MaNĂĄ
Nunca tive fome de corpo.
Era vergonha de te contar.
Eu tinha sede da ausĂȘncia.
Aprendi cedo a comer fotografias.
A beijar vestĂgios.
A derramar reflexos pelo nome dos santos.
Toda noite a mesma missa.
O mesmo sacrifĂcio.
A mesma mentira vestida de mil rostos.
E eu ajoelhado de olhos fechados.
Acendem as luzes.
Perguntam da famĂlia.
Depois se sentam Ă mesa e ficam.
Anos.
Sem pagar aluguel.
Chamavam aquilo de prazer.
Mas prazer nĂŁo deixa esse gosto de fel na lĂngua.
Nem essa ressaca de quarto vazio.
Eu me multiplicava em mĂŁos estranhas.
E voltava menor.
Como quem vende a alma para comprar retratos.
Até descobrir que essa fome nunca quis o banquete.
Quer joelhos. Quer tempo. Quer silĂȘncio.
Quer o homem inteiro ajoelhado se deleitando diante de uma sombra que nunca responde.
No fim, quando a madrugada apagou os letreiros, sobrou apenas o espelho.
E aquele desconhecido desgraçado do outro lado continuava usando o meu rosto.
ORFEU VANDAL
















