(...) E não é que eu tenha percebido tarde demais; não. Apenas sob minha pele, fui tatuando mágoas que não seria capaz de apagar depois. Tardiamente, fui deixando para trás de sorrisos abafados, lágrimas que caíam solitárias. Eram dores sem medicação própria, daquelas que não se cura apenas com pensamento positivo. Porque eu falhei diversas vezes em agradecer quando, na verdade, deveria ter dado um ponto final. Arrastando as cortinas, furando-as com pensamentos pontiagudos, lentamente me aprofundava na arte de me enganar por você. E, nesse mar de mágoas, me afoguei com todas as águas que jurei jamais beber. E cada minuto, cada mísero momento, eu mentia para mim mesmo. "Está tudo bem se estiver bem com você"; e o silêncio da minha mente se tornava um turbilhão de pensamentos rabiscados, manchas escuras que não saíam com nenhuma borracha. Eu sabia dizer o não apropriado, mas o sim me perseguia e me dava uma chicotada toda a vez que a sanidade me apertava. Quantas não foram as vezes que jurei que acabaria com aquela tortura, porque a dor não deveria fazer parte dos planos. Mas somos inocentes demais para crer no amanhã sem um "alguém". Presentes de despedidas, conversas abafadas com risos e gestos carinhosos. Um palco formado por nós. E de nós, lentamente, nada tinha. E pedir ajuda, chorar ou desapegar... nada era fácil demais sem você. Mas foi tarde demais que eu notei, que sem você, eu poderia seguir melhor. Não é que você nunca foi importante pra mim. Mas o nosso momento não era para agora. Lembro das suas despedidas durante a noite, de encontros calorosos e estrelas sob o céu. Daquelas cantigas falhas e simpatias divertidas. Eu tentei. E eu acredito que você também tenha, mas o agora não é mais nosso. E se existe uma última prece que eu possa fazer, é que você siga em frente sem olhar pra trás. Porque atrás, logo atrás, estou recolhendo meus escombros, pequenos cacos de mim; um dia, eu irei adiante.