Nos falta visão além do alcance para ver Obaluaê sem as palhas. Nos falta preparo para aceitar o incontestável: somos menos do que acreditamos ser.
Ele se cobre por ser reflexo do óbvio, do qual desviamos do olhar: nosso corpo é frágil demais, nosso mundo é frágil demais.
Insistimos em engodos: uma natureza sem defeitos, nosso organismo máquina perfeita, a criação em nada errou.
Crenças patéticas.
Qualquer pessoa pode contrair vírus e se encerrar. Ter infarto. Câncer fatal. Aneurisma. Sofrer acidente e se despedaçar.
Nosso corpo vem com falhas terminais. Tantas vezes, se sabota.
Nossas mentes são mar de contradições e emaranhadas de dúvidas, medos, angústias, depressões, ansiedades e transtornos, boa parte inconfessáveis para quem os carrega.
Nossa Terra, menos que uma célula no universo, pode ser atingida por um meteoro e BAM! Extinção. Pode ser destruída por nós, nessa inundação de ganância.
Vivemos num ambiente inóspito, repleto de desastres climáticos e geológicos, que nos agride e ao qual agredimos.
Nos violentamos como espécie. Tiros, cinturões, palavras, alimentos insalubres.
Somos arrogantes. Somos rudimentares. Primatas com mania de grandeza.
Obaluaê, o das pegadas que marcam em profundidade o solo dos cemitérios onde a vaidade apodrece, é tão sisudo como realista. Sabe quem somos: de almas e corpos fracos, de mentes autoenganáveis, aflitos por curas milagrosas, por mentiras convenientes.
O deus das moléstias é também o da precisão.
O que nos diagnostica com a enfermidade do iludir-se com o falso brilhante da bajulação coletiva. De abusarmos do próprio corpo por considerá-lo superprotegido pelo divino, que de tudo nos vai livrar, que com perfeição nos fez.
O orixá da saúde é o do silêncio. Que nos receita o autoexame, o cair em si, no calar da autoexaltação.
Antes que haja cura pelo fármaco, que haja a reflexiva pela autopercepção, pela desaceleração, pela quietude do ego.
Por mais jovem e saudável que sejas, cada dia vivido é um se aproximar da morte.
Atotô, nosso senhor do repensar.
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