Jane nunca foi um exemplo de paciência, algo que infelizmente falhara em herdar de sua mãe; não fosse pela personalidade reservada, era capaz de xingar os quatro cantos dos terrenos de Dillamond e mandar o próprio Merlin ao inferno por sua incompetência como diretor, mas era quieta e educada o bastante para segurar a língua e descontar a raiva nos treinos de esgrima e lacrosse. Todavia, a filha de Wendy sentia-se ainda mais irritável no último mês, desde que a Sombra — sim, agora sabia o que ela era. Não, isso não deixava a situação menos complicada — fizera de seu corpo lar e decidira não deixá-la mais em paz. Estava perdendo o controle, e mais do que nunca precisava de tempo para se recompor.
Solan era, às vezes, o motivo para suas dores de cabeça, enquanto em outras era exatamente o que conseguia aliviá-las. Sua extroversão e espontaneidade arrancavam Jane de sua zona de conforto e, por um pequeno instante, a faziam esquecer que era uma ranzinza de primeira classe. Quando ouviu o cantarolar às suas costas, soube que era o amigo quem se aproximava, e virou-se para ele com sua expressão usual de estou te esnobando, mas me convencer é fácil. “Assaltar pessoas? Que isso, garoto, vai assaltar ninguém não, tá doido?” Deu um tapinha no lado da cabeça de Sol, o repreendendo. A oferta, no entanto, era de fato tentadora. Embora detestasse assumir, eram inegáveis as semelhanças que tinha com a mãe, e estas não resumiam-se apenas à aparência: desde criança, amava histórias sobre piratas e aventuras ao mar, uma das razões para tanto empenhar-se nas lutas de espadas. Uma jornada de um dia com o amigo, para esquecer os problemas que a atormentavam… Parecia um bom plano. “Apesar de eu nunca ter dito essas coisas… Acho que seria uma boa. Já que a redoma caiu, devíamos aproveitar, né? Mas sair assim não vai trazer problema, sem a permissão de Merlin ou dos nossos pais?”
" — Poxa...” reclamou, fazendo um biquinho para a garota. Obviamente não queria mesmo assaltar ninguém, não era nem como se precisasse daquilo, por mais que fosse certeiro com o arco e flecha o príncipe estava longe de precisar bancar o Robin Hood. Entretanto, ver como havia afetado Jane lhe fazia rir, era como um hobby para o ruivo, então era certo que implicaria usando aquilo. “ —Nem um assaltozinho pequeno? Só algumas pratinhas? Ah, qual é, deixa de ruindade.” se sentou ao lado da outra, deitando sua cabeça na mesa, entretanto ainda mantendo seus olhos direcionados a Darling. “ — Você quebra muito minhas perninhas, Jane. E olha que na verdade nem são perninhas, são uns pernões, então você coloca bastante força na hora de me barrar de fazer coisas.” suspirou, fazendo tanto drama que poderiam até mesmo pensar que o garoto era o presidente do clube de teatro.
Pensava que era uma batalha perdida, já tentando inventar alguma outra coisa para que fizessem, pelo menos até escutar a garota continuar sua frase, o que fez com que o príncipe de Arendelle levantasse sua cabeça com uma velocidade que até fez a vista do mesmo ficar um pouco preta. Não que ele iria demonstrar isso. “ — Ah caralho, quem liga pra isso” gesticulou com sua mão, descartando aquele pensamento. “ — Vai deixar mesmo a possibilidade de se meter em problema lhe impedir de ir em uma aventura? Que bobagem. Isso é coisa que a gente foca só depois de fazer a merda, pô, tem que seguir o roteiro.” colocou o maior sorriso que podia no seu rosto, agora se levantando e sentando na próxima mesa, se inclinando para poder ficar olhando bem no rosto de Jane. “ — Mas serião agora, na moral, tem tanta merda acontecendo que se a gente sair rapidinho ninguém vai notar. Velejar é divertido, Jane, você sabe disso, e eu sou um mestre dos barcos.” se exibiu, pois sabia que realmente era. Tinha talento e treinamento para aquilo, afinal de contas. “ — E ai, vai mesmo ou vai desistir? Só preciso que você mande o verde e podemos correr para as docas, já tenho um barco em mente, passei por lá mais cedo e tava super dando sopa.”