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Tudo que é Soturno Produz Asilo
Essa unidade integra o pedantismo Respira os olhos estirados, tão viril Quanto fatal nesse corpo dual Que se emperra o sensual e o vazio
Furtado pelo tempo Acesso facilitado Língua de algodão Absorvendo o ser súbito
Readmitir a ingenuidade Enquanto tarefa árdua Tramando a si algo que versará Com objetos findos de desejo
Nas suas mãos um mote explícito Conduzindo uma melodia Transmuta o perene em algo gráfico A imagem e semelhança do óbito
O verbo caricato lida com o extra-altruísmo Ao considerar o poder de síntese Para esse protagonismo disfarçado Ao engano ser o deus do qual serramos moedas
Em seu nome, convalescemos exibições Assumindo teus inimigos em trópicos Acima: O ridículo dançando esculturas de zinco Abaixo: A nódoa vertiginosa é algo de força fugaz
Incessantemente maximalismo A realidade esteriliza a ficção Nunca mais o mesmo espanto Para quem constrói o horror acompanhado
O revelado dissipa-se nas cordas Fantásticas de náilon trêmulas Ao toque desse réquiem que Parece nos confortar do fim...
"A Fonte está sempre aqui"
um ensaio.
O livro Ás de Tridente - Opúsculo de Chaves para Adentrar a Noite Mariposa, escrito por Amanda Maia, foi lançado em pleno Solstício de Inverno de 2020, no olho do furacão da pandemia, em Ilhéus, no Sul da Bahia.
Aquele era um momento de tantas incertezas, o cenário ainda iria piorar muito mais. Sem dúvidas, aquela foi uma hora no mínimo oportuna para cultivar a Fé. E ler um livro.
Talvez seja difícil para nós, cujo tempo de existência na Terra é tão curto, compreender o tempo de uma árvore como a Sumaúma, o tempo de uma pedra esculpida pelo mar, o tempo de tudo que parece não ter fim, mas tem, a questão é só que a gente vai morrer antes. A globalização produziu essa ilusão de que nós podemos condensar o tempo. A divindade ri.
Esse tempo que não cabe na minha mão é também o tempo de uma episteme em expansão, como é o caso da Bruxaria Mariposa, que cresce nas frestas há menos de uma década, mas possui raízes de gerações. Alguns cruzos já são mapeáveis, outros talvez ainda se revelem ao longo dos próximos anos. O que saberemos da Bruxaria Mariposa em 2056? O que sabemos agora, 5 anos após a primeira leitura do Ás de Tridente?
No livro Amanda reúne fios fundamentais que sustentam a cosmovisão de um caminho aberto pelos aprendizados da sua própria existência no mundo, de filha a sacerdotisa e mestra. Talvez o primeiro brilho seja este: a autora é alguém que ousa inventar a vida conjurando o que deseja em tempos de manipulação absoluta: o dinheiro reina montado na herança cristã patriarcal, disseminando seu veneno em cálices midiáticos que bebemos sem pensar. Nem imaginamos recusar. E quando o enjoo vem, o mesmo sistema te oferece o remédio pra você parar de vomitar e voltar a servir. A pandemia parecia um grande vômito mundial, muitos tomaram o remédio pra essa loucura parar, quantos investigaram a causa da doença?
No ano passado revisitamos os primeiros postulados do Ás de Tridente durante o ciclo anual de Estudo Dirigido da Bruxaria Mariposa. Em roda, partilhamos e trocamos impressões, reflexões, perguntas, inquietações, contando com a raridade de ter a autora da obra presente na conversa.
Busquei costurar um breve ensaio a partir dos encontros deste ciclo. Com certeza haverão muitos fios soltos aqui - o que é, sinceramente, um respiro em tempos de textos consolidados por inteligência artificial.
Ao retornar às chaves que Amanda ofereceu, precisei reafirmar meu entendimento sobre palavras que ouvi desde o início - era preciso reconhecer que as palavras, se não são realmente praticadas na articulação e expressão, acabam perdendo sentido e virando somente palavras ao vento. Manter a vigilância é combater automatizações e esse é um aprendizado diário: no caminho da busca nada é automático.
Palavras são armas poderosas se prenhes de significado. Sem compreender o que realmente carregam, nenhuma tomada de decisão é livre. - Amanda Maia, Ás de Tridente, pg. 29
Busca do quê? Cada um na roda tem as suas próprias respostas - e todas elas acabam convergindo para a busca da saúde, ao meu ver. Ler o Ás de Tridente é assumir a doença do mundo e não dizer mais “é assim mesmo”. Não é, não precisa ser. A questão é que curar é verbo, demanda ação e aqui entra a Necessidade. A observação de que o mundo vai mal não é suficiente para mover alguém. “Você só procura por aquilo que você precisa”, Amanda comentou. Sabemos do que precisamos? Qual é a necessidade que faz a gente se mover? É tudo sobre movimento, não poderia ser diferente se a nossa própria casa está em constante movimento, girando, orbitando o Sol.
O horizonte também conta. Em um dos encontros de estudo perguntei sobre a Fonte, se esse seria um lugar para onde deveríamos retornar - é possível? - e o que exatamente nos distancia disso que é tão somente e simplesmente a Vida em toda a sua profusão. “A Fonte está sempre aqui”, Amanda respondeu.
Acho que é preciso se aproximar da nossa parte planta para que haja alguma compreensão sobre isso. Uma planta nasce, cresce e antes de morrer vive tantas transformações a cada estação do ano, sofre cortes, perdas, dá flores, frutos. Embaixo da terra - ou dentro d’água - sua raiz também expande silenciosamente, busca alimento, busca saúde. A Sumaúma pode subir até 50 metros de altura sustentada em suas raízes. Será que pra gente é mais difícil de entender porque nosso cordão umbilical é cortado logo de cara? O que faz a gente se perder da nossa própria raiz?
Todo Alimento nos é entregue sintetizado, mastigado e em pequenas porções. Bloquearam os nossos sentidos. Nos convenceram de que não conseguimos ‘prestar atenção’, que ‘somos dispersas’, que somos pequenas, que somos fracas, que somos pouco, que não podemos escolher. Estamos nos destruindo e levando junto toda a Natureza da qual fazemos parte. Não é uma hipótese. Sabemos disso na nossa própria carne. - Amanda Maia, Ás de Tridente, pg. 47
No início dos trabalhos da Bruxaria Mariposa, a primeira chave entregue por Amanda foi “Despertem suas Avós”. É também uma questão de sangue, portanto - o que pode ser mais nosso do que a nossa herança genética? A Fonte sempre estará aqui se eu souber o caminho que meu sangue fez até o instante em que respiro agora. E assim as nossas experiências de vida são a continuidade desse fio. Com isso em mente, quais escolhas eu faço?
Viver plenamente demanda muita energia, é preciso aceitar o trabalho, é preciso querer, buscar, saber onde está e partir daí. Parece algo óbvio e impossível ao mesmo tempo. É físico num nível que nenhuma máquina alcança, nenhum dinheiro compra. Acredito que compreender isso é entender qual é a verdadeira guerra que está sendo travada no mundo há séculos e qual é o nosso lugar nessa guerra.
Os silêncios de agosto
Conheci ele numa terça-feira arranhada pelo calor.
O ventilador do jornal fazia mais barulho do que vento, e eu tinha acabado de descobri que pauta de estagiária é café, morte e trânsito. Ele, não. Ele escrevia sangue.
Coluna de criminalidade. Crime e poesia urbana. Toda tarde, ele digitava como se matasse alguém a cada ponto final. Chamava-se Arthur, nome de rei em cidade sem trono. Tinha acabado de se formar, mas já andava como quem sabia demais do mundo. Alto. Ombros largos demais pro lugar apertado onde trabalhávamos. Óculos meio tortos, sorriso de canto e cigarro.
Era nos fundos do jornal que ele respirava de verdade. Ali, entre lixo reciclável e o som abafado dos teclados, ele acendia seu cigarro como se fosse um ritual secreto. E eu… bem, eu comecei a ir atrás dele. Com meu próprio cigarro barato e a cara lavada de alguém que finge não estar afundando.
Nos sentávamos lado a lado na calçada, quase encostando as pernas, mas nunca encostando de fato. O toque nunca veio e talvez por isso ainda me arda. Ele falava pouco. Olhava muito. Às vezes soltava alguma frase sobre como certos assassinatos cheiravam a vingança antiga. E eu queria desesperadamente que ele olhasse pra mim como olhava pras cenas de crime.
A gente fumava em silêncio. Um silêncio que me cortava em fitas. Ele sorria, às vezes. Aquele sorriso com cigarro nos lábios, e era como se eu tivesse um orgasmo cerebral. Tudo pulsava por dentro. Como se meu corpo não me pertencesse mais. Como se eu tivesse virado parte da fumaça que saía da boca dele.
Nunca nos tocamos. Nunca nos dissemos nada. Mas eu ainda lembro da primeira vez que ele se virou pra mim e disse:
— Você escreve com raiva bonita.
Guardei aquilo como se fosse bilhete de suicídio.
O estágio acabou. Ele ficou. A cidade seguiu sangrando. Nunca mais o vi — mas toda vez que passo por algum beco onde o asfalto racha, juro que sinto o cheiro do cigarro dele. E sinto de novo aquela ausência elétrica. Aquela sensação de ser nada diante de um homem que nunca me quis, mas que me fez sentir, por um instante, que eu podia explodir o mundo se quisesse.
Ele nunca me tocou. Mas me marcou mais do que qualquer mão.
Porque às vezes é isso.
O quase.
O que não aconteceu.
É o que acende a gente por dentro até virar incêndio.

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Às vezes percebo que existo, e não consigo nao querer que:
Não me ame menos, nem me esqueça por tempo demais.
Eu quero ver que existo sozinho, sentir que minha gravidade não sufoca a vida
Compreender que todos existem
Que não sou o universo
Quero ser reduzido a nada
Que o nada e a nudez me vistam de tudo
E compreender companhias são escolhas
Sentir o meu valor, como uma árvore que se mantém alta e solitária
Casa de toda a vida, e sozinha em natureza
Col. Mutatis-mutandis, #30 | Duarte Drumond Braga
O autor de COISA DE NADA (Fevereiro, 2025), Duarte Drumond Braga, arrisca num artigo do HOJE MACAU uma leitura queer da biografia de Luís de Camões. Para ler aqui:
O ponto a que quero chegar é o seguinte: não seria tanto apresentar um Camões gay, mas antes mostrar como a sua vida e obra abrem para outra
Já no livro publicado pela não (edições) em 2025 constava um poema com esse recorte, de título "Luis & António", cujo início aqui partilhamos. https://livrosnaoedicoes.tumblr.com/post/777201563949252608/colecção-mutatis-mutandis-30-coisa-de /// pedidos via [email protected] /// livrarias habituais: https://naoedicoes.tumblr.com/livrarias
ENSAIO SOBRE A SAUDADE
Eu já fui esquecido por muitos, mas lembro de todos que conheci. E talvez essa seja a maldição que carrego: não guardar rancor. E talvez não seja justo pensar que eu deveria ser especial só porque me sinto merecedor. Que alguém deveria sentir minha ausência nos lugares, perceber que seu amigo não está ali. E talvez cada um que me esqueceu tenha tido seus motivos, suas incertezas em relação à minha pessoa. Mas nunca me disseram, e isso me atormenta. Vejo as conexões genuínas que os outros tem. E sinto inveja de não poder me vangloriar de ter uma amizade tão verdadeira. E quando eu pensava ter achado o pico, o cúmulo do que alguém podia significar pra mim, a saudade veio. E com ela a amargura de dias melhores. E os dias de hoje não são ruins, o contrário. Mas a nostalgia é enganosa, embriaga o coração de tristeza. E agora preciso encontrar o caminho que a saudade não vai estar. Para que ela não chegue a envenenar a minha alegria. E talvez, eu encontre alguém que faça a saudade sumir, e ser simplesmente substituída por uma lembrança leve que não causa mais dor. E olharei para trás uma última vez pra nunca mais olhar de novo. E assim estarei livro das memórias que se prendem na minha mente. Solto do que um dia já senti falta.