MiSaNtRoPiA
Não foi o mundo que me expulsou. Eu saí. Fechei a porta devagar, sem bater, porque até para o desprezo é preciso elegância. Cansei dos sorrisos de aluguel, das mãos que abraçam enquanto medem facas, das promessas escritas com tinta que a primeira chuva leva. Cansei. Há gente demais e humanidade de menos. Escuto discursos sobre amor saindo de bocas que alimentam a própria fome com a carne dos outros. Vejo heróis de vitrine, santos de ocasião, e uma procissão de almas pedindo aplausos como mendigos pedem pão. Não. Não odeio todos. Seria simples demais. Carrego ainda uma fé clandestina, escondida entre as costelas, esperando encontrar um rosto que não negocie a verdade, um olhar que não precise mentir para sobreviver. Mas enquanto isso, prefiro as árvores. Elas não fingem. Prefiro a chuva, que nunca promete voltar e ainda assim regressa. Prefiro os cães, que ignoram a linguagem e compreendem a lealdade. Prefiro a noite. Ela não me pergunta nada. E se me chamam de frio, de estranho, de homem partido, que chamem. Há um incêndio silencioso em quem já viu demais. E certas feridas não transformam homens em monstros. Transformam-nos em desertos. Não porque deixaram de amar. Mas porque aprenderam, com uma tristeza quase sagrada, que nem toda multidão merece ser chamada de humanidade.
ORFEU VANDAL


















