Ainda se sentia um pouco alheio ao mundo, como se a força gravitacional não exercesse mais tanta pressão sobre si, e uma das poucas coisas que ainda o conectava a terra era aparelho de telefone, que inicialmente brincava por entre os dedos inquietos daquele que portava um semblante abatido. Por vezes Seth se pegava desbloqueando a tela e observando a imagem que tinha como plano de fundo. A foto era uma de suas favoritas, ilustrava Rosemaria em uma pose completamente natural, alheia a câmera que era apontada para ela e admirando a paisagem do sul da Itália…Ou seria o norte da Grécia? Não tinha importância, pois de qualquer forma aquilo o remedia a lembranças da viagem, mas também era um aviso constante de que nada bom que havia chegado na sua vida era feito para permanecer. Tal pensamento estava quase se tornando rotineiro em sua mente, principalmente após a descoberta da doença que sugava a vida da matriarca da família, e o destruía de forma que arma alguma poderia fazer.
Sabia que não tinha o direito, ainda era consciente o suficiente para saber disso, entretanto, para quem mais poderia ligar…Ou melhor, para quem mais desejava ligar se não para ela? Soltou um suspiro cansado ao se dar por vencido, ainda que não aceitasse que estava fazendo aquilo porque precisava sentir algo diferente da raiva, da mágoa e da solidão; necessitava de algo que fosse bom. A garganta lhe pareceu extremamente seca assim que ouviu a respiração alheia do outro lado da linha, segurando firme o telefone para não se acovardar e acabar desligando, levando poucos segundos para reunir coragem novamente. “Hey, it’s me. Sorry for calling you late at night, but I really needed talk to someone. I’m in the hospital, Anne is here too…Uhn, she’s sick.” Quase não reconheceu a própria voz ao proferir tais palavras, talvez fosse porque uma parte sua ainda não acreditava que aquilo estava realmente acontecendo. Felizmente, não precisou explicar mais nada, expressando alívio com a confirmação de que Rosie iria vê-lo. Não iria mais ficar sozinho.
Não sabia dizer o espaço de tempo que levou entre a ligação e a chegada da loira, provavelmente os calmantes que havia tomado estavam finalmente fazendo efeito, contudo, ainda conseguiu sentir um leve arrepio no que ela pronunciou seu nome, erguendo assim a cabeça para encarar os belos olhos azuis. “Você veio…obrigado.” Abriu um sorriso mínimo, erguendo a destra para tocar o rosto dela, como se precisasse de uma confirmação de que era real. A pequena pontada de alegria que sentiu, porém, desapareceu ao lembrar o real motivo dela se encontrar ali. “Eles falaram que ela está num estado muito avançado, Rosie…E eu não sei o que mais posso fazer, tudo que sei é que não posso perder ela. Eu não posso perder minha mãe.” Sentiu a garganta arder ao se forçar a falar, o vazio sentido no peito incomodando mais que qualquer outra coisa que já havia experimentado na vida.
Rosemarie queria poder dizer que sabia como ele se sentia e que tudo vai dar certo no final, mas simplesmente estaria mentindo. A única pessoa mais próxima que chegou a perder foi uma avó paterna mas ainda era criança na época para compreender e o pai também parecia não ter se importado muito. Por mais cruel que fosse, Rose também não conseguia se colocar no lugar de September pelo simples fato de que não tinha certeza se iria ficar realmente triste caso a mãe ou pai fosse diagnosticado com alguma doença. Pensando assim, parecia tão insensível mas como a loira ainda sentiria algo por pessoas que sempre lhe disprezaram durante toda sua vida? Completamente ao contrário de Anne que Rose sempre pode enxergar o carinho que tinha pelo filho, até mesmo com a própria Walker nas diversas vezes que dormiu em sua casa. Como podiam adoecer pessoas como ela e deixarem tão bem de saúde outros que não mereciam?
O toque em seu rosto fez Rosemarie voltar para a realidade, fechando os olhos por breves segundos para aproveitar o momento. Sabia que era errado mas sentia falta do outro e até mesmo simples toques como aquele. ❝ Eu não poderia deixar de vir. ❞ E era verdade. Independente de qualquer problema, aquilo era uma prioridade e Rose sabia separar as coisas. Contudo, ver Seth tão vulnerável lhe quebrava de uma maneira absurda. Era a primeira vez que lembrava vê-lo daquele jeito e esperava que fosse a única. A Walker ficou lhe observando por alguns segundos antes de lhe puxar para um abraço, apoiando o rosto dele em seu peito enquanto a destra ia até os cabelos tão conhecidos e a outra pousava em suas costas. ❝ You have comforted me many times... Now it's my turn. ❞ Murmurou, deixando um beijo no topo da cabeça do mais velho enquanto seus dedos faziam um leve cafuné, escolhendo com delicadeza as próximas palavras. ❝ Coisas como essa acontecem na vida de qualquer ser humano. É claro que nós pedimos para que não seja com nenhum parente nosso, pedimos para que ele tenha uma vida longa e saudável mas as vezes simplesmente não acontece. Você vai ser forte por ela, dar esse sorriso maravilhoso no qual eu tenho certeza que ela também é apaixonada e vai fazer o dia dela ser maravilhoso porque é nada menos que isso que ela merece. E eu... ❞ Sua frase parou enquanto engolia em seco, tentando não chorar. Era ele quem precisava de conforto, não a garota. ❝ I’ll be here for you. Always. ❞ Dito as palavras, Rose apertou-o um pouco mais contra seu corpo antes de relaxar novamente. ❝ Seja para visitá-la ou te oferecer um ombro, eu vou estar aqui. ❞