Um Passageiro do Tempo
Sabe quando a vida não está boa? Quando tudo parece errado, ninguém te entende e a vontade é simplesmente desaparecer do mapa?
Vivi um período da minha vida assim. Mas, em determinado momento, aquela sensação começou a se tornar cada vez mais intensa. O lugar que deveria ser meu porto seguro, meu lar, tornou-se intragável. Então comecei a sair para caminhar, tentando distrair a cabeça.
Acredito que, para quem me olhava de fora, eu parecia apenas um pedaço de carvão ambulante. Mas eu seguia. Caminhava pelo bairro, às vezes estendia até o bairro vizinho e depois voltava.
Até que, um dia, percebi que um senhor me acompanhava. Eu virava uma rua, e ele também virava. Entrava em outra, e ele continuava ali. Em certo momento trocamos algumas palavras e nos despedimos.
No dia seguinte, ainda carregando aquela tensão dentro de mim, encontrei novamente o senhor. Terminamos a caminhada no mesmo lugar e no mesmo horário. O curioso era que eu nunca o encontrava no mesmo ponto do caminho.
Não me lembro exatamente como começou, mas acredito que, aos poucos, fui desabafando algumas coisas com ele. E assim foram passando os dias: a mesma caminhada, as mesmas conversas silenciosas e aquela presença tranquila ao meu lado.
Certa vez, o senhor me chamou:
— Venha aqui. Vou lhe mostrar uma coisa.
Sentamos em um banco próximo à construção de um belo edifício. O banco era feito de pequenas pedras encaixadas umas nas outras.
Ele apontou para o banco e perguntou:
— Está vendo essas pedras?
Observei atentamente e respondi:
— Sim.
Então ele disse:
— Cada pedrinha dessas foi colocada por alguém que participou da construção deste edifício. A faxineira, o pedreiro, o eletricista… cada um contribuiu de alguma forma. Todos deixaram um pouco de si aqui.
Naquele dia, senti algo dentro de mim começar a se desfazer. Como se meus problemas começassem, lentamente, a perder a força.
Nos despedimos e fui embora.
No dia seguinte, no mesmo horário, o senhor não apareceu. Nem no outro dia. Senti sua falta.
Voltei ao banco e permaneci ali por um tempo, esperando encontrá-lo novamente, mas nada.
Em outra tarde, sentei mais uma vez naquele banco e comecei a observar as pedras e os pequenos matinhos que cresciam entre elas. Um, em especial, chamou minha atenção. Era pequeno, mas vigoroso, com uma florzinha delicada.
Fiquei pensando em quanto aquela plantinha deve ter sofrido para criar raízes no concreto, sem terra fértil, sem substrato. E, ainda assim, conseguiu encontrar forças para crescer saudável e bonita.
Naquele instante pensei na minha própria vida. Senti vergonha de estar tão abatido, enquanto aquela pequena planta, mesmo enfrentando tantas dificuldades, permanecia firme e viva.
Fiquei ali por um tempo e depois fui embora.
No outro dia, voltei novamente ao mesmo lugar. E, para minha surpresa, o senhor apareceu.
Ele sorriu e perguntou:
— Conversou com o matinho?
Fiquei sem entender como ele sabia. Mas respondi que sim.
Então ele me disse algo que nunca mais esqueci:
— O diamante, antes de revelar seu brilho fascinante, precisa enfrentar cortes, pressão e um minucioso processo de lapidação. Cada impacto sofrido não o destrói, o transforma em algo raro, forte e admirável.
Assim também é o ser humano. As dores, perdas, desafios e cicatrizes da vida não existem apenas para ferir, mas para moldar a alma. Cada dificuldade enfrentada é como o entalhe feito na pedra preciosa: doloroso, porém necessário para revelar a beleza escondida no interior.
Depois acrescentou:
— Não vou continuar com as caminhadas. Mas, quem sabe, um dia nos encontraremos novamente.
Nos despedimos.
Enquanto eu ainda tentava compreender tudo aquilo, olhei na direção em que o senhor seguia… e, de repente, ele desapareceu diante dos meus olhos. Estava a poucos metros de distância. Simplesmente desapareceu.
Nunca mais o vi.
Guardo essas memórias com carinho no coração. E acredito que, quando eu mais precisava, um anjo do Senhor foi enviado para me ajudar a soltar o peso que carregava há tanto tempo... Para tornar minha alma mais leve. Para me ensinar que até nas rachaduras do concreto ainda pode nascer vida.
E, desde então, nunca mais esqueci disso.









