O riso fĂĄcil, a lĂĄgrima que seca rĂĄpido e o espanto diante de um caracol guardam um segredo. O que os Ibejis carregam na algazarra de seus ganzĂĄs. A dupla essĂȘncia: inocĂȘncia que cura e travessura que liberta.
Diz o itã que Iku, a morte, soberana e implacåvel, um dia marchou até eles com sua presença que aniquila cantos. Mas o que encontrou não foi medo. Encontrou a Ibejada em plena roda de brincadeira, rindo, dançando, girando na alegria. E Iku, confusa, parou. Sem saber como agir diante daquela força que desconhecia: a não resignação.
Os Ibejis, vendo sua hesitação, a convidaram para a dança. "Vem, baile conosco!" E cantaram para ela uma melodia tão cheia de inventividade, que Iku, a senhora do fim, distraiu-se pelo jogo, esqueceu seu propósito e foi embora sem cumprir sua missão. A vida venceu não pela força, mas pela brincadeira.
Ă o legado sagrado que os gĂȘmeos deixam. Manter o espĂrito de criança aceso nĂŁo Ă© fraqueza, Ă© estratĂ©gia divina para escapar da morte cotidiana. Ă a arte de enganar a sisudez que petrifica, que seca a alma.
Maturidade nĂŁo Ă© a prisĂŁo. Ă a liberdade de escolher quando ser sĂ©rio e quando ser leve. Ă o certificado outorgado pela vida que nos permite, com plena consciĂȘncia, assumir certas infantilidades.
à deixar-se maravilhar com o voo de um beija-flor, rir até chorar de uma bobagem, dançar sozinho na sala, pular uma poça d'ågua, comprar um sorvete colorido e sujar o rosto. à entender que responsabilidade inclui a obrigação de ser feliz.
O adulto completo não é aquele que apenas carrega o mundo nos ombros, mas aquele que, de vez em quando, pÔe o mundo de lado e se pÔe a rodopiar. Porque segurar o ser adulto é um fardo pesado. à preciso flexibilidade brincante, irresponsabilidade sagrada aqui e acolå, desviar da rota para seguir uma borboleta.
Ibejis cantam em nossos ouvidos: âMantĂ©m a criança viva em si, mantĂ©m-se vivo. Quem sabe brincar, sabe vencer. E mesmo nas cinzas, encontre um risoâ.
Que nosso coração-ganzå nunca cale o seu som de festa.
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