CIBERPEDAGOGIA ❧ Tecnologia informativa, a fusão homem-máquina e a pedagogia tecnológica pós-moderna.
O conhecimento da periferia, o conhecimento central e a elite cibernética- Bakhtin
Quando nos tornamos a pensar sobre a determinação dos valores de conhecimento do mundo objetivo, das coisas tais como são, acabamos por cair na categorização de conceitos científicos específicos, muitos destes completamente atrelados a circunstâncias sócio culturais que em grande parte determinam e aplicam uma força dialética sobre a experiência da vida. Esta determinação conceitual ocorreu, dentre outros assuntos, com as teorias da linguagem tão amplamente discutidas por Mikail Bakhtin entre outros grandes teóricos. São determinações teóricas intrinsecamente ligadas a movimentos culturais, muitas vezes de cunho político e ideológico, que criaram linhas de pensamento divergentes levando em consideração as movimentações de esferas sociais superiores como conceitos morais, estéticos, hermenêuticos, científicos e políticos, na formulação de cada uma de suas teorias.
A forma como estas variáveis sociais ideológicas alteram ou até mesmo regram as características subjetivas dos indivíduos a elas dispostos não é diretamente mensurável, entretanto, é necessário reconsiderar o ponto exato de convergência entre a “consciência social” e o que se poderia denominar como “consciência de sociedade”. Estas duas se diferem essencialmente no ponto em que não consideramos mais a consciência de um ser como uma estrutura apenas dependente de sua unidade e estando desta forma desconectada do mundo exterior como algumas teorias do começo do séc. XX –berço da psicologia moderna - e o início do conceito de individualidade, sendo que “consciência de sociedade” refere-se ao pensamento acerca das relações sociais a partir de uma estruturação racional, portanto técnica e cientificizada, e “Consciência Social” trata da argumentação de que a consciência surge do combate constante entre Ente e Realidade, no sentido de estabelecer todas as considerações da realidade a partir desta dualidade dialética, vista em todas as manifestações humanas, a partir da linguagem. Desta forma, todas as atividades conscientes que se referenciam ao “Eu”, o fazem a partir da consideração do “Eu frente ao outro e ao mundo”, criando uma malha extensa e complexa de ligações conscientes determinando o todo e o uno, o universal e o particular, a fala e a língua, a expressão e o ato.
A única definição objetiva possível da consciência é de ordem sociológica, A consciência não pode derivar diretamente da natureza (individual), como tentaram e ainda tentam mostram o materialismo ingênuo e a psicologia contemporânea. (2010, pag.35)
Desta forma, não se pode considerar a consciência como um fenômeno normativo determinante da essência do Ente como criatura individual, mas de acordo com Bakhtin, é necessário que se pense em construção da consciência a partir do choque dialético entre o Ente e as experiências diretas, no que se categorizaria como uma espécie de Materialismo Dialético marxista.
Assumindo que as estruturas conscientes do individuo sejam, ao contrário do que se propõe pela bibliografia da psicologia moderna, constituídas através de uma série de choques referenciais do Ente com sua condição de existência social, em detrimento de uma estrutura que precede o contato dialético humano, se faz necessário que seja considerada a condição da acepção da realidade como em um contínuo processo de troca que não somente insere informações, mas determina fundamentalmente a maneira como se converte experiências em concepções racionais e assim a realidade mesma. Desta forma, para Bakhtin,
(...)o Ideológico não pode ser explicado em termos de raízes supra ou infra-humanas. Seu verdadeiro lugar é o material social particular de signos criados pelo homem. (2010, pag.35)
Se trouxermos para o momento histórico em que o Brasil se insere, poderíamos transliterar os conceitos Bakhtinianos para que entrassem em conformidade com as movimentações específicas desta realidade social, e desta forma nos depararmos com as diversas determinações culturais ou condições de relação com a vida, criadas a partir das diferenças sociais em várias esferas desta análise, sejam linguísticas, econômicas, comunitárias e outros traços considerados como Traços Identitários. Desta forma, a criação de um vínculo com a realidade determinada pela cultura chamada periférica, assim como a da elite social, ou a consciência que resulte do fato de ser brasileiro, inserido em determinado momento histórico, político, social, frente ao mundo como se configura, tendo estas relações de uma grande malha humana cada vez mais ampliada determinando diretamente uma espécie de Fisiologia da Consciência. São fatores que criam a forma como a consciência humana se desenvolve, portanto, sua relação com o meio, posto que como Bakhtin previa, não se trata de uma movimentação consciente individual mas de uma estruturação dependente do coletivo, eternamente baseada nesta malha como um Eu eternamente baseado na infinitude dos “Não Eus”.
O conceito do Idealismo como “construção da realidade”, elaboração de vínculos, criação da identidade, ou seja, a relação do indivíduo com sua realidade mais direta depende completamente da maneira como os fenômenos da realidade objetiva são tratados frente à mente deste indivíduo em busca de conhecimento, tem sido amplamente retratado como fundamentador teórico das modernas movimentações intelectuais no que alguns autores chamam de Neoidealismo. Como se estruturam estes novos conhecimentos? Se a consciência não é um dado individual do ente biológico, no que interfere a entrega de uma realidade Ideológica para a mente em busca de experiências?
Na condição proposta no que poderíamos chamar de Neoidealista, onde a realidade se fundaria na formalização do mundo à imagem mental daquele que o concebe, a ciberpedagogia cria um paradoxo do conhecimento pela simples desconexão do Ente exposto a um estudo e sua relação de vivência da experiência pura, onde estariam postas outras categorias de fenômenos que em muito se diferem da lógica métrica e previsível de um simulacro científico. Desta forma, a construção da realidade pela lógica da consciência individualizada tornaria o mundo um grande cenário de fenômenos estruturados e quando muito imprevistos, ao revés de inserir o indivíduo no centro do caos fenomenal enquanto espectador e agente direto das movimentações fenomenológicas que o cercam. O olhar que repousa sobre um fenômeno pode determinar este fenômeno, entretanto o olhar por si, é determinado pelo fenômeno social.
É impossível reduzir o funcionamento da consciência a alguns processos que se desenvolvem no interior do campo fechado de um organismo vivo. Os processos que, no essencial, determinam o conteúdo do psiquismo, desenvolvem-se não no organismo, mas fora dele, ainda que o organismo individual participe deles.(2010. p49)
Ou seja, muito embora se possa considerar que pulsões naturais possam surgir do indivíduo biológico para além das consideradas manifestações instintivas, o processo comunicativo vai muito além destes estados primários do ser e existe principalmente na vida social complexa, o que reaparece nas análises sobre o psiquismo dos indivíduos que invariavelmente demonstram a mais completa dependência e interligação entre a psique e seus meios sociais como referência.
Na pedagogia, assim como na linguagem, isto significa que a formalização do conhecimento supostamente interativo-cibernético da forma que dispomos atualmente, entregue sobre uma plataforma de variáveis finitas e previstas, pode ir além de ferir a formulação de conceitos teóricos, mas dar condições cada vez mais favoráveis para o estabelecimento de uma relação de conhecimento construído por individualidade teórica, rumando à formação de uma realidade social, comunitária, onde os dados sociais de um indivíduo pertencente a uma comunidade criassem traços determinantes na construção da sua realidade.
Em outras linhas, o indivíduo pertencente a uma esfera social que como toda comunidade determina seus signos e suas formas de relação com sua realidade através do dado cultural, não tem mas a dependência destes conhecimentos comunitários para estabelecer sua realidade, e com o suporte de tecnologias informacionais, desenvolve uma relação individualista com o mundo que o cerca. É importante aqui ressaltar que, como nos diz Bakhtin, não há como afirmar a existência de uma estrutura intrínseca denominada Indivíduo, sendo que este é um dado referencial e completamente dependente de uma sociedade, desta forma, a criação desta Relação Individualizada com o mundo não é determinada pelo indivíduo em si, mas pelos meios que estabelecem esta relação.
Se a relação social é a estrutura determinante da consciência para Bakhtin, uma comunicação não se dá apenas através da fala ou da expressão, mas da relação sígnica incutida no universo comunicativo. A expressão, desta maneira fica colocada como completamente distinta do fenômeno comunicativo em si, porque segue regras e respeita códigos que tentam pôr forma à linguagem, mas não comunicam por si só.
Desta forma, o aparato tecnológico, seja atualmente dentro de sala ou no uso individual em busca de conhecimento, estabelece regras sígnicas e códigos que potencialmente superam a causa do conhecimento e achatam o relacionamento entre indivíduo e fenômeno a apenas regras gráficas dispostas paradigmaticamente sem pretensões de qualquer tipo de embate dialético digno dos atos que constituem o conhecimento, e extinguem a narratividade científica, ou a chamada “ Ciência Romântica” do neurologista russo Aleksandr R. Luriiá visto no tópico anterior.
O caso é que se consideramos os meios sociais como espaços geográfico-temporais onde as consciências se estruturam em comunidade e assim em uma malha contínua eternamente auto-referenciada expandida à medida em que a mídia abrange e trás uma maior parcela do mundo, que cria a condição por onde os indivíduos determinam sua relação com o meio pelos chamados Dados Culturais, assim como as consciências periféricas, as centrais, as politizadas, as econômicas, podemos dizer que se tem criado neste momento histórico uma consciência da Elite Cibernética.
A princípio, segundo Freud, o contato com a realidade, assim como sua determinação, se dá pelo “reencontro” da criatura com aquele com quem teve seu primeiro contato da experiência da vida, a mãe, sendo este contato, enquanto na barriga da mãe uma relação de unidade onde não há direta diferenciação entre o nenê e o meio que o cerca, e após o nascimento se inicia uma relação de reencontro e a devida individuação entre a mãe e o filho ainda dentro do universo dos estímulos desordenados e incontroláveis do princípio do prazer.
Se a primeira relação com a realidade se estabelece com a necessidade da coexistência física e temporal; mesmo quando acontece a individuação – a entrada no princípio de realidade – subintende-se que a malha relacional de determinação da própria consciência, ou seja, a forma como se abrange as relações com outras individuações para que haja a construção referenciada do Eu, é espacialmente determinada pelas condições do contato possível (determinações da matéria no eixo espaço-temporal), e estas relações expandem os referenciais culturais no sentido de construir aquilo que se pode chamar de indivíduo. Acontece que por este caminho pode-se deduzir que quanto maior e mais ampla a malha referencial do Ente, mais ampla seria sua caixa de referenciais para construção de si, entretanto, neste ponto nos deparamos com uma questão que tange não mais a abrangência, mas a forma como estes contatos se configuram à mente da criatura que tem estes contatos. Para além das variações e da forma, os conteúdos e linguagens, neste momento, determinam a relação.
A consciência da Elite-cibernética viabilizada pela Ciberpedagogia não é apenas determinada pelo contato físico-biológico dos seres no sentido em que se estabelece a relação com a vida no contato com o Ente materno no princípio de prazer freudiano como visto; suas relações transpassam estas formalizações biológicas, estão para além das maneiras possíveis de contato através tão somente da nossa estrutura biológica. O estabelecimento da realidade para o Ente com auxilio de tecnologias capazes de rede passa por uma série de fenômenos diferentes, dentre os quais podemos extrair alguns fundamentais como os que seguem.
“Se o espaço é aquilo que impede que tudo esteja no mesmo lugar, este confinamento brusco faz com que tudo, absolutamente tudo, retorne a este “lugar”, a esta localização sem localização.”
Paul Virilio
Antípoda é um artifício literário que trata do indivíduo diametralmente oposto à sua atual posição na terra. Embora de fato existam alguns lugares na terra onde se é possível encontrar uma pessoa na oposição diametral absoluta, esta criatura ficcional neste caso tem um peso existencial significativo, sendo assim, o absoluto oposto da suas condições culturais, para além da ambivalência dia-noite. Paul Virilio nos trás uma consideração muito valiosa sobre o antípoda, quando em seu livro, trata da mutação gradual das concepções de espaço, assim como de extensão, e mais importante, de limite.
No livro intitulado “O Espaço Critico”, sua primeira obra, Virilio coloca em questionamento fundamentais linhas de pensamento idealistas e racionalistas de maneira a reperspectivar a noção humana de espaço e espaço urbano, assim como as novas influências dos meios globalizantes como a internet e a mídia televisiva para a construção ou desconstrução da noção humana de espaço.
A abrangência da noção espacial humana foi historicamente determinada por suas próprias limitações, técnicas ou ferramentais, criando limites baseados nas maneiras onde eles se tornam intransponíveis. Primeiro o corpo propriamente, e a forma como ele determina a idéia do inatingível pelas suas próprias condições, e então o animal domado como extensão humana, o desenvolvimento de veículos por tração animal, as grandes embarcações, o motor a vapor, os veículos dotados de motor a explosão, e finalmente o avião concluindo a ânsia humana de alcançar pontos onde a princípio, pelas condições físicas da fisiologia humana, pareciam impossíveis.
Uma vez alcançadas estas distâncias, os imperativos foram gradativamente migrando para outras dimensões do Alcançar, tornando-se o Alcançar a tempo. Neste exato momento em que assistimos o surgimento da tele-comunicação, e o embutimento de imagens em aparelhos capazes de sua transmissão e recepção. Estamos então lidando com a criação e fomento de uma série de alterações na forma como o ser humano lida com a realidade espacial do seu mundo, construindo uma espécie de cosmopolitismo imagético onde o inacessível torna-se não só acessível, mas parte integrante de sua vida, mesmo sem nunca sequer ousar explorar os lugares dos quais agora tem alguma forma de conhecimento.
A noção do espaço construída desta maneira, pegando-se as realidades mais remotas e trazendo-as para dentro do mundo inteligível de um ser humano sedentarizado contribui para um processo contínuo de deformação das noções de abrangência de sua própria existência, assim como a maneira com a qual este ser age sobre seu meio em relação a suas expectativas e dimensões agora determinadas pela teleinformação.
As relações dialéticas entre Ente e Meio são completamente reestruturadas, e desta maneira interferem na determinação do “Eu objetivo” enquanto fundador da própria realidade baseada na experiência possível, isto é, a consciência é tecnicamente estendida abarcando realidades que não compõem diretamente a existência deste ser, mas que a partir de então, são trazidas e conscientizadas, consideradas, sentidas e vividas pelo indivíduo interligado por estas tecnologias.
“Graças aos satélites, a janela catódica trás a cada um dos assinantes, com a luz de um outro dia, a presença dos antípodas. [...] Assim, como os acontecimentos retransmitidos ao vivo, os locais tornam-se intercambiáveis à vontade. A instantaneidade da ubiquidade resulta na atopia de uma interface única. (1993, p.13)”
Para o professor José Manuel Moran, especialista em projetos inovadores na educação presencial e a distância em artigo publicado na revista Informática na Educação: Teoria & Prática, de 2000, a tecnologia utilizada como suporte para a transmissão de conhecimento não apenas serve de meio comunicativo à educação, mas modifica a forma como o aprendizado acontece por viabilizar o que antes era impossível com argumentação e troca de experiências, diz ele:
“Uma mudança qualitativa no processo de ensino/aprendizagem acontece quando conseguimos integrar dentro de uma visão inovadora todas as tecnologias: as telemáticas, as audiovisuais, as textuais, as orais, musicais, lúdicas e corporais.” Assim continua: “Podemos transformar uma parte das aulas em processos contínuos de informação, comunicação e de pesquisa, onde vamos construindo o conhecimento equilibrando o individual e o grupal, entre o professor-coordenador-facilitador e os alunos-participantes ativos. Aulas-informação, onde o professor mostra alguns cenários, algumas sínteses, o estado da arte, as coordenadas de uma questão ou tema. Aulas-pesquisa, onde professores e alunos procuram novas informações, cercar um problema, desenvolver uma experiência, avançar em um campo que não conhecemos.”
A teoria expansionista apresentada pelo professor Moran segue confluente à mais expressiva quantidade de teorias positivistas da tecnologia, segundo as quais, na maior parte de suas manifestações sugere um aumento na velocidade da experiência de aprendizado e uma melhora técnica com relação aos suportes de experiência da educação, acesso a novos recursos gráficos, sons, interatividade, formas diversas de apresentação de um conteúdo, mas quase nunca se debruçam devidamente sobre o fenômeno que subsiste ao meio disso tudo, a experiência do conhecimento.
Um ponto fundamental a ser considerado sobre a experiência educativa é que esta relação com um conhecimento ou fenômeno, quando desenvolvido sob práticas ciberpedagógicas é diretamente vivenciado por meio de plataformas que por sua vez são também desenvolvidas pela intelecção humana; desta forma, o sistema que constitui as plataformas que auxiliam na formação de hipotéticas experiências é ele mesmo pertencente a uma etapa anterior da projeção intelectual do homem sobre o meio. Uma vez que os instrumentos do conhecimento- as tecnologias- são concebidos dentro das projeções racionalizadas da ciência humana tão somente, seja na matemática que constitui a codificação do sistema utilizado, ou mesmo a matemática determinante das variáveis possíveis de um sistema de simulações, todas as demais maneiras de recepção de conceitos sobre um fenômeno natural serão limitadas pela engenharia humana na construção tecnológica do próprio saber. É conceber uma máquina com a pretensão de explicar o universo através de uma linguagem e uma lógica humanas, desta forma, a máquina determina o próprio limite. Assim, qualquer conhecimento que queira ser desenvolvido de maneira dialética natural, como quando a consciência se depara com a realidade no mais simples de seus casos, está fadado a encontrar sistemas de simulação limitados à abrangência das representações matemáticas humanas, que no todo, frente ao devir universal, nada têm de inesperado, inalcançável, surpreendente, não-compreensível, como haveria de ser todo o fomento à boa ciência na história humana.
As circunstâncias fenomenológicas trazidas de sistemas biológicos, minerais, físicos, metafísicos diversos, representados tecnologicamente, organizados em uma acessibilidade intelectual que por vezes facilita a sintagmatização do conhecimento pela disposição dos elementos em um sistema compreensível, acaba por alterar a compreensão das distâncias e dimensões do universo e dos fenômenos, agora colocados sob uma ótica que tende a ser justificada em uma causalidade racional, cadeia de eventos intermitente, da qual deve-se achar o início e o fim, assim como seus objetivos mais diretos. Fenômenos como a objetificação da natureza, a objetivação, a formalização, a imagetização, são facilmente encontrados e largamente estudados pelos mais diversos teóricos da comunicação humana.
É a convivência já não tão pacífica do ser humano com suas prospecções de pequenez, de valor relacional com seu meio, posto que suas representações são todas completamente comparativas com suas próprias dimensões, e em nenhum momento dependentes de si enquanto fenômenos díspares de sua realidade. As formas pelas quais se estruturam as representações científicas não poderiam ser outras se não a eterna perspectivação dimensional entre fenômeno e observador; transparecem-se estas formalizações através dos sistemas de medidas provindas de unidades, extraídas de conceitos relacionais de outros fenômenos já catalogados, sem os quais não se poderia construir nenhum tipo de hipotética relação entre espectador e fenômeno. Conhecimento deixa de ser experiência, e torna-se uma espécie de perspectivação dedutiva.
Estas deformidades lógicas alteram fundamentalmente a relação dos indivíduos para com suas dimensões e alcances, criando a impressão de um mundo e um universo muito menores que repetindo a máxima tecnológica de mercado, estão “na palma das suas mãos”.
Já o antípoda, que jamais conheceremos – que nem sequer existe à maioria das pessoas da terra pelas condições geográficas – é abarcado pela imensidão das informações entregues pelas tecnologias de largos horizontes, que transformam o outro lado do mundo em um território alcançável e trás para cá a obrigação de compreender e formalizar seus problemas, da mesma forma que traz uma noção de invalidade do ponto de vista de cá, frente a uma suposta magnitude existencial sem precedentes.
3. Ciência informacional e a Projeção de Mercator
“Por isso, devemos dizer: o que se chama de ciência ocidental européia determina também, em seus traços fundamentais e em proporção crescente, a realidade na qual o homem de hoje se move e tenta sustentar-se”
Martin Heidegger
No movimento da demonstração técnica da realidade através de formas eletrônicas capazes de processamento de dados inseridos, selecionados por observação, cria-se um composto demonstrativo das próprias concepções dos fenômenos que são fábulas intelectuais representadas à imagem de suas intenções.
A estas fábulas visuais apresentadas como conteúdo educacional é dado o nome de Simulações, através das quais se mostram conceitos estabelecidos sobre os fenômenos em representações multidimensionais, mas não só isso; o que reside no vácuo da criação de uma destas fábulas tecnológicas, para além da sua determinação estética e funcional completamente dependente dos mesmo conceitos que a posicionaram em determinado lugar na literatura científica em relação às demais, são os aspectos idealistas de sua composição. Heidegger levanta suspeitas sobre o método científico elaborado pelos racionalistas que tende a criar relações de conhecimento através do controle sobre determinados fenômenos, desta forma, a ciência deixa de ser uma forma do ser humano observar e expandir suas experiências contemplativas sobre si e o universo que o cerca, tornando-se uma rédea teórica que assume o conhecimento ao passo da dominação, esta transformação ocorre, segundo Heidegger, na determinação do Real.
O sentido de real não faz referência direta à existência de algo objetificado, possível de comprovação, existente nos eixos espaço-temporal, com falseabilidade cientifica, mas do sentido grego, onde “Real” significa “Operar, trazer ou levar à vigência”.( F. J. Brüseke & C. E. Sell, 2006 p.27) Assim, Heidegger contempla o estudo sobre o Real como uma reconstrução do significado dos fenômenos do mundo à medida em que se enquadrem em suas aplicações técnicas. Vale dizer, que “Técnica” para Heidegger contempla a pragmatização de uma intenção ferramental, não sendo técnica um simples meio para que se possa alcançar um fim, mas a maneira por onde o “Ser se revela ao homem.” (2006, p.25).
Diz Heidegger, que a técnica, ao lado da ciência agem de forma a concluir o conhecimento humano através de suas próprias projeções, sendo que a técnica, “transforma-se na única forma de relacionamento do homem com o mundo” (2006, p.25) e desta forma o afasta de que qualquer relação não idealizada seja caminho pelo qual se determinam seus conhecimentos.
A recriação sistemática de teorias científicas através de dispositivos eletrônicos, formando as fábulas técnicas, representações de modelos e sistemas em formas gráficas e interativas, contribuíram para estas alterações exponenciais na forma do ser humano moderno apreender a realidade e lidar com os fenômenos circundantes, onde este Real traz implícita a troca da acepção da realidade simbólica em detrimento ao mundo de dados potenciais não mais observados, mas controlados. Ainda segundo Heidegger, Observação significa uma “elaboração que visa apoderar-se e assegurar-se do real” (2006, p.27), em outras palavras, observar é colocar em praxis, assegurar a contemplação do universo dentro dos mecanismos ideologicamente determinados, e que estes mantenham qualquer fenômeno natural dentro das maneiras normativas do observar humano científico, aquele que busca controle.
Por este caminho, Heidegger critica a situação da ciência moderna em elementos que particularizam o conhecimento a uma série de práticas que afastam a experiência humana da origem de sua ânsia de saber, através de dois pontos fundamentais, sendo o primeiro o epistemológico, abordando a primazia do método científico e a matematização do conhecimento, e o segundo de um ponto de vista cultural e social, com a segregação do conhecimento em uma ciência fragmentada, desconexa e pouco relacionada entre suas partes.
A pedagogia eletrônica, para além das propostas de criar ambientes de simulação em busca de uma mínima consciência de fenômenos, acaba por criar uma consciência participativa, onde o Ente determina a forma como acontecem estes eventos no simples movimento de observação destes – observação no sentido Heideggeriano tratado acima- por onde lacunas lógicas são sistematicamente acobertadas pela plasticidade da demonstração destes fenômenos para que caibam no universo da previsibilidade cientifico-matemática moderna.
Um exemplo notável da deformação consciente decorrente de um estabelecimento científico racionalista, e que é comumente encontrado em sistemas educativos, sobretudo virtuais, é a velha discussão sobre as dimensões dos países sobre o mapa-mundi assim como no Google Earth e em qualquer outro suporte de pesquisa visual sobre as dimensões dos continentes e países.
O mapa como nos foi apresentado, conhecido como o “Projeção de Mercator” de Gerardus Mercator em 1569, representa os países em um plano reto, entretanto, contendo a deformação visual de um globo, que causa o achatamento dos polos e o alargamento horizontal dos países equatoriais.
Mapa Mundi conhecido como a Projeção de Mercator, estabelecida pelo cartógrafo Gerardus Mercator em 1569, apresenta a deformação dos tamanhos dos continentes devido à esferização do plano terrestre, enaltecendo os países do norte.
Por estarem estas áreas dispostas em uma estrutura geóide, - o globo terrestre- embora visualmente seja compreensivo que estes países apresentem esta formação, se observadas as medidas de um ponto de vista diretamente central sobre cada quadrante do mapa separadamente, e abrisse o globo em uma malha sem deformações, a disposição e o tamanho de todos os países seriam completamente diferentes dos encontrados no mapa-mundi universalmente estabelecido, o Mapa de Mercator.
Escalas da Projeção de Mercator, do mapa mundi universalmente disseminado, mostra o nível de deformação sofrida pelos quadrantes devido a sua angulação quando observados sobre um globo.
Para resolver este problema de visualização, que de certo tange questões de consideração de valores sobre as diferenças dimensionais, várias outras projeções foram feitas na história, sendo a que chamou mais atenção foi a de um historiador alemão chamado Arno Peters, lançada em 1973, com a pretensão de combater o velho mapa de Mercator que disseminava uma noção espacial em uma visualidade errônea da terra. Peters então, remontou o mapa esticando todos os quadrantes a dimensões igualitárias quando se conformassem a um plano, e o resultado foi o mapa que segue abaixo:
Projeção de Gall-Peters 1973
A deformação ocorrida no mapa de Mercator que teria supostamente alterado o desenho dos países, acaba por enaltecer as dimensões dos países do norte, diminuindo visualmente os países do centro-sul o que gerou diversos desentendimentos de ordem cultural-política sobre o tamanho das nações. Já a projeção de Peters, mostra um claro aumento nos países equatorianos e do sul do mundo, desencadeando diversas críticas por ser um mapa “terceiro-mundista” como dizem os que se opõem a esta projeção.
Indicatrizes de Tissot sobre as modificações de escala decorrentes do cálculo errado de Mercator. Os círculos representam escalas iguais sobre o mapa, que tem seu hemisfério sul e norte aumentados em relação aos países do centro equatoriano.
Corretas ou incorretas, estas projeções servem de exemplos claros da inaplicabilidade tecnológica sobre assuntos onde a ciência se funde com aspectos políticos, que torna inviável até mesmo a comprovação clara das próprias dimensões da malha superficial do nosso planeta. As tecnologias informacionais educativas, a ciberpedagogia, não tratam destas abordagens com crítica, assim como não oferecem ambiente próprio para a modificação perspectivacional sobre os dados determinados pela ciência moderna, sendo que toda a interatividade e participação demonstrada pelas retóricas tecnicistas retornam ao ponto onde é possível que se veja todos os cantos da terra ao mesmo tempo, desde que seja na projeção de Mercator concebida em 1569.
A condição que determina o conhecimento científico moderno não depende de uma relação direta entre projeção racional e a busca pela falseabilidade teórica na sua práxis tão somente, tampouco da experiência de uma realidade simbólica, significativa, narrativa; o conhecimento científico apoia-se em esferas tecnicistas da própria organização social humana, onde as limitações de sua abrangência e pureza observativa são demonstradas pela condição de sua aplicação. O uso da ciência lógica, o Observar como Controlar – como diria Heidegger-, os simulacros educativos, os humanos tornados ao próprio aparato técnico, reprodutor da interpretação racional de sua realidade, determinam bases fundamentais que reestabelecem as relações humanas até com a própria natureza humana, reavaliam valores, e colocam a Civilização contra a Civilidade.
4. Pedagogia assistida, a recriação do mundo.
Assumir que seja necessária a introdução da tecnologia em sistemas pedagógicos se difere essencialmente de reconhecer que isto ocorre e caminha no sentido de ser cada vez mais abrangente. Os discursos teóricos sobre a pedagogização da tecnologia soam cada vez mais uníssonos a seu favor, e isso tem separado as teorias em ramificações ainda mais internas dentro do favoritismo, como se a pedagogia modificaria sua forma com a tecnologia, ou se a tecnologia apenas agregaria outras supostas dimensões ao método de ensino que permanece como uma ciência separada e dotada de valor próprio. Entretanto, vertente destes embates teóricos da sistematização e assistência tecnológicas no ato do ensino, ficam as dúvidas sobre a maneira como estes meios poderiam afinal afetar um sistema educativo repleto de erros desde sua concepção, apenas alterando formas cosméticas de aplicação de um saber Ideológico sem sobrar tempo para que nos voltemos aos problemas da sistematização do conhecimento.
Uma forma de ensino com forte apoio em métodos tecnológicos é a Aprendizagem Baseada em Problemas, método pedagógico segundo o qual a obtenção do conhecimento se dá pela solução de problemas que surgem sem controle do aluno. São geralmente desenvolvidos sobre circunstâncias explicativas que devem ser solucionadas por aqueles que as recebem com o uso da formulação de táticas intelectuais lógicas; a cada problema, uma possível solução aplicável, como em um sistema onde as situações fossem quantificáveis em suas variáveis, e o limite combinativo fosse tangível, lógico e retilíneo. Esta proximidade entre a lógica que estrutura a criação e programação dos sistemas digitais e a maneira como se propõe a solução de problemas explica a aproximação da tecnologia a este tipo de abordagem moderna da pedagogia.
Flavia Rezende, do Núcleo de Tecnologia Educacional para a Saúde, UFRJ explica que “Apesar de haver várias estratégias de implementação, em geral, o estudante interage com o problema, obtém dados, formula hipóteses, toma decisões e emite julgamentos[...]” funcionando em sua aplicação da seguinte forma “A partir de perguntas, para as quais o aluno possui alternativas de respostas, e das consequências das decisões tomadas, ele tem a oportunidade de testar sua capacidade de julgamento frente a um conjunto de dados. As consequências das decisões são imediatamente simuladas pelo programa, propiciando experiência clínica em tempo relativamente curto.
Não se trata apenas da sobreposição de um método onde o aluno interaja pela escolha de uma série de variáveis ao método onde o professor é um emissor contínuo e o aluno apenas um receptor passivo destas mensagens, mas o fundamental é haver crítica sobre a instituição de uma forma onde a tomada técnica e sistematizada de decisões seja considerada um método pedagógico, e não apenas uma maneira de formulação de vínculos baseados em simulação, matematização, quantificação, tecnicização do ser onde a atividade que requer é a do cálculo incessante dentre as variáveis dispostas.
Ao passo em que há uma completa aproximação da maneira como o ser humano pensa e determina suas relações com a realidade, com a maneira como o ser humano desenvolveu seus sistemas de formas de inteligência artificial, há um abismal afastamento entre os idealismos científicos tecnicizados (cibernéticos, virtuais) e a maneira como muito do universo em seus fenômenos se apresenta.
Sobre isso, complementa Paul Virilio “O desequilíbrio entre a informação direta de nossos sentidos e a informação mediatizada das tecnologias avançadas é hoje tão grande que terminamos por transferir nossos julgamentos de valor, nossa medida das coisas, do objeto para sua figura, da forma para sua imagem, assim como os episódios de nossa história para sua tendência estatística, de onde o grande risco tecnológico é o de um delírio generalizado de interpretação.” (VIRILIO, 1993, p.40)
Os laços que nos unem à nossa realidade pela ciência moderna são de aspecto projetivo, formando uma ciência teleológica, onde os problemas são potencialmente determinados por estatística para que assim haja uma simulação, e a forma de aplicação indefere da habilidade humana da inventividade ou da reconfiguração absoluta das situações em prol da sobrevivência, reduzidas a variáveis que não necessitam de uma experiência própria.
Ainda na esteira da defesa do método pedagógico baseado em problemas lemos que “Jonassen (1998) recomenda que o problema proposto não seja totalmente estruturado, permitindo que alguns aspectos sejam definidos pelo aluno. Desse modo, não devem ser apresentadas metas explícitas e formais, nem princípios gerais para descrever ou prever circunstâncias do caso. Múltiplas soluções devem ser aceitas e múltiplos critérios de avaliação das soluções são necessários. Não devem ser dados de antemão os conceitos e princípios úteis, nem como estes se organizam para solucionar o problema.” (Rezende, UFRJ, 2002. p.8)
Não se trata neste ponto da procura por uma liberdade interpretativa do aluno, na criação de um software que deva ser programado para lidar com algumas variações de múltiplas interpretações, mas da condição de apreensão da realidade onde a partir destas simulações, há o desenvolvimento de uma consciência apropriativa, controladora, determinante de suas potencias, sem qualquer forma de recriação essencial frente a hipóteses absolutamente imprevistas.
Neste caso, entremos na questão da Crise das Dimensões para exemplificar, e teremos as mais atuais linhas da mecânica quântica como demonstrativo desta desconexão entre o modelo de programação do pensamento lógico humano e questões fundamentais do universo sobretudo quando tange a dimensionalidade de um objeto ou fenômeno observado. Assim, se propusermos a formalização intelectual de um plano, esta se apresenta completamente natural à imaginação humana baseada na necessidade de ligação de três pontos dispostos separadamente em qualquer posição para se obter o plano, quatro ou mais pontos desde que estejam dispostos na mesma planificação conceitual, e linhas que o determinem como um plano possível. A crise das dimensões ocorre quando elementos lógicos alegóricos e não factuais são necessários para a formulação de uma hipótese sobre a realidade, seguindo o exemplo do plano, no momento da determinação de suas dimensões e exata localização espacial se faz necessária a quantificação de suas medidas; esta por sua vez, com uso da matemática, tende a determinar em absoluto a posição de seus pontos e a distância referencial entre eles, aí imergimos no problema do absolutismo da matemática, ou Platonismo matemático, que embora não corroborado da maior parte dos cientistas matemáticos está na cerne dos conceitos numéricos. Retornando ao exemplo, a determinação de um ponto pressupõe a existência de uma dimensão infimamente pequena, que ao mesmo tempo que não ocupe espaço para que não se considere como plano, não pode ocupar um espaço nulo para que seja considerado ainda existente. A dimensionalidade do ponto não cabe em sua execução natural conforme sua projeção ideal, desta forma, o ponto matemático não pode ser encontrado no mundo real, mesmo que este seja um dos pilares da noção humana de geometria. Se se baseia na fragmentação ou particularização do espaço, mesmo a menor partícula possível seria potencialmente divisível em medidas, posto que o conceito de divisão assim como encontrado na matemática é um conceito infinito, eterno e invariável, como multiplicação, soma e subtração. A divisibilidade teórica infinita acaba por impossibilitar a existência de um ponto absoluto, criando paradoxos lógicos posto que o ponto poderia ser dividido à infinitude sem que alcançasse a inexistência dimensional, da mesma forma quanto enquanto houver a mínima porção, esta pode ser determinada como plano e inviabilizaria a existência de um ponto.
Da mesma forma, outros paradoxos provindos da maneira como se determina a realidade pelas projeções lógicas são possíveis na dimensão do tempo, onde no exemplo clássico de Zenão de Eléia sobre a flecha, uma flecha lançada em direção a um alvo percorre um caminho dividido pelo tempo. Se este percurso fosse estendido no tempo, poderia-se observar a flecha se movendo muito vagarosamente e quanto mais se estende o tempo, mais a flecha pararia até um ponto de expansão temporal onde ela estaria hipoteticamente em completo repouso. Assim sendo, ela não se move até o alvo se está absolutamente parada, ou como Zenão conclui: “Seria agora, a soma de infinitas posições de repouso igual a movimento?” (Nietzsche, 2011, p.97). Embora seja uma interpretação errônea por ser falseável no ato da sua aplicação, tem elementos muito válidos na ação de comprovar - através de uma história absurda – que as contingências dos infinitos matemáticos jogam contra as formas de determinação da realidade, necessitando da interferência de análises experienciais (como a ausência das dimensões fixas na divisão pelo tempo no paradoxo de Zenão, ou a necessidade da conversão matemática para evitar que isso aconteça) garantindo a aplicação dos conceitos matemáticos sempre permeados de reconsiderações menos absolutistas.
Ainda que se possa balizar os conflitos de dimensões no ideário matemático e científico modernos quando aplicados em formulações somente teóricas, a matematização do conhecimento através de plataformas tecnológicas simuladoras é determinante para a construção de conceitos de realidade abarcados e consoantes às lógicas idealistas, nos diz Virilio “A crise das dimensões físicas do mundo sensível na era das telecomunicações eletrônicas é acrescida da crise do Continuum inteligível” (VIRILIO, 1993, p.37)
Muito ainda se faz necessário para que o estudo dos impactos da esfera tecnológica na consciência humana, sobre a forma como compreende, constrói ou reconstrói a realidade, esteja em um nível de pleno desenvolvimento, mesmo muito embora diversos autores tenham se dedicado ao estudo crítico das novas formas de relação e os imperativos das sociedades modernas, sobretudo na área de comunicação. As construções de meta-realidades através de um movimento crescente de virtualização abre espaço para uma vida de completa simulação, elevado a vários aspectos sociais e humanos como efeitos periféricos já previstos e analisados, como inclusive o surgimento de novas elites – agora informacionais – atreladas automaticamente a novas periferias, segregações instrumentalizadas desde o nível da linguagem até a representação formal do mundo. Estes imperativos pós-modernos retomam através dos meios tecnológicos de recriação do mundo, aspectos do binarismo socrático que fundamentou grande parte do Racionalismo e Idealismo, através de uma dialética unidirecional que abre espaço para o desenho de uma realidade formalizada estável, influindo na maneira como se considera, entre outras dimensões, as imagens e a significação humana. O universo regido pelas imagens técnicas carrega consigo o achatamento do tempo/espaço em qualidades universais – da categoria dos Juízos e Faculdades Kantianos –, e da intangibilidade de seus atributos, renova a mística da imagem inconsciente, dos novos mitos, dos novos deuses, entretanto, agora, sob completo domínio inconsciente daqueles que programam suas próprias epifanias.
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