Há atenção ao detalhe, há sons que rebentam, há uma história de coisas antigas que agora regressam com novas cores enquanto lutam pacificamente por uma música livre de categorização inútil. Blank Banshee existe, está aqui e traz frescura sonora, seja numa realidade virtual criptográfica onde a identidade do artista é aquilo que cada um fantasia ou em formato de jogo bem real, irónico e descomprometido.
“Track Title : B:/ Infinite Login” é daquelas músicas que basta ouvir uma vez para que a memória imortalize cada segundo, um minuto imaculado de referências a um mundo digital que não sendo o de hoje ainda o é (o registo digital pode-se perder aos poucos mas nunca desaparece por completo, cada geração vai fazendo o seu próprio trabalho arqueológico e de preservação do passado). Pegar em coisas conhecidas e dar-lhes um novo uso pode ser traiçoeiro e Blank Banshee não tem problemas com isso. “Paradise Disc” é um fragmento mágico que junta uma confusão de ideias num resultado que faz sonhar, não fosse isto uma melodia de vídeo promocional para uma viagem turística às praias tropicais de Marte no ano 2049. E tudo isto consegue ser tranquilizador enquanto grita harmonia futurista, mundo estranho este. Só dá para aceitar. “Cyber Slums” é outro pedaço de sonho incomum, mistura de sinfonia digital e qualquer coisa difícil de classificar, algures entre um xilofone de cores vivas e um coro de robôs que só existem para confortar os donos, nem que seja numa favela onde a internet já é bem essencial. Aqui o futuro é o que a imaginação quiser. “Imagine yourself walking alone in an old road, the sun is warm in your back, the air is calm” diz-nos uma voz em “Realization”, nada mais do que uma introdução a um mundo de um qualquer jogo, tudo é fantasia, tudo é uma projecção de desejos, tudo é distante, “…there’s a rainbow in the myst”. Ideas que vivem da pixelização agora são exploradas em modo ultra definição, som ultra claro, arquitectura muito bem desenhada. Apenas uma faixa chega aos três minutos e elas não precisam de mais, Blank Banshee é conciso. Simplificando: se os sons são familiares e facilmente reconhecíveis, se os títulos apontam para referências concretas (“Java Clouds”, “Anxiety Online !”, “B:/ Hidden/Reality”), se o delírio é potenciado pela imaginação, então para quê explicar demais e dizer demais? As partículas digitais saltam de um lado para o outro, o domínio da panorâmica é certeiro, o coquetel estranho convida à persistência, música após música os sons vão-se tornando mais naturais, a surpresa passa a certeza e que forte equilíbrio há nos detalhes (o equilíbrio é inteligente quando o interesse se mantém de forma forte, independente da duração), manobram-se os segundos com enorme cuidado, Blank Banshee é artista de minúcias - isso é unívoco.
Um álbum do presente para o futuro, de uma geração acelerada para outra? Várias possibilidades se abrem para uma interpretação de uma música estimulante a vários níveis. Porque se há interesse em olhar para trás ao mesmo tempo que a grande imagem soa a novidade então o difícil é o enquadramento das coisas. O que é suficiente para Blank Banshee? Nada de muito importante, no fundo: a música eleva-se e aguenta-se de forma autónoma. A imagem que fica é a de uma fantasia digital, mundo exilado (por gosto). As faixas podem tocar continuamente em modo repetição que fica sempre aquela sensação de topo de montanha inalcançável. Vê-se o ponto no horizonte mas não dá para chegar lá e por isso imagina-se. Não dá para absorver tudo, a abstracção desta linguagem não o permite. Isso será a maior qualidade de Blank Banshee.