losing my religion — open
Nunca deve se julgar a força de um homem por seu porte físico. A força que o rapaz usava para conter as lágrimas e impedi-las de rolar quando já estavam marejando-lhe os olhos era imensa, totalmente desproporcional – no sentido de grandeza – a sua estrutura. O ato era como segurar uma corda grossa e em atrito, doía, machucava a cada segundo que passava, mas a dor de segurar era mais suportável do que a dor que acompanhava as lagrimas fluindo num fino córrego sobre as bochechas até, por fim, secarem sobre a derme pelo efeito do clima, ou, encontrarem seu fim em pingos no chão.
O lado oposto da rua em que se encontrava tinha uma loja de eletrônicos, a mesma fechada por pura sensatez do dono e dos funcionários em relação ao contexto que girava em torno do mundo ou apenas por uma questão simples de horário. Essa tal loja possuía um letreiro em neon vermelho, várias luzes de LED piscando previamente programadas por um computador no intuito de reproduzir um padrão do nome do estabelecimento piscando, pulando e até mesmo acendendo e apagando numa variação suave.
Essas luzes, apesar do tamanho das capsulas transparentes serem reduzido, eram intensas a ponto de contornar e acentuar os traços do rosto masculino de Dave para aqueles que poderiam vir a visualiza-lo, enaltecendo as definições que já eram bem aparentes, além de dar um aspecto rubro que harmoniosamente se mesclava em degrade na pele naturalmente escura. Além da iluminação dos escandalosos letreiros, dois a três postes erguidos em toda a extensão da rua se encarregavam de iluminá-la em ângulo uniforme.
Tais postes projetavam sombras em qualquer objeto que interceptasse o trajeto original dos fótons até o chão, isso incluía alguns carros dispostos próximos ao meio fio, um deles não estava em uma distância tão grande de Dave, o rapaz podia ver a silhueta estendida sobre a calçada, assim como também podia enxergar uma anomalia anexada a sombra, algo como uma coluna curvada.
Semicerrou os olhos assim que sua atenção se fixou na silhueta, a mente passou a trabalhar em possibilidades, tentando chegar a uma conclusão de ser apenas uma deformidade do cérebro fadigado ou algo como alguém o espiando, mantendo a guarda alta do momento em diante que notou. Num segundo para o outro, a anomalia desapareceu, ficando apenas a sombra do carro projetada sobre a calçada cinzenta.
Elevou o olhar do chão quando escutou algo, ao lado do automóvel estava de pé o possível e quase certo dono da silhueta adicional. Em reflexo, Dave postou-se de pé em um pulo, o cigarro caiu dos lábios entreaberto de surpresa durante o impulso do corpo para cima e passou a bola de futebol americano para a mão direita, firmando os dedos em torno da forma aerodinâmica e a posicionando para um provável arremesso ofensivo contra a nova presença.
De imediato, não respondeu o Ei, apenas continuou com o corpo admitido de uma postura ofensiva, mirando a bola num trajeto invisível traçado pela própria mente. A voz do mais novo, no entanto, não portava nenhum sentimento de maldade oculto no tom. Aqueles os quais o rapaz falava não eram nomes familiares para Dave, que franziu o cenho tentando vasculhar nas lembranças algo relacionado aos tais.
Mirou o olhar para cima com cautela e notou uma placa de padaria, não era escandaloso como os outros estabelecimentos comerciais que compartilhavam o distrito, mas ainda assim era chamativo. Em algum lugar da fachada que Dave não conseguiu distinguir com seu cérebro acelerado assimilando tudo e jogando informações na consciência, havia algo relacionado aos nomes que o estranho havia citado.
— Eu... — Pela primeira vez nas últimas 48 ou possíveis 72 horas, tencionou os músculos da boca e agitou as cordas vocais para reproduzir algum som compreensível para outro humano. — Não conheço, lamento. — Ainda com o cenho franzido em dúvida, ou melhor, confusão, desmanchou a postura agressiva e abaixou a mão que erguia a bola oval no ar, reconhecendo a ausência de ameaça iminente daquele que o viera procurar.
Não tardou para o número de presentes naquela rua expandisse de 2 para 3. Em passos lentos e cautelosos, alguém se aproximava mesclado na noite, fugindo do campo de visão de Dave, vindo mais especificamente por suas costas. Então, se pronunciou numa abordagem firme após uma conclusão de um bom posicionamento daquela que tomava proximidade.
Confuso, buscou com o olhar a nova aparição ao lado ou nas proximidades do rapaz outrora escondido atrás do carro, até que alguns segundos se passaram e a conclusão de que estaria às suas costas veio. Girou em torno do próprio eixo, visualizando a mulher em questão. Recuou um passo para trás quando notou a mão englobando algo no intuito de omissão, suas experiências noturnas no subúrbio indicavam a presença de algum tipo de arma.
— Não... — Tentou formular alguma frase em poucos segundos, mas nada além de uma palavra monossilábica saiu de sua boca. Nas condições em questão, Dave não compreendia a presença da suposta policial na rua, ou do garoto que estava perguntando sobre um casal. Alternava o olhar entre eles de forma rápida, tentando estabelecer uma conexão entre ambos por alguma informação implícita que os mesmos deixavam escapar por postura ou roupas, mas não encontrava nada.
Estava, de fato, amedrontado. O peso do próprio corpo parecia ser algo além de que seus joelhos pudessem sustentar. — Eu não estou com nenhuma identificação... — Afirmou em um volume semelhante ao de um sussurro, porém perfeitamente claro para quem o rapaz direcionou a mensagem. A voz saiu fraca, rouca e cortada, numa mistura de conflito de ideias e medo. — Sério, eu só... essa bola... cigarro e um isqueiro, tudo o que eu tenho... eu... é. — As palavras praticamente cuspidas saíram em velocidade considerável, uma palavra parecia ter o a missão de atropelar a outra, talvez nem fosse ao menos compreensível.












