rosto Ă© tudo o que eu preciso para me sentir em paz. Seus dedos deslizam pelo meu rosto, nossos lĂĄbios se aproximam, e eu sussurro para vocĂȘ: âUm Ășltimo beijo antes de tudo acabarâ.
Tudo na vida tem um fim, alguns sĂŁo inesperados, outros, premeditados. Alguns fins parecem nunca acabar, mas outros tĂȘm começo, meio e, quem diria, um fim. VocĂȘ me ensinou que alguns fins podem ter sabor de um cafĂ© fresquinho, com direito a chantilly e raspas de chocolate, ou entĂŁo de um matchĂĄ bem quente na sua caneca favorita enquanto vocĂȘ lĂȘ um bom livro e escuta o barulho da chuva para te acalmar. E sabemos bem que, de tudo o que aconteceu em uma histĂłria, sĂŁo sempre dos fins que nĂłs mais nos lembramos.
Sabe, desde a primeira vez que nos beijamos, eu sempre soube que essa seria uma histĂłria com começo, meio e fim. Eu nĂŁo queria aceitar isso, de jeito algum. VocĂȘ Ă© minha melhor amiga, minha companheira mais incrĂvel, aquela pessoa que basta um simples âoiâ para o meu dia ficar magicamente melhor. Eu tentei burlar esse fim, mesmo sabendo que ele era inevitĂĄvel, porque o futuro com vocĂȘ parecia perfeito. Mas entĂŁo eu entendi.
VocĂȘ se lembra de quando conversamos indignados sobre como algumas de nossas obras favoritas deveriam ter acabado mais cedo? De como estenderem por mais uma ou duas temporadas foi uma decisĂŁo horrĂvel e estragou todo aquele sentimento Ășnico que tĂnhamos por elas? Falamos por horas sobre o que farĂamos de diferente e sobre como jamais deixarĂamos isso acontecer com nossas prĂłprias histĂłrias. Bom⊠chegou a hora.
Uma Ășltima mĂșsica toca no som do meu carro, nĂłs nos olhamos e assentimos com a cabeça: uma Ășltima volta de carro pela madrugada. As ruas estĂŁo vazias, tudo estĂĄ iluminado e em cĂąmera lenta. Ă como se a cidade tivesse preparado esse momento sĂł para nĂłs, para a nossa Ășltima dança. Seus cabelos balançam com a brisa que entra pela janela, nossas mĂŁos flutuam atravĂ©s do ar da noite. A mĂșsica estĂĄ acabando e nossos dedos se entrelaçam, numa Ășltima tentativa de agarrar esse momento e lavĂĄ-lo conosco. Na minha cabeça, um Ășnico pensamento: como Ă© bom estar vivo com vocĂȘ.
Eu acredito que o maior presente que o universo pode nos dar Ă© a chance de nos sentirmos infinitos diante momentos verdadeiramente especiais. Tudo na vida tem um fim, mas vocĂȘ me mostrou que nem todos os finais precisam ser ruins. E que alguns finais sĂŁo sĂł outros começos.
E nesse romance adolescente entre uma Rainha e um Coração Valente, esse é o final que eu escolhi.
Para sempre ser o seu Coração Valente.