De volta ao lar
Aqui estou, quebrando as paredes com o intuito de buscar — no meio de toda bagunça e tralha acumulada de um cotidiano movido pelo mal-estar — a substância mais pura e sublime para que eu possa me cobrir e fugir das amarras falaciosas que me prendem à materialidade.
Neste momento eu me visto com essa substância e me sinto mais leve, flutuando no infinito do espaço, movido pelo impulso da caneta com a qual escrevo essas palavras. Aqui, finalmente, me sinto livre, estou flutuando agora e neste momento, vejo lá embaixo apenas um ponto. Um frágil ponto que abriga por correntes disfarçadas de convenções, me prendem à matéria... Correntes que separam. Eu não pertenço mais a isso, eu desatei as amarras. Me olhei naquele fragmento de água límpida e vi quem eu sou. Meus olhos não se atém mais ao corpo. Foi naquele reflexo em que eu me vi e me libertei.
Aqui de cima eu posso criar o meu mundo perfeito. Os limites são infinitos dentro das palavras. De onde estou meu poder é absoluto, e com a caneta crio realidades como uma vara de condão de um conto de fadas. Os limites são apenas as palavras.
Girafa com cabeça de elefante, uma formiga gigante, baleias voadoras, pássaros com nadadeiras. Aqui a imaginação se expressa com palavras, e está tudo bem em ser assim, pois aqui é meu mundo perfeito. Como uma criança, não preciso que as coisas sejam lógicas. Aqui eu posso parar de crescer e ser pra sempre uma criança tomada pela alegria de ser criança. Trago em meu peito toda a pureza conservada de um menino que só quer brincar.
Daqui de cima me dei conta de que aquele ponto que vai diminuindo cada vez mais não é a minha casa. Embarquei neste foguete e meu trajeto se forma em cada letra que escrevo. Vou mais longe a cada símbolo desenhado, cada vez mais abstraio de toda imposição absurda e definitiva e crio o meu universo onde as coisas apenas existem e possuem origem em si mesmas.
— Para onde estou indo?
— Para casa!
Estou voltando ao meu lar, lá onde sou apenas luz dotada de consciência e desprovida do corpo. Vejo que assim como eu, há outros semelhantes que fazem parte de uma substância maior. Deus.













