Blackoustic: Kotipelto & Liimatainen no Rio*
Teatro Odisseia - 18 de abril de 2018
Texto: Leonardo Melo | Fotos: Daniel Croce e Gustavo Maiato
Guitarras rápidas e distorcidas, baterias turbinadas com dois bumbos que pulsam na velocidade da luz e, ocasionalmente, teclados para dar uma encorpada extra no som. Quem curte power metal sabe que essas sĂŁo algumas das principais caracterĂsticas dessa vertente do rock pesado. Mas e quando dois consagrados nomes do gĂŞnero subvertem tais atributos, por assim dizer, dando uma abordagem diferente Ă s canções? Digamos que esta seja a proposta do Kotipelto & Liimatainen, projeto capitaneado pelo vocalista Timo Kotipelto (Stratovarius) e o guitarrista Jani Liimatainen (ex-Sonata Arctica): trazer versões acĂşsticas para clássicos de suas respectivas bandas e de outros artistas do rock e do heavy metal. Interessante, nĂŁo?
O duo finlandĂŞs apresentou uma amostra desse trabalho (já registrado em estĂşdio, no álbum “Blackoustic”, lançado em 2012 e que batiza a turnĂŞ), em show realizado no Teatro Odisseia, Rio de Janeiro – o primeiro de um longo giro pela AmĂ©rica Latina que se estenderá por todo o mĂŞs de maio. AlĂ©m de material do Stratovarius, Sonata Arctica, Cain’s Offering (outra parceria da dupla) e Kotipelto, o pĂşblico tambĂ©m pĂ´de conferir releituras para mĂşsicas do Iron Maiden, Deep Purple, QueensrĂżche e Dio, entre outros, em uma performance intimista e descontraĂda, no estilo banquinho, voz e violĂŁo. A abertura ficou aos cuidados do Syren, que tambĂ©m preparou um set em formato “unplugged”.Â
Os cariocas executaram mĂşsicas prĂłprias como “Devil Road”, do seu primeiro álbum, “Heavy Metal” (2011), alĂ©m de covers. E agradaram bastante. Em meia hora de apresentação, o vocalista Luiz Syren, o baixista Mauricio Martins e o baterista JĂşlio Martins tiveram o reforço de Thiago Velasquez (Leather Leone Band e LionHeart) e Daniel Escobar (HR Estudio) nos violões, como convidados. Versões inspiradas para “Tears of the Dragon”, de Bruce Dickinson, e “Sweet Dreams (Are Made of This)”, do Eurythmics, foram responsáveis pelo arremate final em grande estilo. Ambas contaram com a participação tambĂ©m especial do cantor Rodrigo Rossi (Os Cavaleiros do ZodĂaco in Concert e Rec/All), que fez um belo dueto com Luiz Syren.
Por volta das 21h, as luzes sobre o palco do Odisseia diminuĂram de intensidade, deixando o espaço, propositalmente, quase Ă s escuras. No sistema de som da casa, ecoavam as badaladas dos sinos de “Hells Bells”, do AC/DC, seguidas da instrumental “War”, tema assinado por Vince DiCola para o filme “Rocky IV”. Pouco depois, Timo Kotipelto e Jani Liimatainen entraram em cena ovacionados pelo pĂşblico, que deixou bastante a desejar em termos numĂ©ricos, infelizmente. No entanto, se faltou em presença, compensou em animação. ApĂłs cumprimentar a todos com um “Oi, tudo bem!” em portuguĂŞs, o cantor iniciou a festa com “I Surrender”, cover do Rainbow.
E, logo de cara, aqui vai um destaque. NĂŁo Ă© novidade que Kotipelto Ă© um dos maiores vocalistas do heavy metal. Fato. Mas ouvir seu gogĂł privilegiado reinar absoluto, sem disputar as atenções do pĂşblico com outros instrumentos (como ocorre quando se divide o palco com uma banda), eleva tal percepção a outro nĂvel. “Sleep Well”, do projeto solo batizado com seu sobrenome, veio na esteira, antes de Kotipelto revelar que a prĂłxima mĂşsica seria de uma banda da Finlândia, chamada Stratovarius. Foi a vez da clássica “Black Diamond”, de “Visions” (1997), que levantou o pĂşblico.
O show, aliás, reuniu várias canções do repertĂłrio do grupo, desde mais antigas, como “Speed of Light” e “Forever”, de  “Episode” (1996), a mais recentes como “My Eternal Dream”, de “Eternal” (2015). RepertĂłrio este que tambĂ©m rendeu tiradas hilárias da dupla. Antes de “Shine in the Dark”, por exemplo, Kotipelto arrancou gargalhadas ao dizer que a mĂşsica em questĂŁo, do “Eternal”, seria a pior que tocariam naquela noite, por se tratar de uma composição dele e Liimatainen juntos.Â
Em outro momento bem-humorado, após “Season of Change”, do “Episode”, ambos anunciaram “A Million Light Years Away”, de “Infinite” (2000), como uma música entediante, de uma banda e vocalista igualmente entediantes. Já o Cain’s Offering foi apenas representado por “I Will Build You a Rome”, do disco “Stormcrow” (2015). Da mesma forma, o Sonata Arctica também teve uma única faixa executada, “My Selene”, com direito a uma linda interpretação acompanhada pelo público. Escrita por Liimatainen, ela faz parte de “Reckoning Night” (2004), seu penúltimo álbum com o grupo. Membro fundador do Sonata, o guitarrista deixaria a banda em 2007, após o disco “Unia”.
Voltando ao show, “I Don't Believe in Love” foi introduzida por Kotipelto como uma das mĂşsicas de um dos seus discos favoritos, “Operation: Mindcrime”, a obra-prima do QueensrĂżche. Mais adiante, apĂłs o cantor dizer que a faixa seguinte seria uma do Deep Purple que eles sabiam tocar, um Liimatainen gaiato iniciou o emblemático riff de “Smoke on the Water”, levando todos Ă s risadas. PorĂ©m, o que veio na sequĂŞncia foi a igualmente clássica “Perfect Strangers”. No fim, Kotipelto pediu uma saudação do pĂşblico ao guitarrista, que, em resposta, brincou, dizendo ser um cara tĂmido, finlandĂŞs, e que nĂŁo poderia aceitar aquilo. Sem pensar duas vezes, o vocalista mandou, Ă capela, o refrĂŁo de “We're Not Gonna Take It”, hit do Twisted Sister. Simplesmente, hilário.
Os dois ainda prestaram homenagens ao guitarrista e cantor Gary Moore, por meio do cover de “Out in the Fields”, e a um dos maiores vocalistas da histĂłria do heavy metal, nas palavras do prĂłprio Kotipelto, o tambĂ©m saudoso Ronnie James Dio, em uma versĂŁo de “Holy Diver”. Como se o jogo já nĂŁo estivesse ganho de goleada, “2 Minutes to Midnight” e “The Trooper”, daquela banda inglesa que vocĂŞ, fĂŁ de metal, conhece na ponta da lĂngua, tambĂ©m marcaram presença, com entusiasmada participação do pĂşblico no famoso corinho e nas palmas.
ApĂłs um breve intervalo, a dupla voltou ao palco sob aplausos e iniciou o bis com uma bela canção tradicional finlandesa, chamada “Karjalan Kunnailla”. A clássica “Paradise”, pertencente a “Visions”, retomou a cantoria do povo, que chegou a pedir por “Eagleheart” na sequĂŞncia. Mas a faixa de “Elements Pt 1” (2003) nĂŁo rolou. Por sua vez, “Hunting High and Low”, de “Infinite”, mostrou que nĂŁo faltam clássicos ao Stratovarius, com todos cantando em conjunto. Anunciada como a Ăşltima da apresentação, de quase uma hora e 50 minutos, “The Final Countdown”, maior hit do Europe, fechou com chave de ouro (perdoem-me o clichĂŞ) uma noite Ămpar.Â
Certamente, aquela impressĂŁo de que os finlandeses, assim como os europeus de modo geral, sĂŁo um povo fechado ou sisudo (imagem essa que, equivocadamente, pode ser confundida com arrogância) caiu por terra a partir daquela noite de 18 de abril no Odisseia. Timo Kotipelto e Jani Liimatainen deram um show nĂŁo apenas musical, mas tambĂ©m de carisma, simpatia e muito bom humor. Em tempos tĂŁo obscuros e intolerantes como os atuais, a dupla mostrou que, definitivamente, rir de si mesmo Ă© o melhor remĂ©dio. Que assim seja. Pena de quem nĂŁo foi.Â
Kotipelto & Liimatainen - Set list:Â
01. I Surrender (Rainbow) 02. Sleep Well (Kotipelto) 03. Black Diamond (Stratovarius) 04. My Eternal Dream (Stratovarius) 05. Out in the Fields (Gary Moore) 06. Speed of Light (Stratovarius) 07. Shine in the Dark (Stratovarius) 08. I Don't Believe in Love (Queensrÿche) 09. Season of Chance (Stratovarius) 10. A Million Light Years Away (Stratovarius) 11. I Will Build You a Rome (Cain’s Offering) 12. Perfect Strangers (Deep Purple) 13. 2 Minutes to Midnight (Iron Maiden) 14. My Selene (Sonata Arctica) 15. Forever (Stratovarius) 16. Holy Diver (Dio) 17. The Trooper (Iron Maiden) Bis 18: Karjalan Kunnailla 19. Paradise (Stratovarius) 20. Hunting High and Low (Stratovarius) 21. The Final Countdown (Europe)
*Publicado originalmente no site da revista Roadie Crew
















