Abriu-se tanto espaço
Enquanto eu caminhava pelo parque lembrei de GuimarĂŁes e da travessia, na voz de Riobaldo: "Ah, tem uma repetição, que sempre outras vezes em minha vida acontece. Eu atravesso as coisas â e no meio da travessia nĂŁo vejo! â sĂł estava era entretido na ideia dos lugares de saĂda e de chegada.". Parei e pensei porque lembrei - os espaços por onde essa travessia acontece mudam conforme o momento do trajeto. JĂĄ passei por vales descampados, por onde sĂł vez ou outra me deparei com curvas no caminho. No vale o perigo Ă© duplo: o descampado Ă© nada, e o vasto espaço aberto Ă© livre. Curioso, nĂ©? Muito livre. Mas tambĂ©m houve aquele caminho tortuoso. Na verdade, alguns. Tem a dificuldade imposta por algo maior do que qualquer um de nĂłs, a natureza, munida de todos os seus elementos e impassĂvel. Outro tormento Ă© aquele causado pelo homem, de origens tĂŁo distintas mas que eu resumiria numa sĂł: medo. Desses medos que todos nĂłs temos, sabe? medo de perder a mĂŁe, medo de ser privado de sua liberdade, medo de nĂŁo fazer falta. Durante a travessia houve companhia, Ă© claro, nĂŁo Ă© possĂvel viver essa vida sĂł. O difĂcil nessas horas Ă© tentar agradar todo mundo: um pouco do meu espaço no seu espaço, um pouco da minha vida na sua, um pouco de um no outro. No caminho aprendi a doar um pouco, a acolher o que podia, a tentar ser companhia e ainda ser sozinha. Mas, olha, que travessia! Certa vez fiz um caminho que prometia cura. Era um caminho pra se fazer sĂł, com visitantes ocasionais. As memĂłrias sĂŁo muitas, mas a que lembro claramente Ă© a de me perder. Foram tantos momentos que, como num grande corredor cheio de portas, Ă s vezes parecia que eu entrava em uma sĂł para sair por outra e voltar para o exato mesmo lugar. Ă angĂșstia! Ou, que angĂșstia? De porta em porta, por dias que nĂŁo consegui contar, fui entrando em lugares, passando por coisas, vendo pessoas e Ă s vezes parecia sĂł uma repetição. AtĂ© que nĂŁo repetia mais. As coisas viravam outras coisas e as pessoas iam, vinham, existiam sem nenhum padrĂŁo perceptĂvel. A repetição cessava e eu me acalmava. Ufa. Foi andando no parque que eu vi um vasto espaço se abrindo. Mais uma vez a vida dava dessas de oferecer oportunidade, potencialmente maravilhar, nutrir a liberdade que hĂĄ em mim. Se nĂŁo fossem todos os outros lugares, todas as breves e longas histĂłrias, todos os medos, eu jĂĄ estaria lĂĄ dentro. E de que adianta? no meio da travessia nĂŁo vejo.
Priscila









