ReTrAtO sEm RoStO
Apaguei você com a delicadeza de quem limpa sangue de uma toalha branca. Primeiro, o nome. Depois, a rua, a hora, o vestido e aquela mentira que chamávamos de destino. Rasguei as fotografias, mas os olhos ficaram. Fechei as janelas, mas a noite continuou entrando. Há lembranças que aceitam o esquecimento como uma mulher ofendida: em silêncio, com os lábios imóveis e uma vingança atrás dos dentes. Você morreu em mim diversas vezes. No entanto, toda madrugada, alguma coisa sua arranha a porta. Talvez seja o perfume. Talvez seja a culpa. Talvez seja apenas meu coração, esse animal indecente, cavando o mesmo túmulo. Não me lembro do seu rosto. E isso é o pior. Porque agora posso encontrá-lo em qualquer pessoa.
ORFEU VANDAL














