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YEONJUN :: 250621 SMA Red Carpet
Algumas coisas eram simplesmente difíceis de admitir até para si próprio. Aquela pontada no peito que aparecia sempre que Seyeon dava as costas depois de uma conversa tensa ou de um silêncio mais pesado que o normal era um bom exemplo disso. Não era exatamente a dor de saber que ele não era mais seu amigo— Han já conhecia aquela sensação como quem nasceu em Jeju e conhece o cheiro do mar, tão familiar quanto inevitável. O que realmente não queria admitir era o porquê aquilo ainda o incomodar tanto. O sorriso que forçava nos lábios nunca chegava aos olhos, sempre morria no meio do caminho, bloqueado por tudo que guardava dentro de si. Enquanto o mais novo falava, usando aquele tom tão monótono e incapaz de levar Han na brincadeira, o alfa mordia a parte interna da bochecha com tanta força que sentia o gosto metálico do sangue invadindo o paladar. Era quase cômico ( se não fosse trágico ) como tudo entre eles sempre desandava. Não importava o que Han dissesse, não importava o cuidado que tomasse, sempre acabava fazendo algo que causasse desgosto em Seyeon. Mesmo quando não era sua intenção, era como se o destino insistisse em transformá-lo num grande idiota perto do ex-amigo.
Seus lábios tremeram, querendo chamar Yeonie, mas o nome ficou preso, engolido pela vergonha silenciosa. Era estranho usar qualquer honoríficos, e ainda mais estranho soltar os apelidos que um dia fizera para ele. Por isso, Han nunca o chamava pelo nome. Nunca. Apenas falava, e naquela hora nem isso conseguiu. Seus olhos caíram sobre os tickets na mão, a mágoa surgindo como um peso mudo. Não deveria ter feito aquilo. Mas como resolver sem agir? Abaixou a mão, desviando o olhar, o rosto tingido de constrangimento. ❝ Nah, eu não pretendia usar... ❞ Mentiu, claro. Teria encontrado uma desculpa para seguir Seyeon se o destino os levasse a algum brinquedo perigoso, mas fora ingenuidade sua. Lembrou de Jaehwi e de como o amigo acertara, vendo o cansaço que marcava o rosto de Seyeon. Outra vez, a culpa o esmagou. ❝ Eu trabalhei bastante hoje, e a Bulgie deve estar me esperando pra dormir ❞ Isso não era mentira. A pequena poodle sempre ficava esperando-o voltar para casa perto do sofá, apenas para latir irritada com a demora do dono.
❝ Você pode esperar só um segundo, já que vamos na mesma direção? Prometo que será rápido❞ ele fez o sinal de um segundo com o dedo, mas logo encolheu os ombros. Talvez estivesse pedindo demais. ❝ Se você quiser voltar sozinho, não tem problema... Pode ir na frente, prometo não interromper seu caminho ❞ ofereceu um sorriso tímido, pequeno, e se afastou em direção a dois adolescentes na barraquinha da pescaria. Não demorou nada, era uma troca simples, e com certeza os tickets que ele ganhava valiam muito mais do que pedia em troca. ouviu um ( kamsahamnida, hyung-nim ) e guardou o objeto no bolso. Voltou devagar, se sentindo meio patético, mas com uma ponta de esperança que talvez, só talvez, Seyeon ainda estivesse ali.
ㅤ ㅤ ㅤ⸻ this is a flashback
Seyeon não soube dizer por que ainda estava ali.
Disse que ia embora e, por um momento, acreditou que aquele seria o fim. Que fariam como sempre — deixariam as ruínas em paz, recolheriam os pedaços em silêncio, esperando que as feridas fechassem sozinhas. Mas ele havia perguntado, ‘Pode esperar só um segundo?’, como se houvesse esperança de um final diferente. Como se um segundo pudesse mudar o que anos haviam quebrado. E Seyeon, ficou.
Não sabia por quê, nem conseguia entendê-lo, mas não poderia negar algo tão pequeno para alguém que parecia fazer tanto esforço somente para existir ao seu lado. Apertou os punhos com força, e pela segunda vez num espaço tão curto, teve que desviar os olhos ao vê-lo se afastar. Pensou em virar as costas novamente. Não por birra e muito menos por rancor — mas pelo cansaço crônico que era estar perto dele. Pela culpa que o corroía sempre que o tinha ali, tão perto, tão estranho.
Seunghan era leve com os outros. Em Wolnari, ele gesticulava ao falar — sorria. Não desviava os olhos de quem se aproximava nem parecia engolir seus pensamentos. Ele parecia muito mais confortável em trocar amenidades com qualquer outra pessoa. Menos com Seyeon. Quando estavam juntos, era extremo. Ou agia como se tivessem acabado de se conhecer, como se o tempo não tivesse importância e memórias fossem ornamentais; ou, carregava o corpo como se pagasse penitência. Como agora, quando fazia desculpas soarem como uma punição.
Não quis ver, mas viu quando Seunghan trocou os bilhetes que havia lhe dado — que não importavam de qualquer maneira, que eram somente mais uma prova de que não conseguia fazer qualquer coisa sozinho — e começou a caminhar em sua direção. Ele carregava algo no bolso e um peso nos ombros como se esperasse por um veredito. Como se Seyeon fosse lhe culpar por qualquer coisa. Como se pudesse. Pensou em perguntar o que era, mas algo o impediu. Temia incomodar ou soar acusatório. Só o observou por mais um instante, e então desviou os olhos, ciente de que precisava aceitar coisas que não podia entender.
Endireitou o corpo quando ele se aproximou, puxou as mangas do moletom sobre as mãos. “Você… Terminou? Se precisar ficar, tudo bem. Já está ficando tarde.”, aquela era sua oferta de paz. Era Seyeon dando a ele exatamente o que queria, uma oportunidade de se afastar. De não precisar ser responsabilizado por mais nada. “Tem uma barraquinha de chá perto da saída…”. Apontou com o queixo, sem olhar de fato. “Nunca tem fila, mas o cheiro é bom. Acho… Que posso passar lá, pegar alguma coisa para o caminho”. E então, como se a voz não tivesse tremido, como se nada tivesse acontecido — deu um passo. Só um na direção dele. “Está tudo bem, Seunghan-ssi”. Não estava. Mas era o mais perto que conseguia chegar da verdade.
Balançou a cabeça devagar, recusando com um gesto tranquilo da mão. “Obrigada… mas acho que estou bem só olhando, por enquanto.” ela ajeitou novamente a alça da bolsa, revelando um certo desconforto, embora ela não estivesse exatamente com pressa de ir embora. Seguiu o movimento dele com os olhos, observando enquanto ele se afastava alguns passos. Só então voltou a encarar as luzes chamativas à sua frente para se lembrar de onde estava. “Não… não estou pensando em ir embora...” respondeu, após uma breve pausa, puxando o ar decidindo ficar mais um pouco, só porque o convite estava implícito no jeito casual com que ele falava.
Virou-se parcialmente, inclinando o corpo para o lado, olhando para ele. “Cheguei faz poucos dias, na verdade. Ainda tô meio me acostumando…” e soltou um sorriso enviesado, sem mostrar os dentes. “Você nasceu aqui ou… é só dessas pessoas que nunca conseguiu ir embora?” perguntou, com curiosidade.
ㅤ ㅤ ㅤ⸻ this is a flashback
Seyeon a observou por um momento, o olhar mais atento do que ele gostaria de admitir. Havia algo sobre ela que não sabia explicar — e não estava fascinado por sua aparência, embora soubesse que se ela houvesse aceitado, qualquer foto que tirasse dela ficaria perfeita. Não. Era… Contenção. O jeito como ela se movia, como parecia considerar as palavras. Seyeon a observou como faria se estivesse de frente a um espelho.
Por isso, não soube o que dizer de imediato. Pensou em comentar o céu, as luzes, a quantidade absurda de gente — qualquer coisa banal. Mas nada parecia apropriado para o tipo de silêncio que ela deixava entre as palavras. Exatamente como costumava fazer.
“Chegou faz pouco tempo?”, repetiu, mais para si do que para ela. Depois, inclinou o rosto em sua direção, considerando a pergunta que havia lhe feito e pesando o que deveria responder. “Eu nasci aqui, sim”, a voz tranquila pesava o peito, por isso respirou profundamente antes de continuar, “Mas acho que sou do tipo que teve que voltar”, confessou, um sorriso quase culpado no rosto.
O silêncio entre as palavras não era desconfortável. Era como se precisassem de espaço para pensar, e por isso — porque talvez ela refletisse tanto do que lhe era intrínseco, fez algo que não costumava fazer. “Sou Oh Seyeon… Desculpe não ter me apresentado antes...”, uma breve reverência em sua direção e indicou o letreiro brilhante, “As pessoas devem querer usar isso aqui… Quer ir sentar em algum lugar?”.
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤ〰 @ohsyon asked for a starter, so here it is!
— Eu vi o feio do meu pretendente pelo parque. — Resmungou, olhando para os lados para garantir que estavam livres do perigo, juntando o braço de Seyeon com o seu logo em seguida. — Por causa disso, acho que devemos ir a um brinquedo que envolva água e depois comer um prato beeeeem apimentado. — Sorriu, puxando o outro consigo, todo animado com a ideia de se divertir na companhia do outro ômega. Era sempre agradável ficar com ele. — Seyeon, se nada der certo na nossa vida, acho que deveríamos casar. Você deixa o horroroso do Han e eu deixo o meu horroroso e vamos viver juntinhos em uma casa. — Riu baixinho, agarrando-se mais no braço do seu irmão de matilha. — O que acha?
Seyeon piscou lentamente e não respondeu de imediato. Ficou quieto por um momento. Os olhos acompanhando o movimento das pessoas ao redor como se precisasse pesar suas palavras — esperar que elas tocassem algum lugar dentro de si. Algo que acendesse compreensão.
Então sorriu. Não alto e debochado, mas como algo que escapa do corpo sem permissão quando alguém diz em voz alta o que você não ousa dizer sozinho. “Você sempre fala tudo o que pensa, não é?”, murmurou, mas o canto da boca ainda tremia com as sombras do riso. “O que suas mães diriam se te ouvissem dizer isso?” Curioso, inseguro. Seyeon perguntou, pois sabia que não era capaz de se colocar naquela situação. De ser tão sincero sobre as coisas que lhe aconteciam.
Quando olhou para ele, seus olhos eram gentis. Havia mais que humor em seu sorriso; compreensão silenciosa, tristeza. Eram tão diferentes que às vezes se esquecia de que eram parecidos em jeitos que não costumavam admitir. “O que uma coisa tem a ver com a outra, Kwangsikie?”, negou brevemente, mas apertou o braço. As mãos segurando as dele, como gostava de fazer quando caminhavam juntos. “Não sei se você aguentaria viver comigo. Gosto de dormir com cinco cobertores. Mesmo no verão”, fez uma pausa, como se pensasse seriamente sobre o assunto. “… Mas se a proposta incluir adoção de três gatos e uma hortinha no quintal, talvez a gente possa conversar”. E talvez precisasse pensar. Talvez aquele pedaço de ficção fosse, por um instante, mais seguro do que a realidade que tentavam evitar.

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━━ Não precisa colocar seu nome em nada quando se tem esse rostinho bonito. ━ Cutucou a bochecha de Seyeon, rindo da expressão ainda confusa dele. Como o outro podia ser tão fofo só existindo? Nunca entenderia. ━━ Ah, é que você é uma gracinha, Seyeonnie. Já se olhou no espelho? Não estavam rindo da sua cara, mas do seu jeitinho. ━ O reafirmou, se afastando para dar a volta e ficar de frente para ele, ajeitando sua roupa brevemente, assim como seu cabelo. E assim que os dedos se entrelaçaram, o puxou delicadamente para mais perto.
━━ Um encontro? Pode ser um encontro, haha. Não sei se serei bom, faz tempo que não saio em um encontro. ━ Confidenciou para o outro, agora que estavam mais próximos. Ia caminhando devagar, observando aquela parte do parque, sorrindo para algumas pessoas conhecidas que encontrava pelo caminho. ━━ Hm? Ainda bem que não trouxe! Você tem que prestar atenção no nosso encontro! ━ Apontou brevemente, um tom falsamente chateado. ━━ Vamos naquela ali. Tem o melhor molho de churrasco da ilha e eu quero comer carne.
ㅤ ㅤ ㅤ⸻ this is a flashback
Seyeon sorriu — uma risadinha leve, entredentes, como se não tivesse certeza se deveria mesmo rir ou só acreditar que aquele era outro teste do universo. Levou a mão até a própria bochecha e esfregou o local que Jaehwi havia tocado de leve, como se ainda pudesse sentir o toque ali. Como se quisesse que a sensação permanecesse em sua pele. “Não sei se gracinha é a melhor palavra para me descrever,”, murmurou, “olha só para você…”, os olhos desviaram dos dele. A descrição parecia servi-lo muito mais. Jaehwi tinha o tipo de beleza que as pessoas paravam para olhar. O tipo que trazia calor às suas bochechas quando ficavam assim tão próximos.
“Jura?”, soava improvável, mas só de ouvir já se sentia mais leve. Talvez não precisassem ser ótimos — talvez só bastasse estarem ali. “Eu não vou a um encontro desde a faculdade… E, olha… nenhum foi lá essas coisas,”, confidenciou com um sorriso, mas não para fazê-lo se sentir melhor, não acreditava que precisava. “você é oficialmente a primeira pessoa que está me levando para sair desde que voltei, hyung”, o sorriso acompanhou o dele, e mesmo que desviasse o olhar das pessoas com quem o outro sorria, era reconfortante vê-lo tão à vontade, “acho que vai ser um encontro memorável”.
Seyeon fez uma pausa à sua reclamação, depois riu, baixinho. “É que você estava bonito com as luzes ali atrás… Mas acho que tem razão. Vou me esforçar para não esquecer nada”, confessou, um tanto envergonhado e acompanhou seus passos até a barraquinha. “Espero que seja mesmo! Se não for, vai ter que me comprar sobremesa!”.
Esperar na fila, fazer seu pedido, esperar que ficasse pronto. Tudo aquilo parecia mais fácil quando tinha os dedos entrelaçados ao dele. Era mais fácil desligar o mundo ao redor quando tinha algo — alguém — para mantê-lo ancorado ao momento. “Hyung, você foi em todos os brinquedos? Ou só ficou andando por aí?”.
Jiwon havia parado ali por pura curiosidade, atraída não pelo homem de terno vermelho, um clichê ambulante que ela teria ignorado sem esforço, mas pelo olhar perdido de Seyeon, segurando aquele bilhete dourado como se fosse uma armadilha. Ela se aproximou em silêncio, como sempre fazia, com os braços cruzados e a expressão indecifrável, inclinando ligeiramente a cabeça para espiar o bilhete com atenção. Quando ele fez a pergunta, Jiwon arqueou uma sobrancelha, tão levemente que mal parecia um movimento. ❝ Depende... ❞ respondeu ❝ Você sabe para o que exatamente está oferecendo… ou só quer se livrar disso? ❞
Deixou que o silêncio pairasse entre eles por um segundo a mais, antes de descruzar os braços e pegar o bilhete das mãos dele, sem a menor pressa. ❝ Ticket para dois… ❞ levantou o olhar e o fitou, um meio sorriso surgindo, divertido e carregado de ironia. ❝ Parece que o universo anda entediado mesmo. ❞ devolveu o bilhete, sem forçar decisão alguma, devolvendo a responsabilidade ao dono legítimo. ❝ Se não souber o que fazer… me avisa. Talvez eu até aceite. ❞ e, como se não tivesse acabado de provocar, ajeitou a alça da bolsa no ombro e se afastou alguns passos, o suficiente para lhe dar espaço, mas não tanto que não pudesse ouvi-lo, caso decidisse chamá-la de volta.
ㅤ ㅤ ㅤ⸻ this is a flashback
Seyeon continuou parado, a mão ainda estendida como se o bilhete ainda estivesse ali — ou como se não tivesse certeza se queria mesmo que ela o tivesse devolvido. Seus olhos iam do papel à forma de Jiwon, de novo e de novo, sem saber como reagir ou respondê-la. “Eu…”, a palavra saiu sem força, mais pela obrigação moral do que por certeza. “Eu não sei, Jiwon-ssi.”, admitiu por fim. Um segundo depois, Seyeon respirou fundo, como se quisesse se convencer de que podia lidar com aquilo. Que seu drama era injustificado e que poderia soar tão confiante quanto ela.
“Não faço ideia do que estou fazendo,”, o olhar era hesitante, honesto “mas, se não estiver muito ocupada, quer me ajudar a descobrir o que esse negócio faz?”, fez uma pausa, e então acrescentou com um sorrisinho pequeno, quase esperançoso, “Eu pago o lanche depois”.
Depois de alguns instantes, que pareceram se esticar como uma eternidade, Santiago soltou a respiração que nem havia percebido estar prendendo. O som da voz trêmula do rapaz finalmente o alcançara e, mesmo que fosse uma palavra curta, entrecortada, ainda assim era resposta.
Quando o viu levar as mãos ao rosto para secar as lágrimas, Santiago não em puxar do bolso o pacotinho de guardanapos que havia recebido junto com a garrafinha de água. Instintivamente, como já vira seus primos fazerem com os filhos pequenos, abriu o pacote e, com uma delicadeza quase ritual, tocou o rosto do outro com o papel macio. Só se deu conta do gesto depois. Seus olhos se arregalaram levemente com a consciência tardia da intimidade involuntária, e então, suavemente, colocou os guardanapos na mão do rapaz para que ele mesmo pudesse usá-los, sem pressa, no próprio ritmo.
“Não precisa se desculpar.” respondeu baixinho, num tom mais afetuoso que racional, quase como se dissesse aquilo também para acalmar o ar ao redor. Sua mão pousou brevemente sobre o joelho do rapaz, num gesto de ancoragem leve, e apertou com a mesma suavidade com que se fala um “tá tudo bem” sem palavras. Quando o outro estendeu a mão em sua direção, Santiago a segurou.
Inclinou levemente o rosto para o lado ao observá-lo com mais atenção. Agora que as luzes já não mudavam frequentemente, Santiago pôde ver melhor o cansaço nos traços alheios, apesar de parecer melhor do que quer que tenha o afetado instantes atrás, o rapaz agora parecia exausto.
“Você parecia precisar de ajuda,” disse, como quem afirma um fato simples, inquestionável. “E eu não conseguiria simplesmente ir embora.” Sentou-se ao lado dele no banco, deixando um espaço entre eles. “Precisa de mais alguma coisa?” perguntou, com a voz ainda baixa, mas mais firme. “Posso te acompanhar até algum táxi, se quiser ir embora… ou só ficar aqui mais um pouco.” Houve uma pausa breve, que ele preencheu com um sorriso gentil, discreto, como se o nome próprio fosse também uma oferta de paz, “Me chamo Santiago, aliás. Me mudei pra cá tem pouco tempo. Sou o dono do restaurante mexicano novo que abriu.” disse, quase com um tom de desculpa por se apresentar tão tarde, os olhos escuros ainda suaves e atentos.
ㅤ ㅤ ㅤ⸻ this is a flashback
Seyeon não reagiu de imediato. Encolheu os ombros como se quisesse se esconder dentro do moletom e fechou os olhos no momento em que as pontas dos dedos dele tocaram seu rosto. Inclinou a cabeça em direção ao toque, procurando instintivamente algo que não sabia nomear; mas nada aconteceu. Foi breve, insuficiente. Estampou desgosto no olhar, mas assentiu—uma vez, com a cabeça baixa, e apertou os guardanapos de papel na mão como se fossem preciosos.
Se lhe perguntasse, não saberia explicar, nunca havia passado por algo parecido. Havia encontrado conforto na delicadeza do desconhecido, e estava assustado. Temia que se ele se afastasse, levaria consigo as colunas que sustentavam seu corpo.
Então quando ele falou novamente, Seyeon estremeceu. As palavras dele soavam como uma despedida. Como estranhos que se esbarravam na calçada, ‘não precisa se desculpar’, e viravam as costas um para o outro. A respiração ficou presa em seu peito mais uma vez, os dedos frios apertaram os dele. Não queria soltar sua mão, e não o fez. Seriam ambos reféns de seu próprio egoísmo por todo o tempo que ele cedesse à sua companhia. “Está tudo bem…”, a voz por pouco não passava de um sussurro, “Gosto daqui”.
Repetiu o nome de Santiago em sua mente — San-ti-a-go — como um mantra. Algo que não queria esquecer. Algo seguro. Seu nome, como suas palavras, não carregavam urgência. Nem expectativas ou bordas afiadas. Ele não parecia interessado em qualquer coisa que um estranho pouco funcional poderia lhe oferecer. Parecia unicamente interessado em preencher o seu silêncio para que não se sentisse só. “Nunca comi comida mexicana”, Seyeon encostou a bochecha contra o ombro dele por um segundo. Um segundo só. Mas não se afastou de novo. “Já vi o restaurante, mas nunca pensei em entrar. Está sempre tão… lotado”.
Suspirou. “Seyeon”, disse quase sem pensar, como um pedido de desculpas. Como um agradecimento. Quase uma confissão. “Meu nome… é Oh Seyeon”.
“Eu não levaria,” a resposta escapou involuntária diante da não-sugestão, rápida e sincera demais pra Chanhyuk ao menos pensar em engolir a tempo. Ele se atiraria da cabine em movimento antes de concordar ficar de mãos dadas por livre e espontânea vontade com um completo… Estranho?
A dúvida repentina o fez encarar o cara com mais afinco, como se estivesse o presenciando de verdade pela primeira vez. Eles estavam, tecnicamente, em cativeiro até a volta da roda-gigante acabar, o que abria margem pra observações silenciosas e mal disfarçadas. Não que Chanhyuk fosse o único fazendo isso, a julgar pelo olhar meticuloso que recebeu, começando de baixo e subindo devagar até o seu rosto, bem quando ele mais parecia refletir a cor vibrante dos corações de papel. Sem jeito, a sua única opção foi soprar um pra longe e arrancar um naco do algodão-doce de uma forma vagamente violenta, só pra manter os dedos ocupados.
“Tem certeza? Você teve uma reação meio… Intensa quando chamaram seu nome,” Chanhyuk apontou, uma sobrancelha contraindo com a lembrança. “Seyeon, certo?” O nome rolou hesitante, experimentando a pronúncia em voz alta. Mas tinha alguma coisa o incomodando, igual uma moldura pendurada só um pouco fora do lugar, tremendamente enervante quanto mais se olhava pra ela tentando encontrar o problema. “Huh.”
Chanhyuk piscou. Então finalmente lembrou que continuava segurando o que, até cinco minutos atrás, tinha sido uma nuvenzinha azul artificial de açúcar e agora não passava de um tufo deprimido e amassado. Mesmo assim, ele o botou na boca.
“Quer dizer, como você saberia?” De novo, a pergunta saiu sem pensar. Entre a confusão momentânea, houve uma mastigação exageradamente lenta, que se arrastou enquanto Chanhyuk acompanhava Seyeon subir inquieto os dedos pra lateral do pescoço e pressionar, o gesto estranhamente familiar. Aquela sensação torta voltou, a que repuxava os cantos mais distantes da sua mente. Ele inclinou a cabeça pro lado e espremeu de leve os olhos. “Não por nada, mas a gente se conhece?”
ㅤ ㅤ ㅤ⸻ this is a flashback
Mudou o algodão-doce de mão e limpou os dedos açucarados na própria calça. Seus olhos encontraram os de Chanhyuk por um instante, mas logo desviou o olhar. Sentia o coração pulsar em sua garganta muito mais alto que as engrenagens da roda gigante. É apenas uma volta. Vai ficar tudo bem. Havia tentado se convencer de que nada poderia ser pior que aquela exposição pública, mas agora, sentia o desconforto pesar a pequena cabine.
“Você também teve uma reação meio intensa quando o cara te arrastou para cá…”, a voz carregava a totalidade de seus sentimentos; começou como uma confissão, terminou como um juízo, “Estava esperando que o seu nome fosse ser chamado e ficou amuado?”.
Seyeon balançou a cabeça, soltando o ar em um gesto de cansaço. A altura não ajudava. Quase uma volta completa e Chanhyuk ainda agia como um maluco completo—perguntava seu nome como se já não o tivesse ouvido ressoar num coro de sorrisos estridentes. Agia como se nunca tivesse sido exposto à sua presença. Como um desconhecido. Não sabia se sua frustração crescente era pelas memórias perdidas ou pela expectativa da lembrança.
“Esse é o meu nome, boa memória”, não perguntaria o dele. Não precisava saber, nem queria que ele pensasse que se preocupava. Arriscou olhar para baixo e percebeu estarem um pouco mais próximos do chão. Se estendessem aquele passeio mais uma vez, consideraria jogar seu algodão-doce no cabelo dele e gritar por socorro. “Acho que é um pressentimento” Seyeon disse, com um sorriso que não alcançava seus olhos, “Está sentindo também? Parece que a gente se conhece de uma vida passada”.
Gumiho estava pegando sol nos degraus da casa de sua halmeoni. Na verdade, estava pegando sol nos degraus da casa da halmeoni do Seunghan. Seyeon já não podia atravessar o lugar como se morasse ali — não podia. O jardim não era seu para mudar os vasos de lugar, precisava lembrar de perguntar onde ficavam os copos e esperar pacientemente que lhe permitissem pegar uma sandália para não ficar andando de meia na casa, mesmo que soubesse exatamente onde a sua ficava guardada.
Oferecer decoro e estabelecer limites era o mínimo que poderia fazer para respeitar o espaço dele.
Não importava que houvesse feito daquele lugar uma segunda casa. Que houvesse passado tardes sem fim aninhado no pátio interno, com os dedinhos de sua halmeoni em seu cabelo e o vapor de chá fresco em seu rosto. Que até Gumy tivesse um lugar próprio para cochilar às três da tarde. Seyeon sabia que não deveria estar ali — que deveriam ir embora antes que ele voltasse.
“Vem cá, Gumy…”, foi uma tentativa fútil tentar pegar vossa alteza no colo e sair correndo. Gumiho só fazia aquilo que queria, quando lhe era conveniente, e naquele momento — desde cedo, na verdade — Seyeon percebeu que o único objetivo do gatinho ter acordado naquela manhã era tornar a sua vida o mais complicada quanto fosse possível. Ele miou, claro. E como um eco, Seyeon ouviu a voz da halmeoni mandando que ele entrasse. “Seu traíra… Vamos ver se vai dormir no meu travesseiro hoje…”. Gumiho continuou lhe encarando como se pudesse ler em sua postura — nos lábios mordidos, os braços cruzados sobre o tronco, a postura encolhida — sua incapacidade de dizer não. E, no fundo, não queria. Talvez, só daquela vez, pudesse se permitir fingir que estava tudo bem. Só enquanto ele não estivesse em casa.
Precisou apenas de um segundo de coragem. Seyeon deixou os sapatos num canto, pegou seu chinelo pertinho da porta e entrou. As coisas estavam como sempre estiveram — a decoração, os quadros na parede — eram detalhes familiares. E sem a pressão formal dos jantares com a família toda reunida, o calor o envolvia como um abraço apertado. Como um reencontro adiado por tempo demais. Os passos estavam quase apressados, era guiado pelo som de sua voz e a necessidade de estar no centro de sua atenção, assim como fazia quando era mais jovem. E não precisou de muito esforço. A encontrou no mesmo lugar, no centro do pátio; servindo daechu cha nas mesmas xícaras de porcelana, a sua com um trinco lateral antigo.
Seu sorriso foi uma extensão do dela, mas eles não trocaram uma única palavra. Curiosamente, sua halmeoni era uma das poucas pessoas que parecia sempre saber do que precisava. Sempre pronta para oferecer sua casa, seu carinho, suas palavras e seu silêncio sem jamais exigir alguma coisa. Parecia satisfeita unicamente com sua companhia — e não era aquela a maior ironia de sua vida?
“Obrigado”, sentou ao seu lado, tomou todo o chá. Quando a primeira xícara acabou, ela serviu outra. E outra. Até que não havia mais chá, só a brisa gentil e as sombras dançando ao seu redor. Sorriu outra vez e beijou o topo de sua cabeça. Relaxou. Àquela altura, já deveria saber que seu corpo estava condicionado a reconhecer os cuidados dela como uma permissão silenciosa para baixar a guarda. Bocejou e esticou os braços acima da cabeça. Preguiçoso. Ela recolheu as xícaras, trouxe o seu cobertor, deixou Gumiho entrar. Seyon percebeu pouco tempo depois que estava debruçado sobre a mesinha, com Gumy no seu colo e os dedos dobrando guardanapos de papel como origamis, procurando passar o tempo. Fingindo ter algo para fazer — ou nada — somente para estender seu tempo ali.
Seyeon suspirou, estava mais confortável do que deveria, mas tentava não pensar sobre aquilo. Não poderia começar, ou entraria em um redemoinho do qual não sabia sair. “Você me dá tanto trabalho…”, Gumiho ronronava com o tipo de despreocupação e confiança que somente felinos pareciam possuir — indiferente às suas preocupações, como se soubesse que, no fim, Seyeon estivesse apenas sendo dramático. “Saiba que da próxima vez que desaparecer, eu não vou sair para procurar você. Vai acabar perdido. Consegue imaginar, hm? E um dia, quando finalmente me encontrar, vou estar com outro gato. Um que me ame de verdade e não me abandone toda vez que deixe uma porta aberta…”, murmurou, deixando os dedos deslizarem distraidamente sobre os pelos dourados do felino. “Vou fingir que você nem existe, e vou colocar… Vou colocar Forgotten Love para tocar toda vez que pensar em você”.
Gumiho não reagiu, e Seyeon observou seu peito subir e descer com a respiração tranquila. Pratos e panelas eram movidas na cozinha, sabia que havia sido deixado sozinho para que ela pudesse começar a preparar o jantar. Era hora de ir embora, mas queria esperar só um pouco mais. “Quer ouvir música?”, Gumy não lhe responderia, mas para Seyeon, aquela era uma ótima ideia. Talvez fosse mais fácil não pensar—apenas se ocupar com algo pequeno, irrelevante.
Colocou para tocar a primeira playlist que viu, e deitou sobre a mesinha para ficar mexendo no celular. Ficaria lá, quietinho, até o último minuo possível. Quando as primeiras linhas de Hounds Of Love começaram a tocar, ele cantarolou as partes que sabia, ‘the houds of love are hunting. I’ve always been a coward, and I don’t know what’s good for me’, com um sorrisinho no rosto. Gumiho não suportou a interrupção à sua paz, e pulou de seu colo — certamente à procura de qualquer outro lugar mais tranquilo para dormir em paz. “Vai me abandonar novamente, Gumy?”, foi ignorado. Sozinho e sem uma criaturinha para lhe incomodar, pediu uma caneta à halmeoni, e começou a rabiscar no primeiro pedaço de papel que viu em sua frente — guardanapos.
Começou a escrever ‘Kate Bush’, pois ainda estava ouvindo música e ela seria sua primeira escolha sempre que precisasse pensar em coisas que gostava, depois listou as coisas que precisava terminar naquele dia; trocar os lençóis da sua cama e arrumar o quarto, revisar a última reunião com o ômega central, cuidar das suas plantas.
Fez uma lista das coisas que precisava comprar no mercado, e escreveu o nome da Chunhwa para lembrar de ir somente quando ela estivesse trabalhando. Bocejou novamente e deitou o rosto sobre os braços, logo quando Love Like You começou a tocar. Seyeon gostava dela — havia aprendido a gostar de desenhos musicais com Haeryeon, e aquela em específico era uma de suas prediletas.
I always thought I might be bad, now I’m sure that it's true. ‘Cause I think you’re so good, and I’m nothing like you.
Escreveu o título da faixa logo abaixo de ‘morangos, ligar para a Chunhwa’, e era estúpido, mas não havia ninguém ali além de sua própria companhia e por isso ele se permitiu piscar para que o fantasma das primeiras lágrimas molhassem suas bochechas. Não podia acreditar que estava incomodado pelo sumiço constante do Gumiho, mas que outra explicação poderia dar para o aperto que sentia no peito? Talvez a distância do gatinho refletisse as rachaduras de sua personalidade.
Ele sabia que era indisponível e guardava as suas emoções como uma princesa na torre mais alta de um castelo abandonado. Uma que não sabia como atravessar as portas sozinha para encarar o mundo. Seus olhinhos brilhantes viam nos seus toda a insegurança que nutria no peito; como tinha dificuldade em separar as flores das ervas-daninhas. Não era bom, nem o suficiente para ele. Talvez nunca conseguisse ser, então nem precisava tentar.
Suspirou. Em momentos como aquele, se pegava pensando em como as coisas eram sempre tão complicadas para ele. Como queria um momento — um momento real — onde as coisas não fossem feitas de sorrisos educados, olhares confusos e tempo perdido. Mas era hipócrita. Seyeon sempre tentava não sentir demais, não se sobrecarregar. Levantava um muro de silêncios e evasão ao seu redor para se proteger. Mas, sentia demais, o tempo todo. E sufocava nas próprias emoções.
As coisas eram complicadas por sua própria culpa, por sua própria ambiguidade. Não queria ser invisível, mas ser visto parecia pior. Como mostrar as pessoas um jardim com flores que não se sabe nomear?
Happily waiting, all on my own, under the endless sky Counting the seconds, standing alone, as thousands of years go by (...) Isn't that lovely? Isn't that cool? And isn't that cruel? And aren't I a fool to have… Happily listened, happy to stay, happily watching her drift...
Se fechasse os olhos e quisesse recordar a última vez que refletiu sobre seu futuro e sentiu alegria, estaria encarando uma versão de si com pouco mais de cinco anos. As coisas pareciam mais fáceis naquela época. Quando suas preocupações eram imediatas e esperança ainda parecia alcançável. Quando tinha tudo na ponta dos dedos e podia se dar o luxo de ser egoísta. Não queria mais — não aguentaria. Talvez devesse aprender com ele. Ir e vir quando fosse conveniente, sem grandes expectativas.
Suas lágrimas borraram o pouco que havia escrito. A lista de compras, o título das últimas músicas que havia escutado. Seyeon deveria ser o retrato do descontrole, chorando ao ar livre e ao som de músicas tristes como se tivesse treze anos novamente, no auge de seu descontrole hormonal. Por sorte, seus adesivos deveriam ainda estar funcionando, ou sua halmeoni já estaria ali, para tentar resolver um problema que não existia. Deveria ir embora, e como um sinal dos céus ela apareceu. ‘Vai ficar para o jantar?’.
Ele entrou com ela, e considerou. Parou por um segundo, no meio daquela casa que já havia sido tão sua quanto dele, e se perguntou se poderia escolher exatamente o oposto do que considerava a única opção correta. Somente por tempo suficiente para tomar controle do próprio corpo. Para secar as lágrimas sob a luz de sua preocupação — talvez pudesse perguntar quando poderia voltar. Precisava se desculpar pelas visitas espaçadas. Olhou a mesa, haviam três lugares postos.
Seu corpo congelou. Seyeon enxugou as lágrimas com o cobertor, se encolheu dentro dele. Mentiu. Disse que não se sentia bem e que precisava ir para casa — sua mãe com certeza notaria o tempo sem dar nenhuma notícia. Os dedos tremiam quando tentou pausar a música, quando sequer conseguiu reunir os pedaços de seus devaneios para se livrar de qualquer vestígio de que havia estado ali. Não tinha tempo. Se despediu, não ficou para ver o olhar preocupado que ela lhe lançou ao ver seus olhos vermelhos. Achou Gumiho e o pegou no colo sem qualquer consideração ao seu sono. Culpava o felino por seu lapso de julgamento.
Não deveria ter voltado ali, sob circunstâncias tão egoístas. Precisava aprender — precisava desesperadamente se convencer — de que querer não significava ter. Que, algumas vezes, deixar ir também era uma maneira de amar; mesmo que seus sentimentos permanecessem os mesmos. “As coisas que você me faz fazer, sinceramente….”.
Everything stays, but it still changes Ever so slightly, daily and nightly In little ways, when everything stays

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it's time for a closed starter !
with @ohsyon
local: roda-gigante.
Jisoo perderia as contas de quantas vezes foi naquele brinquedo, em horários diferentes com experiências distintas, não tem nada de adrenalina na proposta de uma roda-gigante, quer dizer, dentro da cabine envidraçada que balança levemente com o movimento suave do brinquedo, ainda que seja uma estrutura que range suavemente enquanto sobe, não trás aquela tensão que os outros brinquedos trazem. O que torna o brinquedo atraente é o simples fato de ter aquela vista, logo a frente estava a expansão da praia, o tapete de areia clara margeada por um mar azul que reflete o céu, as ondas quebrando logo abaixo, formando uma linha branca contínua que desenha o contorno da costa, é possível ver pequenos pontos se movendo na areia e quando o brinquedo parava no topo, Jisoo entendia o porquê de preferir ele. “Quais a chances de experimentar isso estando com uma companhia agradável do lado” Falou para a pessoa que foi colocada na cabine junto com ele e sorriu. “É uma chance em dez milhões” Voltou o olhar para a paisagem maravilhosa e suspirou. "É tão bonito, não acha?"
“Isso é muito, não é?”, não era bom com números. Probabilidades, distância, tempo. Nenhuma dessas coisas fazia muito sentido para Seyeon. Ele não era feito de linhas retas e lógica; caminhava no mundo como se estivesse acabado de sair de um pergaminho escrito em letra cursiva. Talvez por isso, pensar sobre o que estava fazendo ali a tantos metros do chão, as cadeiras subindo lentamente, a vista lá do alto — tudo que num primeiro momento fosse o sensato, não parecia a reação lógica para ele. Parecia só… fugir.
De olhos fechados, a única coisa que importava era a tranquilidade.
Longe do tumulto da festa, dos sons estridentes e de tantos sinais diferentes. Aquela era a primeira vez na noite que havia encontrado sossego em um dos brinquedos; a primeira vez em que a presença de um completo desconhecido não lhe deixava ansioso. Até a voz dele era agradável. Seria perfeito se pudesse durar para sempre. “Não sei, não vou arriscar olhar para baixo,”, acompanhava seu tom, um murmúrio. Temia quebrar o encanto daquele momento tão bom. “mas já que gostou tanto, bem que podíamos pedir para ir duas vezes seguidas. Será que deixariam?”. Olhou para ele e sorriu, brando, confortável. “Se estiver tudo bem para você, claro”.
Ele sempre achou que eventos locais eram o tipo de lugar onde as pessoas deixavam suas almas à venda por migalhas: turistas e até locais que não conseguiam resistir a uma leitura de mão ou a um amuleto para espantar a má sorte. Ele mesmo estava exausto de trabalhar, por isso decidiu ir ver o show de talentos, curioso para ver os trouxas passando vergonha. Mas então, algo quebrou o tédio: Seyeon subiu no palco para receber um prêmio. Aquela expressão confusa, meio abobalhada, arrancou dele uma gargalhada que pareceu ecoar mais alto do que deveria. Ele ergueu o celular, capturou a cara de bobo do rapaz e riu ainda mais alto. ❝ Ya, eu vou fazer uma figurinha pra mandar no grupo da família ❞ disse, colocando o celular de volta no bolso.
O prêmio parecia uma piada mal contada: rótulo mal impresso, quase sem informação, a lembrança de um golpe barato. ❝ Acho que te enganaram ❞ disse, contorcendo o rosto numa careta. Conhecendo aquele mané, sabia que ele não moveria um dedo para descobrir a verdade. Então, com um estalo de dedos, puxou o ticket e foi atrás do apresentador. Agarrou o homem pelos ombros nos bastidores. Eles conversaram em sussurros venenosos e trocaram bilhetes como traficantes. ❝ Talvez seus pais estejam certos, você não devia ficar andando por aí sozinho ❞ resmungou voltando a estar ao lado do suposto-noivo, com dois novos bilhetes reluzindo entre os dedos. ❝ Aquele bilhete era ruim, agora temos um para você e um para mim ❞ disse, a voz carregada de animação, já que, para ele, não havia nada melhor do que sair ganhando ❝ Eles podem ser usados mais de uma vez em qualquer brinquedo, de nada ❞
Ele não percebeu que Seunghan estava lá até que fosse tarde demais — até que ouviu a sua risada, alta e despreocupada, sobre as vozes ao seu redor. É claro que ele acharia graça de tudo aquilo. E é claro que ele tiraria uma foto do pior momento de sua noite. Claro que ele iria insinuar algo do tipo — que estava naquela situação por culpa própria.
Seyeon piscou devagar, os olhos firmes no espaço acima de seus ombros, “Não sabia que estaria aqui hoje,” a voz era suave, carente de qualquer provocação. Um sussurro que poderia passar despercebido. Não esperava encontrá-lo ali, a cidade era pequena, mas na maior parte do tempo parecia viverem em hemisférios diferentes. “Você não precisa… enfim”, tentou segurar o bilhete. Não queria ficar ali, mas seus protestos foram entregues ao vento, e seus olhos tiveram que observar sua silhueta caminhando para a área restrita a funcionários.
Quis dar meia-volta quando o perdeu de vista. E o fez, até. Mas não foi muito longe, sentiu sua presença novamente antes mesmo que pudesse dizer qualquer coisa. Era familiar, assim como suas provocações. Precisou fechar as mãos em punhos e respirar profundamente antes que pudesse virar em sua direção. Quando Seunghan lhe devolveu os bilhetes, Seyeon finalmente o encarou. Brevemente. Com cautela. “Tenho sorte de você estar aqui, Han… Seunghan-ssi”, respondeu lentamente, “na próxima vez que os ver, não esqueça de contar como me salvou”. A reverência que lhe ofereceu foi curta, sem alma. As mãos permaneceram coladas ao corpo, os bilhetes seguros com ele. “Obrigado.” A palavra soava estranha em sua boca, mas não era mentira. Parte dele — uma parte bem escondida — ainda se lembrava de quando agradecê-lo era fácil.
Tentou sorrir, mas não sabia se havia conseguido. “Pode ficar com eles,”, a pausa que seguiu não foi dramática. Ele só estava cansado. Tudo aquilo havia sido muito para lidar de uma única vez. “Acho que vai aproveitar muito mais que eu”. Não esperou uma resposta. Colocou as mãos dentro do moletom e deu um passo para trás. “Eu vou indo”.
E então um pequeno aceno. Conclusivo. Algo dentro dele já não estava mais lá, havia desaparecido mesmo enquanto ainda esperava por sua resposta.
ㅤ ㅤ ㅤ⸻ For people could close their eyes to greatness, to horrors, to beauty, and their ears to melodies or deceiving words. But they couldn't escape scent. For scent was a brother of breath. Together with breath it entered human beings, who couldn't defend themselves against it, not if they wanted to live. And scent entered into their very core, went directly to their hearts, and decided for good and all between affection and contempt, disgust and lust, love and hate.
Ele não sabe qual é o seu cheiro.
O único sentido que ele nunca conheceu — e, ainda assim, que dá sentido ao mundo que o cerca. Parece ser a primeira coisa que as pessoas procuram. É instintivo. Se aproximam dele, respiram fundo, esperam desvendar os silêncios de seu coração.
Sente-se vulnerável.
Sem a proteção autoinfligida de seus supressores, Seyeon é eco. Sentimentos que se espalham e nunca retornam. É um caminho sem volta. Por isso, quando sai de casa, quando o calor de outro corpo encontra-se próximo ao seu, espera que percebam somente o aroma do campo onde suas roupas secaram sob o sol. Do xampu refrescante que usa no cabelo ou do creme para as mãos que sua mãe insiste ser essencial.
Mas anseia pela conexão — deseja sentir as ondas na própria pele.
E quando os instintos gritam e o coração aperta, nos dias em que a curiosidade é mais forte, quando está seguro e tudo é quieto, ele não pergunta “qual o meu cheiro?”.
Sussurra, como quem espera trocar segredos, “me diz o que acontece com você quando eu chego muito perto”.
Nota de topo: Romã.
Dizem que a primeira coisa que percebem é a fruta. Suculência ácida com um fundo pesado, metálico. O aroma de tentação e consequência — daquilo que mancha de vermelho as mãos e lábios. É o rastro que deixa no colchão ao levantar toda manhã. Que desprende quando a brisa bagunça seus cabelos. Romã, explicam, que levou a mulher ao seu destino; que trouxe ruína ao mundo.
Aroma que aguça — fica escuro, amarga — quando se sente encurralado. Quando fazem perguntas que não sabe responder. A nota que disseram induzir à proximidade. Pausar por um instante e considerar os próximos passos, que prende sem permissão. É o que sentem quando tenta suprimir atração ou medo, quando é beijado por tempo demais e quase perde o fôlego.
Ele conhece a fruta. Na faculdade, Haeryeon lhe comprou um saco delas e exigiu que provasse por si.
Tornou-se costume. Parte a pele brilhante com os dedos e se pergunta se provoca o mesmo tipo de satisfação; se mancha quem o toca de vermelho-carmim. Seyeon morde suas sementes, deixa o sabor preencher a boca. Gosta do doce tornando-se amargo, lembra de sussurros contra a própria pele. Talvez romã sejam as marcas que ficam quando ele vai embora.
O aroma antes de uma escolha inevitável; daquilo que pode mudar a sua vida.
Nota de coração: Osmanthus.
Ouviu que seu silêncio exalava como damascos maduros banhados em luz. Quase, mas mais delicado. Sua concentração como quem serve pêssegos caramelizados em louça de porcelana para uma casa sem convidados. Suave, mas não como a fruta. Sempre próximo, mas nunca certo sobre sua quietude. Osmanthus — foi o que nomearam quando havia lágrimas em seu rosto.
É o aroma presente quando não prestam atenção. Quando conseguem aguardar por tempo o suficiente até que se sinta confortável. Uma flor modesta — branca ou dourada, muitas vezes menor que uma unha — mas de aroma inesperado. Doce, mas não como as frutas com as quais é confundida. É leve e floral quando sorri despreocupado com alguém em que não esperava confiar.
É o que rega suas dores, quando se sente sozinho e tão impotente. Nostálgico, e um tanto privado. Disseram que quando inspiram osmanthus, não há desejo ou felicidade; somente a necessidade de não deixar ir. Sem defesas, macio. Seyeon as tem crescendo do lado de fora da janela de seu quarto — fantasmas que lhe fazem companhia no outono, quando o que é memória e o que é vida se misturam. É a pausa entre suas emoções.
Quando a própria companhia é o que lhe resta, pressiona as pétalas contra os lábios. As mergulha no chá. Dorme com elas debaixo do travesseiro. Não sente o cheiro — mas sonha mais. Às vezes, se pergunta se é osmanthus o que sentem quando dizem que o amam. Quando, mesmo assim, ele não consegue acreditar.
Nota de base: Hinoki.
Quase acreditou que era feito somente de doçura contida e silêncios nostálgicos, mas, longe de casa, descobriu que havia mais sobre si que nunca conheceria. Não surpreendentemente, Haeryeon foi a primeira a notar. O nariz gélido pressionado em seu pescoço ‘Saiu com um alfa ontem?’, o olhar confuso. Preocupado. Não acreditou quando negou, até que aconteceu novamente.
Seyon não tinha cheiro de alfa — ou o que quer que isso significasse. Não poderia, nem se quisesse. Mas o calor amadeirado persistia. Mesmo depois que o fruto secava e a flor se desfazia, restava a delicadeza clara de algo feito para durar.
Era hinoki que Haery sentia quando segurava sua mão no fim do dia, quando o rosto já estava seco de chorar e lhe restava apenas respirar fundo e continuar. Hinoki — madeira japonesa banhada em tempo, sagrado, silêncio. Não era fogo para aquecer no inverno. Era o aroma de templos sob a chuva. Dos portais vermelhos aquecidos pelas memórias, ainda de pé mesmo quando ninguém mais passa por eles.
Disseram ser o aroma que permanecia sobre aqueles que cuidava. Como preces sussurradas em uma sala vazia. Como lembranças que voltam quando tudo está quieto. Gentilmente, silenciosamente. Depois do toque, depois da fala, depois da despedida. Tinha cheiro de algo que foi feito para proteger. Para ser tocado com reverência.
Seyeon acostumou-se a queimar incensos de hinoki em dias chuvosos. Não sabe se o aroma que permeia seu quarto — suas roupas, seus lençóis — convida ou afasta. Observa os desenhos da fumaça no ar e às vezes se pergunta se pode ser adorado pelo que é, ou se precisa cair de joelhos em súplica para tanto. E se, por mais frágil que se sinta, foi criado apenas para resistir. Para aguentar. E não para viver.
Ele é um perfume que jamais vai conhecer. Um espectro feito de fruta, flor e madeira — e nada jamais vai conseguir tocá-lo. Por isso coleta testemunhos. Escuta como um padre às confissões quando respondem sua pergunta. Às vezes os anota. Outras não. Mas lembra de cada um, e nunca parece ser o suficiente.
Havia acabado de chegar no parque quando seus olhos caíram na figura de Seyeon. Era até engraçado ver o rapaz sendo o centro das atenções, então desviou o próprio caminho naturalmente para se aproximar e tentar ajudar o amigo naquela situação embaraçosa. Jaehwi só se deu conta do que se tratava quando viu o bilhete, dando uma risadinha baixa antes de apoiar o queixo em seu ombro. ━━ Woah, eu nem mesmo sabia que você podia ser tão sortudo assim, Seyeonnie. ━ Aumentou o sorriso, pendendo um pouco a cabeça para olhar melhor o rosto do amigo. ━━ Só pode ser o destino. Está dizendo que é para duas pessoas e olha só... Somos duas pessoas. Estou com fome, vamos gastar esse bilhete com algo gostoso.
Ao se afastar, já foi estendendo a mão para o outro ômega, chamando-o para saírem dali. ━━ Vem, vamos te tirar daqui. Ouvi dizer que tem uma barraca ótima de comida perto da roda gigante...
Seyeon não teve tempo de entender o que estava acontecendo. Num minuto estava olhando o bilhete como se fosse sugar sua alma; em outro, tinha Jaehwi apoiado em seu ombro, tentando dar sentido aquele papel brilhante.
Piscou uma vez. Duas. Tentava reagir enquanto ele sorria como se tivesse acabado de ganhar na loteria. “Eu…”, e não sabia o que vinha depois. Estava pensando em jogar o bilhete fora se não encontrasse ninguém para aceitá-lo. Agora, não tinha tanta certeza. “Não coloquei o meu nome, sério”, e não precisava se se justificar, mas parecia importante deixar claro que aquela era uma situação não-planejada.
“Sorte? Isso está mais para azar… Viu que ficaram rindo quando eu me assustei?”, foi um show de humilhação pública, E admitiria, se conseguisse criar coragem para tanto. Seyeon negou levemente, consciente da proximidade do rosto dele ao seu, e sorriu. Um movimento pequeno, envergonhado. Um reflexo à sua sugestão. “Hyung, está me sequestrando agora que sou rico?”. Os dedos se entrelaçaram aos dele, quase incertos, mas se deixou ser arrastado para a ótima barraquinha. “Ou… Isso é um encontro? Diz que sim!”, não estavam longe da roda gigante, então não demorou para avistar uma fileira de barraquinhas. A quantidade de pessoas por ali não lhe trouxe qualquer conforto, mas a tensão de antes e a antecipação já não lhe assustavam tanto quando não estava sozinho. “Uma pena que eu não trouxe minha câmera…”, murmurou baixinho, uma observação tardia a si, “Ei, qual delas a gente vai?”.
MAMMA MIA! HERE WE GO AGAIN [2018]
Eles teriam esse diálogo, Seyeon preocupado se a família de Hae sentiria falta e a Hae falando que vai ficar a vida toda na ilha @ohsyon
@haeryeonyudae ♡

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YEONJUN: love language | music bank
👻 If you've had a dose of a freaky ghost, baby, you better call Ghostbusters w@ohsyon
Os fantasmas atrás de Haeryeon não possuiam forma, eram mais como sombras e sussurros, socos em seu estômago, assim como dores e zumbidos no ouvido após sair de mais um brinquedo giratório. Era a pose de mulher forte e malandra que tentava manter na frente dos amigos, mas depois corria se esconder para não aceitar ser levada para mais uma atração horripilante. Já havia vomitado, despencado sua pressão. Mas também, já havia experimentado quase tudo na praça de alimentação e cantado no palco. Tirado fotos com os amigos nos espaços destinados a isso, assim como também teve crises de risos, de doer a barriga, criando memorias indescritiveis, como a primeira vez num carrinho bate-bate com Chiwoo e Bruno, como viveu presa no castelo Kwon, a adolescente que devia ter vivido tudo aquilo nunca existiu, e para uma mulher adulta querer experenciar do dia para a noite, era cansativo fisicamente e socialmente.
Haeryeon não poderia dizer que não estava vivendo até o último fio de cabelo, por mais que aquilo custasse também seus fiozinhos de sanidade. Masoquista? Talvez um pouco, porém ao menos tinha riscado de sua lista a maior parte dos brinquedos assombrosos que nunca teve coragem, ou oportunidade de ir desde muito nova. Era uma quebra de ciclo, mas não tinha certeza naquela altura se era realmente necessário.
Estava sentada em um dos bancos pelo parque, tão cansada que sua postura ali estava mais jogada. Os cabelos já soltos e não mais no rabo de cavalo bonito e elegante de antes. Foi quando abriu seu aplicativo e decidiu enviar mensagens ao amigo, Seyeon, que era um porto seguro, trazia aquela calmaria familiar. Haery da mesma forma que em momentos era como um furacão, também era e apreciava ser, como um sopro leve e salgado beira mar a tarde, era o cheirinho de hortelã refrescante, o mojito adocicado, se Seyeon pudesse sentir, ao lado dele os mirtilos basicamente não apareciam, era daquele lugar que Haeryeon estava precisando no fim de todo passeio pelo Baekwa Wonderland.
[Text] oppa, aonde você está? Te vi com a Dasom, depois não te encontrei mais.
[Text] Estou em frente ao trem fantasma, a fila está pequena, quer ir? Estou muito velha para esse lugar e os outros brinquedos T-T
Estava cansado.
E este que era um pensamento esporádico mesmo em seus dias mais turbulentos entre indas e vindas na fazenda, parecia naquele momento a única coisa que conseguia pensar. Não conseguia imaginar o que havia na cabeça quando decidiu que passar horas no meio de uma multidão bancando o extrovertido — no meio de tanta gente, com tantos cheiro, tanto barulho — era um bom plano. A única coisa que queria naquele momento era ir para casa, se enrolar na cama e ser engolido por todos os seus cobertores para sempre.
Se tivesse sorte, conseguiria que Gumiho dormisse consigo. Um ômega podia sonhar, não é?
Perto da saída, considerava ir direto para casa ou parar em algum lugar para comer primeiro quando sentiu o celular vibrar no bolso do moletom. Considerou ignorar a primeira notificação. Sua mãe havia aprendido a mandar SMS com digitação por voz — uma catástrofe — e agora todas as suas demandas eram reunidas numa única mensagem. Ela perguntaria onde e com quem estava. Quando pretendia voltar para casa. Quão mais seguro seria se estivesse em casa. Ele podia até ouvir sua voz chorosa a casa frase. Não estava psicologicamente preparado para confortá-la ainda. Talvez comer alguma coisa e andar por aí fosse melhor.
Alguns passos arrastados e havia passado da entrada. Uma nova notificação e ele parou abruptamente. Seyeon pegou o celular do bolso com a delicadeza de quem desarma uma bomba, e esperou pelo pior. A gargalhada que lhe escapou enquanto lia a mensagem o pegou de surpresa. Não esperava que Haeryeon falasse consigo aquela hora. E não por que não podia, só imaginava que ela ainda estivesse correndo de um brinquedo a outro, como havia visto ela fazer mais cedo.
O celular voltou ao moletom, as mãos aos bolsos, e os pés na direção oposta a que pretendia. Entrou novamente mais seguro de si — certo de onde precisava ir e irradiando uma tranquilidade que não existia segundos atrás. E não precisou muito esforço para a encontrar no meio daquela bagunça. Nunca precisou mesmo. Sorriu mesmo que ela não pudesse lhe ver e se aproximou com cuidado para não a assustar.
“Hae-ya”, chamou pouco antes de sentar ao seu lado, “não acredito que só agora lembrou de mim”, provocou com um sorrisinho, e estendeu a mão para segurar a dela — um gesto tão comum entre eles que era quase difícil evitar — e trazê-la para perto de seu rosto. Nunca conheceria as notas únicas que formavam o aroma da amiga; nunca, nunca saberia dar nome ao que sentia, mas encontrava na proximidade todos os sinais que precisava para saber como ela se sentia. Se a expressão e o estado em que estava já não fossem óbvios, sentia o peso do cansaço dela como se fossem seus. Como se a cada segundo mais perto, tomasse para si o peso de seus ombros. Suspirou, e relaxou sobre o banco como ela, para que seus rostos estivessem próximos e deitasse a cabeça sobre a sua. “Não queria ficar aqui… Estou com fome. Não acha melhor pagar meu jantar?”.