breves reflexões, desagues e apontamentos para o Sarau Boca Acesa .029
O que cabe nas fendas sutis que enxergamos no primeiro olhar, antes até das primeiras impressões? Dura tão pouco e é tão fundante, está lá, impregnando cada segundo e ainda assim, é tão etéreo que se recusa a caber em um compartimento, um carretel, uma razão.
Um dia escolhi entrar por um desses buracos e saí em busca do que minha memória pudesse me dizer quando eu voltasse. Entrei e me vi em um lugar entre livro e filme, onde o tudo em volta se apagava e só havia espaço para encontros de olhos nos olhos entre cenários de belezas incandescentes.
Sério. Parecia algo assim como deve ser o reino dos cogumelos. De vez em quando, inclusive, eu sonho com cogumelos, da última vez era um bar-cogumelo, mas esse não foi o caso, porque não era um sonho. Era uma fenda.
E nessa fenda havia algo como um reconhecimento do extremo não-você envolvido no incomensurável fascínio por se saber parte daquele mundo, que não é seu, mas que te permitiu saber que você também poderia criar um mundo.
Aí você volta e a memória que resta, o que fica em você é uma fome, uma vontade silenciosa e estridente de fazer algo nascer.
Toda vez que experimentei isso, o arrepio na pele quando você se vê diante da Arte, toda vez sou grata. O que não cabe no coração aberto de um artista em manifesto? A pergunta continua porque é ainda mais volátil no passar do Fio. E cresce até a criação de Universos fecundos.
Quando Arte se faz viva, respira. Esse é o sopro maior, o que impulsiona a vela desse barco, move os passos dessa aranha. Quando digo que é preciso viver pra saber, também ouço o trançado, o riscado, os riscos, os cruzos, as misturas, tudo o que foi deixado de legado por quem veio antes de mim.
Somos uma linhagem de gente tinhosa, nós que tecemos teias, véus, tramas, brilhos, sombras, cadências, histórias. Gente que encanta e se deixa encantar. Gente que presta atenção. Gente que se importa.
Nos recortes que surgem do contorno de emaranhados podem estar as chaves pra destrancar mais portas de Liberdade. Desejo tem ritmo. Vontade tem sabor. E isso é antes, no lampejo, naquele ponto indecifrável que une fundo de olhar, chama no peito e boca que quer.
Que possamos impulsionar rasuras artísticas incendiárias. Soprar até faiscar. Continuar daí.