Nicholas mal piscava enquanto ela falava, como se cada palavra dela fosse um prego cravado com precisão no peito que ele achava já estar blindado, mas não estava. Nunca esteve quando o assunto era Eliza. E por mais que tivesse toda razão para explodir, ele não conseguia deixar de sentir compaixão. Aquilo não era teatro. Aquilo era ela: rasgada e despida de tudo. E ele gostava de Eliza daquela maneira, sempre preferiu uma versão mais descontrolada do que a polida que tentava passar uma imagem perfeita do que não era. Aquele tom quebrado como uma corda desafinada de um violino que ele reconheceria mesmo no escuro. Afastou um passo, instintivamente. Não porque queria se distanciar, mas porque precisava de ar. Cada aproximação dela trazia junto todo o peso do passado e também tudo de bom que quase teve. Ver as lágrimas dela o desmontava por dentro. Nicholas apertava as mãos em punho, lutando contra o impulso de tocá-la. O instinto dele quase foi tomar sua mão e impedi-la de se machucar mais. Mas ficou ali, imóvel, engolindo seco. Vê-la desmoronar era tortura, porque mesmo sabendo que houveram erros, parte dele ainda queria proteger. Sempre quis.
Não sabia onde terminava a raiva e começava a vontade absurda de puxá-la contra o peito. Agora ela estava ali, tão perto, os olhos marejados, a boca trêmula, e toda a dor do passado e do presente se fundiam em uma só linha tênue entre gritar com ela ou beijá-la. Porque ela era a Eliza dele. Sempre foi. Mesmo depois de todos aqueles anos. Sem pensar, ele segurou os braços dela, firme, mas com cuidado. — Eliza… — O nome dela saiu como um sussurro e uma confissão ao mesmo tempo. — Você está me perguntando se eu te odeio? Depois de tudo? Depois do que a gente sobreviveu junto? — Ele se aproximou um pouco mais, a testa quase colando na dela. — Eu nunca te odiei. Eu fiz uma promessa. Lembra? Que eu ia te proteger de tudo e essa promessa ainda vale. Mesmo que tudo tenha mudado, mesmo que você tenha sumido, mesmo que… — Ele engoliu as palavras. Nicholas a segurava e sentia os dedos dela sob os seus. A pele quente, o pulso acelerado, a fragilidade vibrando no toque. Tudo o que ele tentou enterrar por tanto tempo, ali, diante dele, pulsando com força. A mulher que ele amou como nunca tinha amado ninguém. A mulher que dizia que também o amou e que o procurou. Aquela frase ecoava como uma martelada em sua cabeça. Ela me procurou. O peito dele afundou com isso. E se…? E se ele tivesse tentado mais? Mandado uma carta, batido na porta? Será que ela teria vindo? Teriam se encontrado no meio do caminho? Mas a memoria mais amarga e realista surgiu na cabeça. A floresta ainda estaria ali. Os corpos, as vozes, a culpa. Os olhos dos amigos mortos, o gosto de sangue, o terror tatuado na memória.
Ele a olhou de novo. A armadura dela finalmente tinha caído. Por um momento, ela não era a advogada segura nem a mulher poderosa, era só a menina que dividia o mesmo medo que ele à noite no escuro da floresta. E ele sentiu tudo dentro de si estremecer. Ele não sabia o que fazer com aquilo. Com ela. Com eles. Porque a vida tinha seguido. — Eu ouvi tudo o que você disse. — A voz dele saiu baixa, mas firme, como se estivesse falando mais com os próprios pensamentos do que com ela. — E você não faz ideia do que isso mexe comigo. Eu nunca parei de me importar com você, Eliza. Nunca. Por mais que tentasse e você sabe disso. — Engoliu em seco. O coração batendo forte. As palavras quase queimando na garganta. Ele a olhava como se estivesse vendo um sonho antigo que voltou a tomar forma e doía, porque era real. — Eu te perdoei há muito tempo, Albuquerque. — A voz saiu baixa, rouca, firme. Como uma confissão que pesava nos ombros há anos. — Muito antes de entender que não era só covardia. Antes de ter certeza de qualquer coisa. — Os olhos dele passearam pelo rosto dela, cheios de ternura e tristeza. — Eu te perdoei porque… eu te conheço. — Soltou uma risada fraca, incrédula, enquanto sacudia a cabeça, como se nem ele acreditasse no quanto aquilo ainda era verdade. — Você sabia que eu conhecia. Sabia dos seus pais e como você é ainda hoje. Sempre enxerguei você até quando você tentava desaparecer. Mesmo quando você mentia pra si mesma, eu via a verdade. Por isso eu nunca te odiei. — A analista deu um passo mais perto, até não haver espaço entre os dois. Os rostos quase colados. A respiração compartilhada.
Eu só… precisava dizer. — A voz falhou por um segundo, mas ele manteve o olhar preso no dela, sem fugir. — Eu precisei colocar tudo pra fora na sua cara. Precisava que você visse o estrago, que soubesse que não foi fácil pra mim também. Que te amar me custou muito. — Era a verdade e porque, no fundo, parte dele ainda pertencia a ela. Talvez por isso vários relacionamentos seus haviam sido um fracasso, ou até só fosse ele querendo acreditar num conto de fadas quando o que viveram na verdade havia sido um terror. As mãos dele ainda a seguravam. Estavam tão próximos. Poderia beijá-la. Deus, ele queria. O corpo gritava por isso. Por ela. Como se o universo tivesse se alinhado errado todos esses anos e agora estivesse tentando corrigir, mas eles ainda estavam vivendo um terror novamente e a vida tinha seguido em frente. Tinha reconstruído seus hábitos, se reerguido do vício, encontrado uma rotina, estava vivendo sua vida. Tinha seus encontros casuais, e até mesmo um Hanover, cada vez mais frequente porque ele estava pela cidade. Não era amor, pelo menos não o mesmo tipo, mas era conforto. Ele não sabia onde aquilo ia dar e, droga, elas eram amigas, viu ela e Cemile juntas no festival, mas com Eliza, era como uma explosão silenciosa que ele nunca soube controlar. Eliza sabia de tudo e aceitava cada parte ruim de si. Mesmo assim, o amou. Mesmo assim, estava ali agora, dizendo que não ia embora. Será que ainda cabia espaço pra ele na vida dela? Ou pior: será que ele conseguiria deixá-la partir outra vez?
O silêncio ficou por um instante, mas Nicholas não aguentou. A vontade de tocá-la venceu. Ele ergueu a mão e pousou na lateral do rosto dela, o polegar acariciando de leve a pele úmida da lágrima recente. — Não é ódio o que eu sinto, sua idiota. — A voz saiu baixa, arrastada, como se ele estivesse aprendendo a falar de novo. — Você acha que eu estou aqui porque quero te punir? Eu estou aqui porque… porque você ainda é tudo. — Ele riu, dessa vez sem amargura. Nicholas respirou fundo, e falou com firmeza, encarando-a como se não fosse fugir mais das verdades. — Não somos mais quem éramos antes, mas você sabe que jamais te deixaria pra trás, e você ficou completamente fora de si achando que vou deixar a floresta te matar. — As mãos seguraram o rosto dela agora, com mais firmeza. — E por mais que a vida tenha mudado e as coisas estejam bem mais complicadas… — Ele parou, fechando os olhos por um segundo como quem tentava recuperar o controle, antes de abrir de novo e encará-la. — Você ainda é o tipo de pessoa que eu olharia e me preocuparia mesmo no meio de uma multidão, então dessa vez vê se atende a droga do telefone, Albuquerque. Sabe que não deixaria você sozinha nesse mundo. Ride or die, right?