[TEMPO SOCIAL] Conflito Entre Linearidade e Circularidade no Berço da Filosofia Cristã
O mundo da cultura ocidental começa a ser organizado e entendido linearmente na era cristã da maneira como ficou amplamente difundido a partir da influência desta teologia, tendo dentre seus maiores proponentes Agostinho de Hipona, dentre outros grandes nomes como Boécio (Anicius Manlius Torquatus Severinus Boethius) nos séculos IV e V. No entanto a formulação da linearidade do conceito do Tempo acabou sendo amplamente difundida de fato mais adiante na história pela forma como a visão circular tendeu a se desenvolver paralelamente aos esforços dos que brigavam pela concepção histórica. A interação conflituosa entre as duas maneiras de compreensão do mundo, o tempo cíclico e o tempo linear, se alongou até o século XVII, onde por fim se fez vigorar a proposta da linearidade temporal que não obstante, ainda assegurava uma sacralidade, com pontos e ocorrências de influência divina direta na terra e na vida humana ao longo de toda a linha histórica. O tempo cristão manteve-se sagrado em sua forma linear.
A linearidade do tempo sagrado, como oposta ao tempo circular, é uma concepção que permaneceu presente na teologia cristã desde o segundo século desta era, até seu momento de mais alto desenvolvimento e estabelecimento culminando no historicismo Hegeliano, portanto não se tratando de uma mudança aguda e abrupta na historia do pensamento humano, e que deve ser compreendida em sua complexidade processual. Eliade indica que a concepção linear do tempo e da história já havia sido delineada “no segundo século por Santo Irineu de Lyon, será retomada por São Basílio e São Gregório, e por fim elaborada por Santo Agostinho” como visto anteriormente.[1] Ainda desta forma, a teoria cíclica revigorava posta à prova por demais autores eclesiásticos como Clemente de Alexandria, Minúcio Félix, Arnóbio e Theodoret.
Mas é na obra de Joaquim de Flora que a teoria escatologista toma seu maior impulso, uma teoria milenarista que divide a historia humana em três grandes momentos segundo a ordem da santíssima trindade presente no Evangelho Eterno, sendo; Pai – correspondendo ao velho testamento, o momento da criação, o tempo fundamental; Filho – correspondendo ao novo testamento e a vinda de cristo, os ensinamentos e o esclarecimento; e Espírito Santo – correspondendo ao momento em que a humanidade se fundiria completamente com os esclarecimentos do acontecimento histórico de Cristo, e que portanto, seria completa. Necessário relembrar que a teoria cíclica não abandona a história tão cedo, e desta forma, se faz presente como uma contraproposta ativa à ideia de linearidade, ressurgindo de maneiras distintas e em variantes reformulações. Eliade nos lembra que “é assim que, nas teorias de Tycho Brahe, Kepler, Cardano, Giordano Bruno ou Campanella, a ideologia cíclica sobrevive” ao lado da linearidade pré-científica de um Fancis Bacon ou um Pascal. (idem)
O Paradigma Questionador Medieval
Focando no século XIII entretanto, se faz possível encontrar o maior e mais influente marco do pensamento histórico, um processo que foi fundamental para a completa concretização e de certa forma, a oficialização que a teoria do historicismo viria a encontrar em seu futuro, a principio na teologia cristã, seguido pela escolástica, toda a ciência iluminista, moderna e finalmente adentrando a epistemologia da ciência atual. Este momento é marcado pelo renascimento de um Aristotelismo nas mãos de Tomás de Aquino; todavia este renascimento não é considerado aqui como uma explícita reprodução estilística e o entendimento da obra de Aquino não deve se limitar a esta interpretação, sendo preferível a critério de complexidade que se faça o entendimento de sua obra como uma releitura com importantes inferências e transformações que conferem a Aquino um caráter completamente individual, distinto de Aristóteles nas mais diversas de suas facetas, distorcido ou reinterpretado, mas definitivamente fundado no universo aristotélico.
Na posição histórica que Tomás de Aquino ocupa quando observado em retrospecção, com relevância aos assuntos abordados pela teologia cristã, a carta temática de suas projeções lógicas é bastante evidente: fundando os pilares da escolástica, o universo do Tomismo se fecha no domo de uma unidade teológica pré-científica que ele desenvolve através da metafísica emprestada Do Filósofo.[2] Muito embora as ontologias sejam desta forma evidentes, a causalidade lógica de suas asserções tendo como empréstimo todo o trabalho do silogismo aristotélico, a carta temática do pensamento Tomista é bastante variada, de forma que se nos fixarmos à Summa Theologica, se encontram os tratados relacionados à temática da existência e essência de deus, os tratados acerca da moralidade e dos sentimentos, e por fim, os tratados com questões sobre Jesus Cristo (como o tratado sobre a encarnação e suas cinquenta e nove questões, seguido do tratado sobre os sacramentos).
Da variação temática encontrada em Tomás de Aquino e sua incomensurável influência no pensamento escolástico, e por consequência, na fundação da ciência Cartesiana e seu impacto na atualidade, um tema que não se faz raro no Tomismo e que toma espaço como parte central do escopo dos estudos de uma semiótica do tempo, é a forma pela qual as noções deste elemento são apresentadas e trabalhadas ao longo de sua obra.
A intangibilidade do elemento do tempo entretanto, - como previamente argumentado, - faz com que não se possa acertar quaisquer funções mecânicas que não aquelas pertencentes à função lógica propriamente e unicamente humana, posto que os indícios da física quântica são veementes quanto à qualidade transcendente daquilo que chamamos ‘tempo’, em qualquer momento que seja analisado por fora de sua forma-função, ou seja, enquanto é ‘visto às cegas’, sem o peso projetivo da intencionalidade humana que dirige o olhar e guia o conhecimento; as respostas partem do desejo puro, e guiam o olhar e por fim as perguntas, sendo assim, toda pergunta é formulada na direção de uma reposta que seja, no mínimo, considerada possível, potencial. As respostas existem no coração de cada pergunta, assim para a humanidade no processo do observar ‘projetivo’ e não meramente ‘receptivo’, assim no modo humano de construir o aparato científico, que embora constitua um ‘todo’ de uma categoria instrumental positivista diferente do olhar nu, deriva dos mesmos fundamentos lógicos e pressuposições humanas mais básicas, assim, permanecendo consoante à ideia de que ‘a forma do aparato científico é a materialização de uma frase indagativa, seus modos são a materialização dos verbos desta indagação, e os sujeitos determinam seus predicados’. Heidegger contribuiu com essa interdependência inerente à formulação do ‘perguntar’ na primeira parte do seu magnus opum ‘O Ser e o Tempo’, onde embora a formulação seja toda realizada circundante de sua pesquisa sobre o Ser, o processo argumentativo, a escolha do tom da pergunta e por fim, a formulação do que Heidegger chama de ‘investigação’ é demonstrada como partes temporalmente distintas de um mesmo objetivo intelectual; “Toda pergunta é uma procura (suchen). Toda procura é desta forma guiada de antemão por um desejo de achar.” E mais tarde Heidegger completa sucintamente que “Qualquer pergunta, enquanto pergunta sobre algo, tem presente o algo sobre o qual ela pergunta”.[3] Segundo Heidegger, a perspectiva da contemplação do mundo que abre a brecha para que a ciência seja toda baseada nesta forma de formulação de uma questão, que não é mais do que um oximoro e em nada tem de relação com o que possa ser considerado ‘realidade’ externa, parte do entendimento dos trabalhos de Platão e Aristóteles, revistos pela filosofia medieval - sobretudo e fundamentalmente o Tomismo e Escotismo (derivado de João Duns Escoto) – culminando na lógica de Hegel.
A linha processual das apropriações intelectuais desde Aristóteles até a escolástica e seus efeitos na construção da lógica Hegeliana, embora redundante em bibliografias e constantemente recitada por diversos autores de diversos movimentos intelectuais, fica neste trabalho como uma chave histórica de extrema importância, relevante para o entendimento da historia do pensamento e sua influência no modo moderno e a fundação de toda a ciência; assim entretanto, ainda reservo a este tema a necessidade de uma revisão minuciosa sobre temas específicos como o Tempo, e suas relações históricas entre estes pensadores e suas escolas, dado o infortúnio condicional e, de certa forma inevitável, decorrente da apropriação retrospectiva de feitos históricos (facta) e ainda mais sobre a interpretação trans-histórica de documentos, seja pela inexistência do objeto textual puro, a intangibilidade da circunstância extra-textual que o influencia, e por ultimo, todas as refrações dos processos de tradução e adaptações culturais sofridas pelos textos. Todavia, extinguida a noção do texto objetivo, o idealismo da proposição de uma leitura pura e inegável – binarismo matemático em que todos os números naturais dispostos no universo são da mesma essência, portanto comparáveis – os textos como referidos aqui são ações e atuantes culturais, resíduos quiméricos de interpretações e usos diversos, cujo processo reconhecível se chama de ‘texto cultural’ tal qual proposto pelo semioticista soviético Yuri Lotman. Neste proposito, as conexões textuais e intelectuais como descritas aqui são feitas em respeito às apropriações culturais destas conexões mesmas, e não qualquer presunçosa prospecção idealista que culminaria em uma causalidade intelectual linear, previsível, lógica, asséptica.
[1] ELIADE, Mircea, (1992) Mito do Eterno Retorno. Mecúrio-SP. P.139
[2] Em Summa Theologica, Tomás de Aquino se refere a Aristóteles centenas de vezes apenas como “O Filósofo”, como encontrado em Questão 159, artigo 5 por exemplo.
[3] Ambas colocações presentes em Heidegger, Martin – O Ser e o Tempo. P.5 (Numeração original)