O rio corria, lento, seu fluxo tão calmo e silencioso, encobrindo tudo dentro de si. Havia ali areia, pedras, peixes, algas e uma casa. Sim, uma casa. Na casa, todos os móveis estavam inundados: a mesa, a cama, o banquinho. E na sala de jantar, um homem tomava um copo de chá. Em seus olhos havia aquele vazio, o tipo de vazio tão cheio que causa angústia só de olhar. Seus movimentos eram lentos e causavam ondas. O homem era o único habitante do rio: era difícil definir se o rio era dele ou se ele era do rio. Era difícil definir o que era ele e o que era rio, o que segurava a xícara de chá, o que destruía a mobília aos poucos, o que estragava a pele e deixava as unhas pretas.
Ele não amava o rio. Não o odiava. Sentia apenas aquele profundo tédio e profunda melancolia.
Certo dia resolveu sair de casa. Estava animado. Nadou até a margem, descobriu o mundo, andou pela selva e pelas vilas, sentiu as dores, sentiu-se extremo, sentiu os olhos deixaram de ser vazios e virarem um movimento de tudo que há. Apaixonou-se, viveu, gozou, machucou-se, viajou, viu tantas, tantas coisas. Andou por estradas de terra, andou por cidades lotadas. Viu que o mundo era vasto e cheio de oportunidades. Viu que o mundo podia ser mau e bom; que as coisas eram menos retas, menos diluídas, menos simplistas e naturais. E voltou ao rio.
Sentia falta do chá.