SĂŁo Paulo, 21 de abril de 2020
Te escrevo com receio de que o retorno para as nossas vidas originĂĄrias seja iminente.
Sei que jamais seremos o eu de quando nos conhecemos. Quero dizer, vocĂȘ o vocĂȘ de antes e eu o eu de antes. Daquele tempo, quando nĂŁo sabia o que significava esse amor.
Tateei alguns corpos antes do seu. Alguns apĂłs conhecer o seu. Alguns enquanto conhecia o seu. Sei que a experiĂȘncia nos levou Ă novas descobertas... Nasceram, tambĂ©m, novos medos. Parecia frĂĄgil te nomear meu. No entanto, hoje sĂŁo as palavras âmeu amorâ que vem a mente todas as manhĂŁs.
Amar Ă© explorar o desconhecido todos os dias. Existe uma familiaridade em nĂłs, mas que se desfaz toda vez que nos reencontramos. VocĂȘ esse outro, e eu um novo ser. A existĂȘncia do nĂłs parece questionĂĄvel. Toda vez que nos reencontramos, todas as manhĂŁs, as minhas manhĂŁs que sĂŁo suas noites e minhas noites que sĂŁo suas manhĂŁs, num renovar de votos do querer. De manhĂŁ, do amanhĂŁ, ainda te quero. Na noite, da sua manhĂŁ, vocĂȘ ainda me quer.
Sinto certo alĂvio por saber que nĂŁo te conheço como um todo, e que nunca conhecerei. Que te descubro e vocĂȘ me redescobre todos os dias. Renovamos votos de querer.
Hoje reli minhas cartas para vocĂȘ. Todas secretas. Cheias de confissĂ”es nĂŁo relatadas. Em uma outra descoberta, talvez eu te conte como me senti. Na primeira manhĂŁ. Nos primeiros toques. Quando trocamos os primeiros olhares. Quando vocĂȘ esteve dentro de mim nas primeiras vezes. Todos os segredos.