Enquanto a brasa do meu cigarro natural insiste em sobreviver, eu também sobrevivo. Um trago. Outro. A fumaça sobe. Os pensamentos não. Eles correm soltos, feito cachorro que esqueceu o caminho de casa.
Cansei de ouvir que basta continuar. Continuar para quê? Fiz o que estava ao meu alcance. Entreguei tempo, coragem, dignidade, silêncio e até pedaços de mim que nunca mais voltam. Ainda assim, o fracasso parece ter aprendido o meu endereço. Dorme na cadeira ao lado e acorda antes de mim.
Minha fé já foi um incêndio. Hoje é uma vela que luta contra o vento.
Procurei respostas em orações, nas cartas, na marijuana, em madrugadas de meditação, no silêncio e até no barulho da minha própria cabeça. Quando a resposta não vinha, eu inventava mais uma pergunta. No fim das contas, a única coisa que nunca faltou foi o cansaço.
Abri mão de muita coisa. Da liberdade de escolher, de caminhos que talvez fossem mais fáceis e até da paz de simplesmente não esperar nada de ninguém. É um preço alto demais para quem ainda acredita que vale a pena fazer a coisa certa.
Nem era sobre beleza. Beleza envelhece. Era outra coisa. Era aquela sensação estranha de olhar para alguém e sentir que a vida resolveu fazer sentido por alguns segundos. Eu teria enfrentado um tanque por ela sem pedir medalha. Queria apenas que ela se enxergasse como uma rainha, porque era assim que eu a vejo.
Enquanto isso, eu continuava sendo só mais um sujeito disposto a dar tudo... para receber o mesmo vazio de sempre.
Engraçado como algumas pessoas transformam água limpa em esgoto sem nem perceber.
Às vezes acho que o problema não é o mundo. Talvez seja eu. Talvez eu tenha nascido acreditando demais nas pessoas. Talvez eu tenha confundido caráter com recompensa. Talvez a vida nunca tenha prometido justiça, e fui eu quem inventou essa mentira para conseguir dormir.
Não sou santo. Nunca fui. Tenho pecados suficientes para encher um inventário inteiro. Mas também já paguei caro por eles. Tão caro que, em alguns dias, parece que continuo sendo cobrado por uma dívida que já quitei faz tempo.
É aí que a cabeça começa a brincar com a gente.
Você se olha no espelho e já não sabe se é o herói da própria história ou apenas o figurante de uma piada mal escrita. Acredita que nasceu para ser porto seguro e descobre que, para muita gente, você nunca passou de uma parada rápida antes da próxima viagem.
Então vem a pergunta que ninguém responde.
Foi por respeitar demais?
Foi por acreditar que nobreza ainda tivesse algum valor num mundo que aplaude quem pisa primeiro?
Só sei que existe uma diferença enorme entre perder e desistir.
Desistir é entregar a própria alma.
E essa, por mais cansada que esteja, ainda se recusa a aceitar que o castigo por tentar ser um homem decente seja passar a vida inteira colecionando derrotas.