Em um segundo para o outro, toda a sua vida havia sido comprometida, a linha tênue que o separava da insanidade foi estabelecida por apenas uma ligação. Dave estava perdido, não sentia mais o chão sob seus pés a cada passo despojado que dava sobre o solo, vagando sem nenhum rumo previamente decidido, sustentando um corpo sólido, oval e pontudo entre ambas as mãos, uma bola de futebol americano velha e desgastada, a sua primeira, inclusive.
Por onde passava, sem perceber, atraia olhares dos pedestres noturnos, como um imã. Alguns o olhavam com curiosidade, outros o olhavam torto em desaprovação e também tinham os – mínimos – olhares de compreensão. A atração da atenção não incomodava o rapaz que vagava ausente de destino, nem ao menos o fazia se questionar do porquê.
Após minutos que se assemelhavam a uma eternidade, encontrou-se numa rua exclusivamente comercial, algumas lojas estavam fechadas devido o horário incomum para se fazer compras, outras exibiam os seus chamativos painéis de neon indicando que era aberto 24 horas. Olhou para os lados, não visualizou qualquer indício de ser vivo, indicando que a rua estava deserta, então, sentou-se na calçada praticamente se jogando, os joelhos cedendo a vontade de desabar, não aguentando o próprio peso do corpo, ou sequer da existência.
Aconchegou as costas num painel de vidro que transparecia uma cortina vermelha, atrás da mesma deveria haver uma vitrine, omitida em tal horário para evitar furtos. Repousou a bola sobre o colo e escorregou a mão direita até um dos bolsos da calça a procura de um maço de cigarros, fechando os dedos em torno do mesmo ao encontrar e puxando-o para fora. Encaixou um cigarro com pressa entre os lábios entreabertos e o acendeu com um isqueiro, os dedos trêmulos dificultaram o ato.
Fechou os olhos como se fosse uma necessidade ditada pela natureza, revelando olheiras acima da maçã do próprio rosto, as marcas escurecidas que se destacavam em meio a pele âmbar eram frutos da privação de sono juntamente das lágrimas que corriam desbandeiradas na noite anterior, ou das noites anteriores, ele nem ao menos conseguia distinguir quanto tempo se passara desde a sua perda.
Encontrou ali, no silêncio da noite de uma rua comercial deserta – exceto pelo próprio rapaz e alguns raros balconistas de lojas pequenas – uma oportunidade de fuga da realidade, a escuridão que vetava a própria visão o impedia de ver a fumaça do cigarro liberada através das narinas se dissiparem no ar, e por vários momentos, e pela primeira vez naquele dia, ficou quieto, sendo os únicos movimentos perceptíveis o seu peitoral em ascensão e declínio de uma respiração pesada.
O som dos gravetos partindo debaixo da sola das botas era a única coisa que permeava a noite. Costumeiramente, a companhia exclusiva de seu próprio corpo costumava servir-lhe como bálsamo, como testemunha de ordem. No entanto, algo incorpóreo fixava-se naquela ocasião, uma sensação densa pontuada por uma lufada de ar carregada eletricamente ou pela contração sútil e involuntária dos músculos dos ombros. Willa atravessava um amontoado de árvores e praguejava a própria instabilidade. O som que ouvira vindo dali apenas segundos atrás não mais parecia uma possibilidade, e ela não era particularmente afeiçoada à perspectiva de gastar o que poderiam ser minutos essenciais de ronda explorando uma desculpa de um bosque.
Cravando o calcanhar no solo seco, impulsionou o corpo e subiu o pequeno morro que dividia o amontoado de árvores da civilização. De imediato, uma adição ao cenário conhecido nos instantes anteriores de patrulha obrigou que parasse. Era uma silhueta, apenas, abaixo das luzes, mas Willa estreitou os olhos suficientemente e discerniu que se tratava de um homem. Imóvel. A policial empurrou para os fundos da consciência a sensação de intangibilidade que a súbita suspensão do ar forçou em seu estômago e deu um passo a frente. Seja o que fosse, o indivíduo do outro lado da rua parecia repousar. Arriscou outro conjunto lento de passos, cobrindo com a palma da mão a arma acoplada ao quadril. “Sir? I’m officer Marten,” Ela pronunciou, suficientemente alto para que a sílaba fosse carregada até alguns metros adiante, onde atingiria os ouvidos alheios. “All citizens are to be sheltered at this time of night. Eu preciso de identificação.”