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@amor-barato
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Minha mãe gritava: — Peste, deixa de fazer arte! Arte? Arte do tipo criança moleca? Arte do tipo Picasso? Arte do tipo Beethoven? Arte do tipo Fernando Pessoa? Travessura, pintura, música ou literatura? Não sei dizer qual delas, mas, em todas elas, o eu lírico é de tirar o fôlego. Uma mais bonita que a outra. Se eu faço arte assim, o homem do saco me leva? A tristeza de Guernica me atinge? A Sonata de Luar me faz chorar? Os sonhos do mundo podem caber em mim? A dor lúdica do eu lírico, em sua forma lírica, é uma arte feita com as artes da vida. Daquelas que não ferem somente o joelho, mas provocam feridas no peito. A peste que um dia fui, a peste que ainda sou, do jeito bom, do tipo ruim, fez de mim poeta dos pés à cabeça. Eu disse: — Mãe, eu não posso! Sou tabacaria reflexiva, sou piano tristonho, sou quadro de guerra, sou menino curioso. Cada arranhão na pele reflete como cicatriz na alma; sou tudo isso que digo e um pouquinho mais. Nada muito espalhafatoso, mais um cadinho fantabuloso. Reticências das vivências, vírgulas cansativas, travessões atravessados na garganta, pontos finais difíceis de engolir. A arte de mais um capítulo vivido, apesar de toda a dor que carrego, é a arte mais difícil que já fiz e a mais linda que já vi.
frio
você disse que meu coração era muito frio
que por mais que quisesse, não dava pra você entrar
disse que o que se passa na minha cabeça é muito sombrio
que por mais convidativo que fosse, era impossível de ficar.
você achava meu amor diferente
esquisito, meio aéreo, na contramão
é que aqui dentro é tão frio
que primeiro eu preciso encontrar um jeito de me esquentar
mas acho que você não tem noção
de como eu queria que tudo aqui fosse quente
e de como eu penso na gente
do jeito mais vermelho possível
mas tudo é muito confuso
gabisteca
“Pena termos nos encontrado só agora, já com o coração viciado em outros amores, com uma imagem meio falsa do que é felicidade.”
— Tati Bernardi.

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"Continué y destruí cada recuerdo concreto porque ya no te quiero encontrar en mis rincones, menos en mis sueños y es por eso que estás donde ya no te busco y ahora busco mi felicidad"
Julio Cortázar
Ao senhorio: Senhor, eu rio
Quero agarrar o centro da Terra pelo colarinho E todo o tempo que por lá esteja sozinho E gritar-lhe: Fá-la mais quadrada, o que for! Que nesta soa um impaciente tambor! A calma de uma casa Que me guarde a razão Que não precise de casar para pagar a prestação Que não presto nem duro Se pelo colarinho não te penduro! Mostra os dentes sarcásticos Mais uma vez, neste comboio Com reis e rainhas plásticos Maldizendo o trigo e o joio! Não quero disputa, apenas implorar Que aqui é tudo muito similar Tudo se substitui, tudo se prostitui Náusea de um parto que já se dilui. O que faço, toco a lira dos astros rendidos? Ou é para que me fira O encontrá-los assim perdidos? Oh angústia de montanha e vale Que me veem passar! Do que me vale a montanha Se logo volto a cismar Se foi sonho, se é de sal esta lágrima tamanha! Até amanhã! Sou do campo, sou da morte Que me queira levar Já não me espanto se a essa sorte Finalmente me leve para ficar... Como de porta em porta Procuro ânimo ao vocalizar: Este jardineiro tudo corta Para a terra não murchar... Rumores de urgência Subordinam os corpos E bastar-se é pestilência Para a alma que não a dos porcos. Leve-me o tempo imemorial Da dimensão artística Que quanto maior o vendaval Menor a alma determinística O diabo rezou a deus Por perder as botas Nas rotas parecendo rios Nas rochas parecendo frotas. Elevará a arte o caduco pulsar da palavra Ao ar, a Marte, à pulsar, Não somente o secreto muco Das origens sombrias?
“[…] fogos de artifício espoucaram. As coisas se quebravam em desastre quase antes dela se abrigar –”
A Cidade Sitiada, Clarice Lispector

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Lotus pond.
| by Philos
💧 Watercore month on @mynocturnality
Três Postais
AMAZONAS
O mundo cheio
vazio
À beira da água
as núpcias da anta
e da vitória régia
Peixe luminoso
água escura
Na primeira parada do barco
um enxame
de crianças antigas
SÃO PAULO
Depois de um tempo
todas as coisas ficam marcadas
como se estivessem
impregnadas de veneno
Há um tempo em que os lugares
são limpos e novos
abertos como clareiras
mas já não é este o tempo
Sobre cada lugar se sobrepõe
a experiência do lugar
como um selo
num cartão postal
Por exemplo
hoje sempre que sobrevoo
São Paulo
penso que em algum apartamento
desta cidade interminável
você
fumando
de óculos
exerce seu direito
inalienável
de não mais pensar
em mim
BELO HORIZONTE
[1]
Um dia vou aprender a partir
vou partir
como quem fica
[2]
Um dia vou aprender a ficar
vou ficar
como quem parte
Ana Martins Marques
1920 girl

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darkness
A solidão, essa tempestade, esse gozo às avessas, esse jeito de eternidade que as coisas adquirem mesmo sendo apenas vidro. Essas cartas ardendo no estômago das gavetas, essas plumas que surgem quando se apagam as últimas luzes do dia. Tudo faz a noite mais longa, visão de uma sombra sobre um berço. Não há resposta e o labirinto é o falso, os lábios são falsos, somente abismo, absinto verdadeiro. O sono, grande placa de cerâmica, e o tempo, demônio a ranger sobre o infinito.
verunschk