Dia 25 de novembro de 2016. Calor, chuva, nervosismo. Ănibus estava, estranhamente, vazio. Conversei com uma moça enquanto tentava controlar meu estĂŽmago, nervoso, que insistia em gritar. Ao descer no ponto, quase derrubei o celular no chĂŁo. Chequei a tela, nenhuma mensagem sua. Ok. Ainda era 18h20 e eu nĂŁo estava atrasada. Andei trĂȘs quadras atĂ© a entrada da faculdade, onde minhas amigas me aguardavam para pegar a cĂąmera. "Boa sorte", elas desejaram. Andei mais 300m atĂ© o banheiro, onde respirei fundo 10 vezes, chequei meu rosto assustado no espelho, reclamei internamente sobre meu cabelo bagunçado pela chuva e me concentrei em acertar os passos para o meu bloco. 406 passos me levaram atĂ© o primeiro andar do prĂ©dio que vocĂȘ estaria. No caminho, olhei para o celular seis vezes. 18h35. Eu estava atrasada, mas vocĂȘ nĂŁo tinha falado nada. Entrei no bloco, cabeça erguida, coração na boca, mente conturbada. Olhei para todos os lados. Nenhum sinal. Esperei cinco minutos. Nada. Te mandei uma mensagem. "Chuva. Estou gripado". Naquela semana, tinha tido crise de fĂgado, febre de 40°C, faringite e estava completamente gripada. Tomei chuva, torci o pĂ©, inflamei a garganta. Mas estava lĂĄ, sentada naquele banco, espirrando, olhando para o celular. EntĂŁo, com toda a coragem que ainda tinha, eu desisti. Fui embora. NĂŁo do prĂ©dio, da faculdade, ou daquele banco. Fui embora da sua vida. Sem olhar para trĂĄs, pois vocĂȘ jamais esteve em local algum Lembrei do seu amigo gente boa que estudava por ali. Teu livro queimava na minha bolsa, assim como teu descaso jĂĄ queimou no meu peito. Ele, como sempre simpĂĄtico, me encontrou em frente ao bloco azul, onde pessoas e casais felizes comemoravam uma graduação. Entreguei o livro nas mĂŁos dele. "Brigaram?". NĂŁo, eu respondi. Estou indo embora dessa histĂłria. Ele balançou a cabeça e, sorrindo, disse. "Tudo bem, se cuida". E fomos embora. Ele, para a aula. Eu, para o auditĂłrio de premiação do curso. Te enviei uma mensagem. Meus amigos chegaram. VocĂȘ respondeu. As pessoas estavam sorridentes, comemorando, e eu tambĂ©m. "Se queria me deixar triste, conseguiu". E nesse momento vi que nĂŁo importa nada do que eu fiz, faço ou faria por ti. Sempre vou ser a culpada por ter te amado. Mas, agora, eu nĂŁo acredito mais em vocĂȘ. NĂŁo sou a culpada. Eu mereço ser feliz. Te disse adeus. Bloqueei em todas as redes imaginĂĄveis. Mas o mais importante: te tirei do meu coração. Insisti trĂȘs anos em um amor que sĂł existia para mim. NĂŁo me arrependo. Enquanto a jornalista que admiro entregava prĂȘmios, eu pensei em vocĂȘ. Quem segurou minha mĂŁo quando chorei, foi meu amigo. Quem me ligou para saber se eu estava bem apĂłs vomitar a noite toda, foi minha prima. Quem me fez companhia quando estive sozinha, foi minha amiga. Nunca vocĂȘ. Enquanto meus amigos comemoravam um primeiro lugar, lembrei do beijo que me deu embaixo da chuva um mĂȘs antes. Nosso recomeço, eu pensava. Mas naquele auditĂłrio vi que era o inĂcio do fim de um ciclo. Deixei para trĂĄs a magoa, o sentimento, as dĂșvidas, e tudo que me prendeu a vocĂȘ. Chamaram meu nome. Primeiro lugar. Meus amigos gritaram. Sem entender, levantei para receber um trofĂ©u de um professor que admiro, enquanto pares de olhos me olhavam. Mas nĂŁo eram os seus. Chuva. Gripe. Melhor amigo. Ex namorada. Futebol na TV. Sono. Dedo do pĂ© doendo. Tudo, menos eu. Agora Ă© tudo, menos vocĂȘ. Desci do palco. Celular piscando: mensagen no whatsapp. Ele, o cara que desisti quando vocĂȘ voltou, havia me mandado oi no momento em que fui embora da sua vida. Respondi. Ele estava dando o braço Ă torcer. Queria me ver. Meu coração, junto com as bochechas, esquentou. E vocĂȘ, bem, vocĂȘ ficou em 2016. O ano de encerramento de ciclos. Sempre senti que, um dia, darĂamos certos. FicarĂamos juntos. Mas nĂŁo hoje. NĂŁo daqui pra frente, no futuro ou em qualquer outro tempo. Sim, eu te amei e quero que seja feliz. Mas eu fui embora. Pela primeira e Ășnica vez, eu fui embora. E nĂŁo volto mais. Respondi a mensagem. Postei a foto do meu singelo prĂȘmio. Ele me parabenizou, disse que eu estava linda. Fechei os olhos. Me libertei.



















