A cold, colourless room full of petrified human figures. Standing still, passionately suffering.
Well, that is a way you could explain a department of greek and roman sculptures in the Louvre Museum, France. And it will not be a matter of ignorance or lack of art education; alienation and aggressiveness would be the key words on this analysis. I will choose to be (and stay, even if warned afterwards) blind. Critically frozen and misled, I will not see the full picture, just the small chip of marble that looks weird.
When Polanski decides to put Picquart as our guide on this filmed view on the Dreyfus Affair, he puts us through a man’s changing point of view, first as an anti-semitic ordinary man to one whose life would be severely thorn by defending a Jew’s honour. That we follow Picquart ascension of consciousness as he realizes the military has put on him black-and-white lenses of the Good and Evil, is a director’s way of saying he wants to go beyond the historical affair. Maybe he’s trying to say, “beware, there are more of these old men out there - right here, right now”.
With an intention of telling a sober story of a past not to be turned into future again, “J’Accuse” goes straight into the point: a Jewish military man is accused of treason and loses his freedom for it. When Alfred Dreyfus says “you’re accusing an innocent man” we can hear a crowd roaring “liar, traitor!”, that and the sneer of his higher officers. The ritual of undressing a once respectable man is quick and geometrical, brief enough for the audience to understand something may not be fair. But the visual throughout the movie tells it all; the square is grey and mortified by rain and ice. Officers stand repeated and mimetical. The fine work of colour correction makes uniforms stand, shining in gold, red and black. The opening scene (or, to be honest, most part of the film) could be read in a Foucault-like mind: institutional-tempered bodies ready to discipline and punish.
When it becomes clear that colonel Picquart will fight for justice, his uniform suits becomes more frequently worn with a greyish light-blue shade. He is not fully under the Military’s scope of protection anymore, but he never ceases to abide by it. As well as Dreyfus; both respect orders and hierarchy and believe it can (and will) save them from harm. Turns out it is almost impossible because, as colonel Henry conveniently says, “the mind of an officer holds secrets that even his own kepi must not know about”. The result is that prejudices are justified to contour mistakes; docile bodies choose to keep their sick attitude in order to maintain a status quo. Set in 1894, Dreyfus’ trial should have been an eye-opener on how institutions fail constantly - and how anti-semitism was already triomphant in this grey world.
Blood-red uniforms and hypocrysis mingle in a sad, cold and worrisome end of a century. "Laisser tomber", even if generations ahead still collect the ruins of such tarnished moral.
I'm uncertain If I enjoyed the formal aspects of this movie. While the narrative choices, frames, art production and color were magnificent, I felt a certain disconnection between the movie's pace and the way audiences may perceive it. Music doesn't guide us, except for punctual transition scenes: so It is only there to wrap up a feeling (anxiety, sadness) and move on with the storyline. Though that's an aspect of commercial/ hollywoodian movies, here it is not enough to dictate a profound emotion audiences should feel. It got me thinking maybe Polanski didn't want music at all but was convinced by producers to at least put some. "J'Accuse" runs for two hours and fifteen minutes, written and spoken in French (we know that is an issue for audiences used to Hollywood-language), with no amount of visual acrobatics for a lazy audience to enjoy. It is a sober movie despite the terrible "cloudy" transition fades (those made me laugh) and Jean Dujardin's charming prince expressions. Don't get me wrong, he acted fiercely, but I can't help but smiling when he raises an eyebrow. On the sordid insertion of a feminino character, that depends on rapid and expressionless cuts to gain some more screen running time, I will say no more. Each one of us will know how to read the director's choices over the feminine body. With all that said, I hope I bite my tongue and "J'Accuse" reaches great and diverse audience; the racism, anti-semitism and blind obedience themes are always, unfortunately, heated.
Uma sala fria e desbotada, cheia de figuras humanas petrificadas. Imóveis, sofrendo violentamente.
Bem, essa é uma maneira de se explicar o departamento de esculturas greco-romanas no Museu do Louvre, na França. E não seria uma questão de ignorância, de falta de educação em Artes; alienação e agressividade seriam as palavras-chave nesta análise. Eu escolho ser (e ficar para sempre, mesmo que posteriormente avisada) cega. Criticamente congelada e enganada, eu não vou ver o todo, só a lasquinha de mármore que me parece estranha.
Quando Polanski decide colocar Picquart como nosso guia neste olhar filmado sobre o Caso Dreyfus, ele nos coloca na mudança de ponto-de-vista de um homem, antes como um anti-semita qualquer e então como um homem cuja vida seria profundamente magoada ao defender a honra de um judeu. Que nós sigamos a ascensão de consciência de Picquart quando ele entende que a vida militar lhe botou um óculos preto-e-branco do Bem e do Mal, é a maneira do diretor dizer que quer o filme além das questões históricas. Talvez tentando dizer: “atenção, existem muitos desses velhos homens por aí - aqui e agora”.
Com a intenção de contar uma história sóbria de um passado que não se deve tornar futuro novamente, "O Oficial e o Espião" vai direto ao ponto: um capitão judeu é acusado de traição e perde sua liberdade por isso. Quando Alfred Dreyfus diz "vocês estão acusando um homem inocente", ouvimos o rugido da multidão gritando "mentiroso, traidor!", isso e o sorriso discretamente sarcástico de seus superiores. O ritual de despir um homem até então honrado é rápido e geométrico, breve o suficiente para o público entender que algo ali talvez não seja justo. Mas o visual de todo o filme aponta isso; a praça é cinza, mortificada por gelo e chuva. Soldados em posição são repetidos e miméticos. O ótimo trabalho da correção de cor faz os uniformes brilharem seus detalhes de ouro, vermelho e preto. A cena de abertura (ou, sinceramente, a maior parte do filme) poderia ser lida de modo foucaultiano: corpos institucionais prontos para vigiar e punir.
Quando se torna claro que o coronel Picquart procurará justiça, seu uniforme se torna mais frequentemente usado em tons de azul-claro acinzentado. Ele não está mais completamente protegido sob a guarda do Exército, mas nunca cessa de obedecê-la e seguir suas regras. Assim como Dreyfus; ambos respeitam ordens e hierarquias e crêem que essas podem (e vão) salvá-los. Acontece que isso é praticamente impossível porque, como coronel Henry diz convenientemente, "a mente de um soldado tem segredos que nem mesmo seu quepe poderá conhecer". O resultado é que preconceitos são justificados para se contornar erros; corpos dóceis escolhem manter seus fazeres doentios a fim de que se mantenha o status quo. Em 1894, o julgamento de Dreyfus deveria ter sido um sinal de alerta para a constante falha das instituições - e de como o anti-semitismo já era triunfante naquele mundo cinzento.
Uniformes cor-de-sangue e hipocrisias se misturam em um frio, triste e aterrador fim de século. "Laisser tomber", mesmo que gerações posteriores ainda recolham as ruínas de uma moral tão destruída.
Não tenho certeza se gostei dos aspectos formais deste filme. Enquanto as escolhas narrativas, direção de arte e cor são magníficas, senti certa disconexão entre o ritmo do filme e a maneira com que o público talvez o perceba. A música não nos guia, exceto por pontuais transições de cena: então ela está lá só pra finalizar um sentimento (ansiedade, tristeza) e seguir com a linha do tempo do história. Mesmo que isso seja um aspecto de filmes comerciais/hollywoodianos, aqui ele não é suficiente para ditar uma profunda emoção que o público deveria sentir. Fiquei pensando que talvez Polanski nem quisesse música mas foi convencido pelos produtores a ter pelo menos um pouco.
"O Oficial e o Espião" tem duas horas e quinze minutos de duração, escrito e falado em francês (sabemos que isso é um problema para públicos acostumados com o idioma Hollywood), sem acrobacias o suficiente para o gosto de um público preguiçoso. É um filme sóbrio apesar de suas terríveis transições de fade "em nuvem" (eu ri) e o rostinho de príncipe encantado de Jean Dujardin. Não me leve a mal, a atuação dele é forte, mas não consigo deixar de sorrir quando ele levanta uma sobrancelha só. Sobre a inserção desprezível de uma personagem feminina, que precisa do auxílio dos cortes campo-contracampo para ter mais tempo de tela, nada mais direi. Cada uma de nós saberá como ler as escolhas do diretor sobre o corpo feminino. Dito tudo isto, espero que eu morda minha língua e que "O Oficial e o Espião" chegue num grande e diverso público; o racismo, anti-semitismo e a obediência cega são temas sempre quentes, infelizmente.
The Officer and the Spy (J’Accuse)
Dir.: Roman Polanski
France, 2020