Mais um dia difícil no trabalho, cheio de problemas em casa e na vida, estava vivendo um pesadelo, durante minha caminhada para casa, vi que a cafeteria do bairro ainda estava aberta, fui até ela na esperança de tomar algo para relaxar, provavelmente um descafeinado.
Adentrei o local e logo pude ver o quão movimentado estava. Resolvi me sentar em uma das mesas e esperar. Minutos após, um garçom anotou meu pedido, parecia apressado, talvez estivesse na hora de sua saída. Esperei mais um tempo, estava demorando um pouco, já estava cabisbaixo pensando, até que o meu café veio até minha mesa, levantei a cabeça para a agradecer e notei que era outra pessoa, mesmo assim agradeci.
Naquele estabelecimento havia muitos funcionários, mas naquele momento só restava o dono dele; ele estava terminando de servir os clientes, talvez para encerrar o dia. Alguns minutos se passaram novamente, ele veio até mim me informar que estaria próximo de fechar, acenei com a cabeça e fui terminar de beber, quando ele se afastou soltei um forte suspiro, ele notou.
Pude ver ele indo até o seu estoque, pensei em me levantar antes, mas parecia estar sem forças ou sem vontade de sair dali, quando o vi puxando uma cadeira em minha frente, segurando um pote de biscoitos e enchendo meu copo, olhei para ele perguntando sobre o horário, ele balançou a cabeça dizendo que não tinha problema, que ele queria ouvir a minha história.
Passaram-se algumas horas desde então, eu não o vi fazendo movimento de encher meu copo, porém o mesmo nunca ficava vazio, aquela conversa, junto com o aroma, estava me acalmando e relaxando, parecia algo mágico. Olhei para ele e vi um largo sorriso, parecia que sabia que eu precisava falar e ficou por horas me ouvindo.
Quando finalmente me levantei para ir embora, tentei lhe pagar por tudo e ele recusou, disse que era por conta da casa, tentei negociar, mas ele não aceitou, ofereci ajuda para arrumar tudo e ele só me disse para ir para casa e abraçar minha família, me deu um aperto de mão e me viu partindo. Olhei para trás por um momento e pude ver um outro senhor parado ali, um pouco mais barbudo e segurando um cajado, talvez fosse o sono falando mais alto.
Finalmente em casa, as horas que fiquei conversando com ele pareciam não ter passado, já que, ao olhar o relógio, ainda era cedo, quase no meu horário de estar em casa. Fui de encontro com minha esposa e filhos e os abracei com todo meu amor. Eu estava mais leve, disposto a resolver tudo que desabafei naquela noite.