[ele/dele. jacob elordi] —— você não sabe quem eu acabei de encontrar na praça das sete famílias. isso mesmo, lucien montanari! ele é um licantropo que atua como bombeiro aqui em ninivae, sabia? ouvi dizer que possui cinquenta anos, embora aparente ter vinte e cinco anos. os ventos sopraram que esse rostinho angelical é leal, mas são os rumores sobre ser teimoso que ameaçam a nossa paz. será que teremos problema em lhe estender a mão?
𝐜𝐨𝐧𝐧𝐞𝐜𝐭𝐢𝐨𝐧𝐬. 𝐩𝐢𝐧𝐭𝐞𝐫𝐞𝐬𝐭.
✶ 𝟶𝟶𝟷 ╱ 𝐁𝐀𝐒𝐈𝐂𝐒 .
nome completo: lucien montanari. espécie: licantropo. idade: cinquenta anos, aparenta vinte e cinco. local de nascimento: ninivae. orientação: bissexual. ocupação: sargento do corpo de bombeiros de ninivae. traços positivos: corajoso, leal, estratégico. traços negativos: teimoso, frio, calculista, orgulhoso.
✶ 𝟶𝟶𝟸 ╱ 𝐁𝐀𝐂𝐊𝐆𝐑𝐎𝐔𝐍𝐃 .
lucien tinha memórias de sua infância antes de ter sido sequestrado, é claro. a imagem de sua família reunida, das noites tempestuosas com discussão dentro de sua casa e uma sensação de constante incerteza. a casa dos montanari não era violenta com ele diretamente, mas também não era o ambiente para uma criança crescer. obcecados com poder e em manter a ordem na alcateia, os pais de lucien esqueceram que ao serem quem eram, eles botaram seu próprio filho em perigo. eram tão leais a alcateia que nem ao menos perceberam que o maior alvo havia sido posto na testa daquele que eles mais deveriam defender. pouco tempo depois de completar quatro anos, lucien foi levado.
sua infância depois disso se resumiu a um quarto, um corredor escuro e um banheiro. as janelas eram cobertas e com grades e ele não lembra ao certo quanto tempo passou lá dentro. há uma estimativa, mas ele foi privado de muita coisa. o plano da família neroni era simples: vingar a morte de um deles e negociar territórios com a alcateia da família de lucien. iriam usar lucien como isca, matar alguns licantropos e conquistar parte do que haviam perdido no último impasse entre as famílias. parecia simples o suficiente, mas houve um problema de percurso quando a matriarca acabou criando um vínculo com o menino. mesmo com o ódio entre as famílias, ela achou nele o conforto de uma mãe que havia acabado de perder um filho, que havia se recusado a beber sangue, e impediu que lucien fosse morto.
lucien cresceu trancafiado, como um prisioneiro, mas recebendo carinho e amor da mulher que salvou sua vida. isso poderia ter um final melancólico, trazendo a conexão entre duas pessoas vulneráveis apesar de tudo, mas essa narrativa foi interrompida quando lucien chegou aos sete anos. incrivelmente novo, mas já há três anos nas mãos do neroni. apesar de tudo, ele era um licantropo, um lobisomem. viver com aquelas criaturas se tornava uma tarefa mais dolorosa a cada dia. lucien passava semanas acamado, com febres constantes e dores incapacitantes. grazia mandava que ninguém chegasse perto dele além dela, mas mesmo nessas condições, lucien não aguentaria por muito tempo. quando sua primeira transformação chegou, ele estava magro e extremamente fraco. com a pele pálida e grudada ao corpo como couro curtido. a dor que ele havia aguentado nos últimos meses não foi nada comparado a dor da transformação. fora tanto sofrimento, que até hoje lucien tem dificuldade de lembrar com clareza desse momento. tudo é nublado, com apenas o rosto de grazia aparecendo no meio da confusão.
lucien era tão novo que a família neroni acreditava ter criado um monstro. era acreditado que ele não iria passar das primeiras transformação, mas a cada uma ele se tornava mais forte como lobo. ele nunca tentou lutar para fugir, pois tinha uma consciência de que seria uma luta perdida. sua família ainda existia, ele sabia disso ao escutar os uivos do lado de fora da janela, longe como o mar, então eles iriam achar ele algum dia. ele precisava acreditar nisso. os anos se passaram e ele se adaptou a família, mesmo que preso. além de grazia, lucien ganhou irmãos vampiros. eles não podiam ficar perto de lucien, a mando da mãe, mas eles ainda tentaram se conectar com o lobo do sótão. brincavam como podiam, trocavam cartas e até conversavam pela janela. lucien encontrou conforto na vida que tinha, mas também encontrou o ódio. com quinze anos, lucien ainda tinha o corpo de um garoto de oito, e de alguma maneira ele sabia que isso era errado. ele perguntou aos irmãos vampiros quantos anos eles tinham quando foram transformados. onze e dezessete. eles eram enormes. e lucien era um suspiro de garoto. não fazia sentido e nem era justo. ele recebia amor, porém estava longe de sua família, tendo que sobreviver a dor física que lhe era acometida quando ficava mais perto das criaturas que habitavam naquela casa. da única pessoa que lhe abraçou em anos.
aos vinte e um, lucien conseguiu fugir pela primeira vez. as trancas de prata ficaram abertas pela primeira vez e ele aproveitou o momento para planejar algo. com apenas algumas fugas do quarto, lucien agiu de maneira inconsequente. ele simplesmente ateou fogo na mansão. ele não se importava. ele queria ir embora. nenhuma relação doentia era o suficiente para o manter ali. porém… aquela mulher o havia criado. rapidamente as chamas se espalharam e rapidamente o remorso o corroeu. ele não podia fazer aquilo. a única coisa que lucien pode fazer todos esses anos naquele lugar era ler. nada mais. ele não conhecia tecnologia ou qualquer outra forma de entretenimento. eram só livros que estavam disponíveis para ele, e, assim, lucien aprendeu muitas coisas. mesmo com as chamas se espalhando, lucien conseguiu conter o fogo e apagá-lo. uma boa parte da casa foi queimada, mas poderia ter sido bem pior. quando ele conseguiu sair da casa novamente, uma multidão havia se juntado. e não eram só vampiros. ele viu rostos diferentes, pessoas com expressões apavoradas e a família neroni sem poder explicar o motivo de ter licantropo saindo de sua casa. mas lucien podia. ele explicou rapidamente a polícia que estava passando quando viu a casa em chamas e decidiu ajudar. foi tudo muito rápido, mas lucien sempre fora esperto para o seu próprio bem. mesmo com a vida que tinha tido, ele sabia o que dizer e o que fazer. estando machucado, ele ficou na custódia do serviços de emergência e sabendo ainda seu nome completo, ele pode voltar para casa depois de quase vinte anos.
grazia ainda o visita, ele sabe disso. ele sente sua presença na noite, mesmo já tendo cinquenta anos. agora, ele aparenta ter a mesma idade que ela tinha quando os neroni o sequestraram. ele não é mais uma criança, é um adulto funcional. apesar disso, ele ainda carrega as sequelas de ter vivido vinte e um anos apenas com vampiros. seu modo de viver foi mudado para sempre, seu jeito de agir, seus hábitos e seus hormônios. lucien é um lobo alfa. ele nasceu para liderar, não para seguir. isso havia ficado bem claro para ele desde a infância, mas seu período vivendo com vampiros afetou sua biologia. mesmo ainda sendo um alfa, lucien tem dificuldades, como seu ciclo hormonal completamente desalinhado com os dos outros lobos, tendo seus picos de raiva e instabilidade vem tarde demais e ele acaba perdendo o momento. também sua resposta ao perigo não é a de um lobo normal, tendo se tornado mais frio e calculista. tem dificuldade para aceitar submissão dos outros, pois ainda associa submissão ao ato de sobrevivência. é mais ativo durante a noite, inventando os horários das pessoas próximas a ele. lucien tenta ignorar a incerteza em seu peito que isso causa, sendo essa uma das maiores questões. se ele se adaptou tão bem a viver com vampiros, talvez não devesse ser um alfa.
felizmente, sua família o acolheu de volta. depois de voltar, lucien descobriu que sua mãe morreu e isso acendeu mais a suspeita de que ele também já estava morto. ele odeia esse sentimento, mas ele ressente sua família por terem assumido sua morte. há uma parte dele que deseja que existisse outro fator que impediram eles de lutar por sua vida, mas não há. eles só desistiram. mas lucien não desistiu. ele sofreu as dores, a tortura mental e física de aguentar aquela vivência e mesmo assim se tornou um licantropo, um alfa e um líder.
se tornou bombeiro por seu ato heroico ao salvar a casa dos neroni. o corpo de bombeiros o aceitou de braços abertos e lucien passou em todos os treinamentos e provas com excelência. rapidamente o corpo raquítico que havia o trazido até ali se tornou um corpo ativo e um corpo atlético, o levando até o posto de sargento do corpo de bombeiros. ocupa o cargo há dez anos e não tem intenção de subir de cargo.
✶ 𝟶𝟶𝟹 ╱ 𝐇𝐀𝐁𝐈𝐋𝐈𝐓𝐘 .
resistência física. lucien possui resistência física excepcional, um poder raro mesmo entre lobos alfas. seu corpo aguenta ferimentos profundos, longos períodos sem descanso e esforços extremos sem colapsar. mesmo no seu período com os neroni e com o seu corpo definhando, lucien não morreu, quando qualquer outro ser teria. ele aguentou a presença dos vampiros e seu corpo se manteve firme a vida, mesmo quando parecia impossível. por ter aprendido a ignorar sinais de exaustão durante os anos entre vampiros, lucien frequentemente ultrapassa o limite seguro do próprio corpo. ele continua lutando quando deveria recuar, permanece em pé quando já deveria cair. ao entrar para o corpo de bombeiros, teve extrema facilidade em criar corpo e a passar nas provas físicas.
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✶ 𝖘𝖙𝖆𝖙𝖚𝖘 ╱ closed.
@naviradadanoite : ❝ he seems rather interested in you. ❞ + dia um.
ele sabia que precisava ser o mais profissional possível no trabalho, mas quando tinha um tempo livre, lucien gostava de aproveitar um pouco do carinho dos civis. bombeiros podiam comer os presentes que ganhavam das pessoas. eles não eram potenciais alvos para envenenamento ou coisas do tipo, como eram os policiais. e foi com esse sentimento que ele havia aceitado uma caixa de macarons de um homem. não foi um flerte direto, mas ele se sentiu perfeitamente lisongeado e confiante depois disso. sentado aproveitando seu presente, ele nem ao menos percebeu a presença de navira. lucien checou seu relógio antes de responder, calculando quanto tempo tinha para entreter a ideia de uma conversa com sua ex. ele enfiou mais um macaron na boca, utilizando sua mão livre para fazer no golden retriever que estava apoiando seu queixo no joelho de lucien. "o cachorro ou o dono?" pois além de dar um presente para lucien, o homem também achou que seria aceitável deixar seu cão com o bombeiro para se preparar para a corrida. "qualquer seja a resposta, eu estou feliz com ambos. eu nunca neguei que gosto de uma atenção positiva." com alguém que o conhecia tão bem quanto navira, lucien nem ao menos tentaria ser alguém diferente para manter aparências.
✶ 𝖘𝖙𝖆𝖙𝖚𝖘 ╱ closed.
@voutelynchar : ❝ what are you doing here? ❞ + dia seis.
suas transformações não estavam sendo mais tão errôneas quanto tinham sido nos últimos anos, mas desde o baile e o encontro que teve com mavrick, elas pioraram novamente. ele não sabe se foi a carga emocional ou as presas de mavrick cravadas em seu pescoço, mas algo mudou. depois de uma lua cheia caótica, lucien acreditou que estava seguro. os machucados foram muitos, mas nenhum profundo demais. seu novo sistema estava funcionando e por mais que as algemas o machucassem, ele não estava mais deslocando nenhum osso e nem perfurando seu corpo muito profundamente. aos poucos, mas certamente, ele estava se adaptando a se transformar em um ambiente controlado. mas algo permanecia desde a última lua cheia. seu corpo ainda não parecia ter descansado. sua temperatura não baixava de maneira alguma e seu coração parecia que ia sair da boca a qualquer segundo. mesmo assim, ele seguiu indo nos eventos da semana e seguiu fingindo que nada estava acontecendo. no sexto dia, seu corpo finalmente chegou ao seu limite. ele sabia o que estava por vir e mesmo assim ele não conseguiu evitar, de mãos atadas perante a sua natureza. ele fugiu para o mais longe que conseguia e na caverna que conhecia tão bem, ele deixou sua transformação vir. garras, ossos se modificando e dobrando, presas inevitáveis. lacerações, uivos e gritos de dor e desespero. não foi como uma transformação normal, porque mais do que qualquer outra vez em toda a sua vida, lucien lutou contra ela. lutou com tudo que podia. em seus últimos esforços contra aquilo, ele quebrou pedras da caverna e tentou se trancar do lado de dentro, mas foi inútil. seu lobo saberia como sair dali num estalar de dedos, mas ele já não era mais apenas ele. apenas lucien. ele não conseguiu se trancar no seu espaço seguro e não conseguiu se esconder do mundo. antes que pudesse sair correndo, algo dentro de si agiu no costume acima de seu próprio bem. enfiou suas garras nas próprias costas, na própria barriga, nas coxas, nas suas panturrilhas. era agonia pura e um desespero mortal para não machucar outras pessoas. o mesmo desespero para se livrar das amarras agora era o mesmo para se impossibilitar de sair daquele lugar. e essa é a última coisa que ele se lembra antes de seu lobo tomar conta por completo de sua mente. ele sabia que aquilo não era normal para um licantropo e ele havia chegado num nível tão profundo de trauma a ponto de causar aquilo, mas ele simplesmente não sabia como voltar atrás. a cada transformação, ele cavava ainda mais a sua própria cova. quando voltou a si, lucien não estava na caverna. ele ainda tinha garras nas mãos, suas presas ainda estavam para fora, mas ele era de novo. sua mão aos poucos voltava ao normal e ele observava, vendo também os cortes pelo seu corpo e a maneira como sua roupa estava encharcada de sangue. ele estava morrendo, era a breve conclusão que ele chegou. seus joelhos cederam e ele caiu no chão com um baque, ao mesmo tempo que escutou a pergunta incrédula de mavrick. "eu... eu..." ele tentou começar, mas não conseguiu. observou ao seu redor. ele estava no hotel, na frente de mavrick. o último lugar que ele queria pisar naquele estado. não machucado, isso era. transformado, era o que ele queria dizer. "mavrick..." e ele começou a chorar. não pela dor dos cortes, mas porque mesmo com todo o esforço que fez ao longo de todos os anos, ele ainda ia atrás de mavrick com o mínimo sinal de liberdade e sanidade. ele nunca mais poderia se transformar livremente. nunca mais. ele tentou racionalizar, mesmo entre as lágrimas, tocando um dos cortes na sua barriga, o maior. não era profundo, mas doía. como ele conseguiu chegar até ali mesmo tendo feito tudo isso? tudo isso, e em vão. lucien estava no gramado de mavrick, quase morto, enquanto a cidade inteira aproveitava um banquete do lado de dentro. e ele havia arrancado mavrick de lá. "eu preciso de sua ajuda." ele murmurou, entredentes. e não existiria mais ninguém para quem ele pediria aquilo. ele nem ao menos saberia.
✶ 𝖘𝖙𝖆𝖙𝖚𝖘 ╱ closed.
@dexdequandovcsefoi : ❝ that’s very calculating when you put it quite like that… ❞ + dia três.
lucien não sabia jogar xadrez perfeitamente, apenas o básico. e ele não estava muito confiante de fazer isso contra um agente do FBI. esses caras devem ser os maiores gênios do país, pelo menos é assim que ele sempre pensou quando pensava nas forças do outro lado do oceano. e ele era apenas um bombeiro. sabia salvar vidas, só isso. mas uma coisa que ele sabia, e isso pouco tinha a ver com a sua profissão, era blefar e enrolar pessoas. e ser calculista, é claro. lucien foi criado por vampiros e esse fator não era algo de se ignorar. ele observou os movimentos do outro, desde a menor flexão de sua mão até sua escolha de peça. "o movimento que você quase fez não seria uma boa, é bom que mudou de ideia. o seu cavalo não poderia fazer nada para você agora." e ele sabia que o outro iria no cavalo, mesmo que ele mal tivesse movido um músculo. posição de mão, mudança nos batimentos cardíacos quando olhou para a peça em específico. a resposta do outro fez com que o licantropo sorrise e ele sabia exatamente o que responder para uma provocação amigável. "eu assistia criminal minds quando era criança." exceto que ele não era uma criança quando criminal minds estreiou e sim já tinha seus trinta anos. apenas um detalhe.
✶ 𝖘𝖙𝖆𝖙𝖚𝖘 ╱ closed.
@hernameismarcelene : "you're the distraction." + dia três.
o dia de jogos tradicionais era o favorito de lucien. não apenas ele estava realmente disposto, como também sentia que era o dia que mais podia se divertir e gastar sua energia. longe dele querer ser um esteriótipo ambulante, mas ele era o tipo de pessoa que precisava gastar energia. com certeza nada relacionado com sua licantropia. depois de testar todos os jogos possíveis, só lhe restava a competição de dança e ele sabia que esse não seria o seu melhor momento. ele não sabia dançar, mas tinha entusiasmo, e ele esperava que isso fosse o suficiente para algo. depois de convencer marcelene, e não chegar muito perto dela enquanto sua cabeça ainda secava da pescaria de maças, ele sentia que já havia ganho o suficiente. os dois observavam os casais que já dançavam, analisando sua possível estratégia e foi quando ouviu o comentário dela. "o que? porque?" ele pareceu tão confuso quando uma criança abandonada, o que não era uma comparação boa para se fazer perto dela. "você quer jogar sujo?" havia entusiasmo em sua voz, quase inocente. houve uma época em que ele ainda tentaria disciplinar ela, mas esse tempo já passou.
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As coisas estranhas que aconteciam na cidade sempre eram automaticamente abafadas por datas comemorativas e os eventos que se seguiam destas. Anivia, no entanto, não se permitia abalar tanto pelas estranhezas até porque não sentia que isso faria real diferença em sua vida. É claro que, nesse caso, em Ninivae as coisas teriam, sim, impacto em sua vida, quer gostasse ou não. Por isso que o olhar estava mais afiado, mais concentrada e menos dispersa que outrora. As experiências macabras que presenciou em sua outra realidade no mergulho deveriam ser esquecidas por enquanto; naquele dia, pelo menos, não seria tão masoquista de desejar quebrar cabeça. É por isso que logo no início das comemorações apressou-se em fazer a média com a pessoa mais próxima de si. "Você não correu? Achei que iria te ver no palco recebendo o incrível prêmio." Ironizou, com um sorriso muito simpático delineado nos lábios. Ela cruzou os braços rente ao peito, analisando algumas pessoas que ainda batiam palmas. "Vejo como um ato muito fofo o de dar medalha até pra quem só ficou sentado... Não que eu esteja sugerindo qualquer coisa sobre você, canım, não é sobre isso. Mas já não tenho onde estocar as medalhas que ganho. Cheguei a ganhar um troféu uma vez, sabia? Eles revezam os ganhadores pra não ser injusto."
o bombeiro gostava de trabalhar. era parte essencial, quase inegável, de quem ele era e nasceu para ser. já se formavam quase vinte e seis anos no serviço e ele já havia visto de tudo, feito de tudo e principalmente se saindo maravilhosamente bem em ajustar seus plantões ao redor dos feriados. nesse caso, ele havia feio o melhor que podia, garantindo um plantão no primeiro dia de evento e estando livre pelo resto. mesmo sentindo que não estava perdendo grande parte da emoção, ainda era possível ver ele checando o relógio de tempos em tempos. o movimento estava calmo, então o tédio chegava aos poucos, principalmente enquanto ainda não podia voltar para o quartel. sua atenção foi chamada por anivia e ele abriu um sorriso tímido, sem graça. "bombeiros não participam desse tipo de competição com civis. não seria muito justo." deu de ombros, juntando as mãos atrás do corpo. seu uniforme justo ao corpo. ele não mentia quando se explicava. por mais que ele amasse correr e provas físicas, ele competir ali seria sem graça. não muito por seu lado bombeiro, mas sim por ser um licantropo, mas a desculpa era boa. "quão vitoriosa você é..." disse, sem muita admiração em sua voz. não porque achava pouco, mas porque aquilo pouco lhe importava. "eu acho que pouco importa o campeão. acho que a quantidade de quilômetros deveria aumentar e transformar isso numa maratona decente. aí não seria tanto sobre quem chega primeiro e só sobre quem chega." dar voltas numa praça não era tão simbólico assim, na sua opinião. "até ano que vem você deveria arrumar uma sala de medalhas e troféus, vai que a vitória volta para as suas mãos."
𝑓𝑙𝑎𝑠ℎ𝑏𝑎𝑐𝑘 — navira não interrompeu o caminho quando ele se aproximou. apenas desacelerou o suficiente para que aquilo deixasse de ser coincidência e se tornasse escolha — dele, não dela. seus olhos passaram por lucien com a mesma familiaridade silenciosa de sempre, como quem reconhece algo que já foi rotina e hoje é apenas… conhecido. ❛ existem.❜ concordou simplesmente, sem pressa. não havia tensão em sua postura, nem esforço em sustentar a presença dele — lucien nunca foi um incômodo, apenas alguém que esperou mais do que ela tinha a oferecer. ❛ mas eu nunca tive o hábito de buscar o pior cenário. ❜ inclinou levemente a cabeça. havia aprendido com malachai, por mais irônico que fosse o mentor ensinando sobre positividade. mas tudo tinha relação com os três pilares que regiam a magia. se não acreditasse que era capaz, talvez jamais fosse. ❛ está aproveitando a festa? ❜ era uma pergunta trivial, uma constante no relacionamento dos dois enquanto durou. navira então ajustou a barra do vestido em gesto distraído. ❛ imaginei que não frequentasse esse tipo de ambiente. ❜ o covil de vampiros, queria acrescentar. era um lugar que ela também evitava, não fosse élise naquela noite.
navira persistia, como uma maré subindo milímetro a milímetro, em ser absurdamente bela. era inevitável que lucien ficasse impactado sempre que chegava perto dela. era um lembrete de como conseguia estragar até a melhor e mais grandiosa das coisas. "então não me trate como tal." pediu, com um sorriso forçado nos lábios. desconfortável e ao mesmo tempo exatamente adequado. "isso também é um pouco de pessimismo, ao meu ver." e isso talvez fosse facilmente o pior lado de lucien e o que irritava a grande maioria das pessoas. ele tentava sempre amenizar as coisas. não era nem um otimismo cego e nem uma ingenuidade falsa. era a simples vontade de fingir que não tinha nada demais acontecendo ali. que tudo que havia passado podia ser só isso, passado. "estou, é tudo bem… diferente." ele não se esforçava para esconder que preferia uma vida mais humilde do que aquela que os montanari tinha. ele insistia em morar sozinho, em trabalhar, a fingir ser humano para aqueles que podia. era uma confusão tão grande dentro de si, que a terceira opção parecia mais viável. "eu não frequento, mas não pelos motivos que você imagina." o cheiro dos vampiros não lhe incomodava. era um lembrete agridoce de sua infância. "mas achei que hoje seria uma boa oportunidade de ver coisas interessantes," lucien olhou ela de cima abaixo, não de uma maneira voraz, mas apenas como se estivesse estudando os detalhes de seu vestido e de seu rosto, de cada centímetro de pele exposta. "você está linda, navira."
𝒇𝐥𝐚𝐬𝐡𝐛𝐚𝐜𝐤 mavrick gostava de se convencer de que estava no controle, de que podia sair dali quando quisesse, de que aquilo era só mais um jogo onde ele ditava o ritmo e arrancava o que queria antes de ir embora. mas se isso fosse verdade, o corpo dele não reagiria daquela forma. não estaria quente, tenso, alerta a cada movimento do outro, como se nada tivesse mudado, como se aquela ligação não tivesse sido quebrada do jeito mais violento possível. a mandíbula contraiu com força, o maxilar marcando sob a pele enquanto ele absorvia cada sílaba, sustentando o próprio reflexo no espelho como se aquilo fosse o único ponto de controle que ainda lhe restava. aquilo inflamou algo imediato, uma irritação que não vinha só do ego ferido, mas da consciência incômoda de que lucien estava, de certa forma, certo. o queixo dele ergueu devagar, numa postura de enfrentamento, e o olhar subiu até encontrar o reflexo do licantropo, querendo mirar em algo que pudesse atingir. ‘ você acha que eu estou me sentindo vitorioso agora? ’ soltou um sopro pelo nariz, quase um riso sem humor, cheio de desprezo. ‘ deixar você se aproximar de mim novamente é uma derrota. eu devia sentir nojo de você. ’ o olhar escureceu, pesado de algo que ia além da irritação, algo mais difícil de admitir até para si mesmo, e ainda assim ele não quebrou o contato. ‘ então não aja como se eu estivesse ganhando alguma coisa aqui. se ainda me resta alguma dignidade… vai ser pra ser superior a você, sim. mas não com o mesmo prazer de antes. ’ aquela era uma verdade que lucien não podia contestar. ainda havia desejo, era óbvio na forma como o corpo do vampiro ainda respondia. a presença de lucien ainda tinha o mesmo efeito, a mesma força, o mesmo impacto inevitável. o problema era que agora vinha acompanhado de algo que não existia antes. um ódio direcionado tanto para lucien quanto para si mesmo.
não acreditou na desculpa esfarrapada de lucien. seus sentidos não falhavam, e muito menos quando se tratava de lucien. o problema é que, pela primeira vez, reconhecer isso não vinha acompanhado de certeza. quatro anos eram tempo suficiente para mudar alguém, e a possibilidade de não conhecê-lo mais como antes não era algo que ele aceitava bem. e o pior era que mavrick não tinha direito de ultrapassar essa linha. a constatação veio junto com a fala seguinte, e a irritação subiu de imediato, atravessando o corpo dele antes mesmo que pudesse ser contida. a resposta saiu no mesmo impulso, carregada de um incômodo que ele nem tentou disfarçar. ‘ não, eu não tenho. mas de quem é a culpa por isso? ’ mavrick nunca implorou e não começaria agora, ainda mais depois que lucien deixou claro que não o queria mais na sua vida. o maxilar travou de novo, mas dessa vez ele não insistiu. não porque não quisesse, mas porque havia um limite ali que ele não pisaria naquele momento. lucien estava machucado e, por mais que aquilo o incomodasse mais do que deveria, ele não faria nada a respeito. vestiu o desinteresse como uma segunda pele. ‘ meu orgulho não vai ficar ferido por você não me dar uma resposta para algo que eu não me importo. é irrelevante para mim. ’ não era. mas lucien não precisava saber.
a mudança veio no instante em que o outro decidiu não continuar naquela direção. o toque dos lábios no pescoço foi o suficiente para quebrar a rigidez do corpo dele quase instantaneamente. mavrick soltou um som baixo, involuntário, quando sentiu a mão na sua cintura puxando-o para mais perto, e dessa vez não houve resistência. a mão dele segurou firme a nuca de lucien, guiando e pressionando levemente como se exigisse mais. o pescoço permaneceu inclinado, exposto, aceitando cada toque. toda a irritação que antes marcava o rosto dele se dissolveu com uma facilidade irritante, substituída por algo mais urgente. as palavras de lucien vieram próximas, carregadas de uma necessidade que mavrick reconhecia muito bem. os olhos desceram para a boca dele por um segundo, avaliando a distância mínima entre eles, o tipo de proximidade que normalmente terminaria de uma forma previsível. e, ainda assim, mavrick não o beijou. ele travou ali por um instante, lutando contra um impulso que, em qualquer outra situação, já teria seguido sem questionar. ‘ então seja... seja um bom garoto para mim. ’ a mão dele saiu da nuca e subiu pelo rosto de lucien até segurar seu maxilar com firmeza suficiente para controlar o movimento. sem aviso, pressionou o indicador e o dedo médio contra os lábios dele até forçar a passagem. ele manteve ali por alguns segundos, explorando e sentindo o calor da boca do licantropo, querendo arrancar cada gemido que o pertencia. depois, mavrick deu um passo para trás e puxou a própria camisa sem cerimônia, livrando-se do tecido em um movimento brusco, quase impaciente. a calça veio logo em seguida, junto com a cueca; tudo sendo descartado sem cuidado algum, jogado em qualquer direção da sala. quando voltou a se aproximar, não havia mais resquício da contenção anterior. a distância foi anulada de novo, o corpo colando ao de lucien enquanto a boca dele descia pelo tronco exposto, não evitando as cicatrizes. pelo contrário. passou por elas como passou pelo resto, reconhecendo cada irregularidade sob os lábios. seus dentes coçavam e a necessidade primitiva de marcar o homem ressoava em sua mente. em vez disso, suas presas apenas roçaram levemente a pele alheia. ao mesmo tempo, as mãos dele já estavam na calça de lucien, puxando o tecido para baixo. depois de conseguir o que queria e admirar o corpo do ex noivo com os olhos famintos, mavrick já se sentia impaciente. ele desejava lucien desesperadamente. afundou as mãos nos fios do outro novamente e puxou a cabeça dele para trás até que estivesse olhando em seus olhos. ‘ mantenha os olhos abertos. eu quero que você observe enquanto eu te como e te faço gozar. ’ soltou o outro apenas o suficiente para reposicioná-lo, girando o corpo de lucien até deixá-lo de frente para o espelho. mavrick permaneceu atrás, sua ereção roçando contra a pele do licantropo. a mão desceu pela coluna de lucien e a palma pressionou firme o bastante para forçar o corpo dele a se ajustar, inclinando-se mais para frente, adaptando a posição à diferença de altura entre eles. ‘ assim. olha só para você. ’
amor era uma coisa difícil de explicar. mesmo com anos separados, mesmo com tanto ressentimento criado ao longo dos anos, lucien ainda queria tanto mavrick que doía. seu peito queimava ao escutar as palavras do vampiro. nada disso parecia justo, mas ele não podia agir sobre seus sentimentos. ele não podia tentar se explicar, não podia deixar que esse ressentimento bobo falasse mais alto do que sua motivação maior. e nada disso jamais seria maior do que mavrick. "eu acho que você está bem satisfeito em saber que mesmo depois de todos esses anos, eu ainda aceito o que você está disposto a me dar." foi honesto, mesmo que o outro não visse as coisas dessa maneira. talvez lucien estivesse apenas papel de idiota e se expondo cada vez mais. se ridicularizando mais, mas ele queria que o outro esquecesse a raiva que sentia dele, mesmo que por um momento. queria ver o amor que um dia sentiram um pelo outro estampado no rosto de mavrick, nem que fosse por um segundo apenas. "você nunca vai sentir nojo de mim." esse fato era óbvio o suficiente. e era recíproco. existiam poucas coisas no mundo que mavrick poderia fazer a ponto de fazer lucien sentir nojo dele e todas elas eram impossíveis. então não existia mundo, realidade, linha do tempo em que eles sentissem repulsa um pelo outro. eles apenas precisavam lidar com aquilo e lidar com as ramificações das diferentes fases que viviam. no momento, a coisa mais estranha era aquele desejo imenso que pairava entre os dois. teoricamente, eles deveriam manter a distância. teoricamente, lucien deveria garantir isso. teoricamente, mavrick deveria odiar ele. querê-lo morto, até. e isso jamais seria mais forte do que o amor e o desejo dos dois. era uma sentença quando separados.
a última frase cortou o coração de lucien de uma maneira inesperada, profunda demais para alguém que jurava já estar preparado para qualquer golpe vindo dele. “mas não com o mesmo prazer de antes.” as palavras ficaram ecoando, repetindo-se como uma sentença impossível de ignorar. então por que ele estava ali? então por que mavrick ainda o segurava daquela maneira, com firmeza suficiente para não deixá-lo ir? se não era pelo prazer, era pelo quê? lucien ainda escolheria o outro religiosamente, sempre que pudesse. lucien sentiu os olhos marejarem, a visão embaçando com a mistura confusa de mágoa, amor e uma raiva que ele não sabia direcionar. quis afastá-lo, dar as costas, juntar o que restava da própria dignidade e ir embora antes que o pouco que ainda tinha fosse esmagado de vez. ele controlou seus impulsos, ficando quieto enquanto mavrick falava, acreditando ser digno de cobrar lucien por algo. ele era, mas lucien precisava acreditar que não. precisava fingir ter o controle daquilo tudo. "a culpa sempre é minha. eu sei bem disso." não podia negar. havia quase matado hemrick. nada que fizesse podia mudar isso. "mas eu acho que tudo está bem do jeito que está. nossa dinâmica sempre foi essa. então lembre-se bem que você não tem direito a nada sobre mim." tentou colocar um ponto final naquilo. se lucien não podia falar e mavrick não se importava, então o assunto estava morto. o vampiro sempre iria assombrar sua vida e lucien jamais deixaria de cuidar da vida dele. já a vida de lucien, isso pertencia a ele apenas. sempre foi assim. porque ele se importava demais. deixar com que o outro viva sua vida em paz não era uma opção. de uma maneira ou de outra, ele também assombrava mavrick e mais cedo ou mais tarde ele iria descobrir o motivo de suas cicatrizes. mas não agora...
deixou ser guiado num ritmo que ele conhecia bem, quase religiosamente. como um ritual, lucien sabia o que fazer e o que dizer. era uma oração, era se ajoelhar diante de deus e pedir clemência por seus pecados. eles haviam feito isso tantas milhares de vezes, e ainda era a visão mais bela e única daquele universo. mavrick aceitando, entre seus pensamentos conturbados, que aquilo iria acontecer. que queria um licantropo, que queria o homem que aquele garoto bobo de vinte e dois anos havia se tornado. dia após dia, moldado especificamente para ele. feito para a sua vida, destinado a sua pele. o calor entre os dois aumentava e lucien se dividia entre derreter com o toque dele e beijar tudo ao seu alcance. as palavras de mavrick arrancaram um gemido de seus lábios entreabertos e ele não controlou o movimento de seus quadris, que foram de encontro a coxa do vampiro, buscando uma fricção e um alívio momentâneo. sentiu-se como um idiota, mas sabia que era isso que mavrick queria. lucien desesperado, na palma de sua mão. lucien sentiu um rubor tomar conta de seu rosto, enquanto ele descaradamente se esfregava contra mavrick. "é tudo o que eu quero. você..." e ele iria dizer mais alguma coisa, ele pretendia terminar aquela frase, mas da maneira como estava já era boa o suficiente. mavrick era tudo que ele queria. como quer que fosse.
mas o que cortou sua frase realmente foi mais do que apenas essa revelação, mas sim a mão agarrando seu rosto. a expressão dele poderia parecer de dor para quem observava de fora, mas aquele que o conhecia completamente sabia que não era isso. lucien estava tentando se controlar. ele precisava se controlar quando o assunto era mavrick. ele precisava aceitar que nesse momento ele seria submisso ao outro e que iria aceitar aquilo de uma maneira ou de outra. ele queria aquilo e a dificuldade em aceitar a situação era parte da jogada. os dedos do vampiro chegaram perto de sua boca e lucien não pensou duas vezes, colocando-os em sua boca. chupou com certa pressão, fechando os olhos e pensando na imagem de mavrick embaixo de si, com suas pernas abertas e em cima dos seus ombros. era uma visão que ele não podia esquecer jamais e também a visão que ele lembrava ao deslizar sua língua devagar pela parte de baixo dos dedos, contornando as curvas de maneira que conseguia, sentindo a textura da pele, enquanto a umidade cobria tudo aos poucos. puxou os dedos um pouco mais para dentro, deixando que eles pressionem levemente o interior da sua bochecha e depois sua garganta. abriu os olhos para encarar mavrick e a realidade da situação dos dois voltou para ele. eles não estavam no hotel, na cama de mavrick e aquilo não era bonito. era exposto e sujo. lucien deixou um gemido escapar, as vibrações interrompidas pelos dedos de mavrick em sua boca. a ausência da mão do outro veio como um suspiro no meio de um afogamento. a respiração do licantropo estava profunda e ele jogou sua cabeça para trás, mantendo o olhar sobre o outro, mas procurando ar. observou enquanto ele tirava a roupa, admirando cada pedacinho da pele que ele tanto conhecia. que ele passou tanto tempo beijando e amando. nunca perderia a graça. mavrick ainda era o mesmo que ele conhecia. não havia mudado nada em quase vinte e sete anos. diferente dele, que envelhecia aos poucos, mas certamente.
"você é perfeito." o elogio saiu espontaneamente. não era nada adequado, mas era verdadeiro. os beijos sobre sua pele vieram como um soco. ele não queria que mavrick se sentisse obrigado a fazer isso. a deixá-lo confortável. mas lucien sempre se sentia amado na mão do vampiro. se ele quisesse parar, teria. não teria poupado seus sentimentos, pois aquela era a oportunidade perfeita de quebrar lucien. saber que jamais poderia ser amado pelo outro novamente pela feiúra de seu corpo. nem isso o impedia, nem aquela destruição colocava uma barreira entre os dois. lucien gemeu novamente ao sentir as presas contra a sua pele, deixando sua mão agarrar o cabelo de mavrick e o guiar para cima, apenas para se olharem. "me morde.” escapou rápido de seus lábios, repleto de desespero. “por favor, me morde. use suas presas em mim. eu quero... eu quero sentir você amanhã. eu quero que todos saibam o quanto você ama o meu sangue." e doía não poder morder mavrick. ele queria tanto deixar sua marca para trás. queria uni-los para o resto de suas vidas. mas mavrick não era um licantropo. eles jamais teriam isso. e o que eles podiam ter era aquilo. lucien precisava aceitar, mas doía. enquanto implorava para ser mordido, seus olhos enchiam de lágrimas pelo desejo de fazer o mesmo com o outro. mesmo com esse fato pairando em sua mente, essa necessidade não atendida, lucien ainda estava inegavelmente duro quando mavrick o deixou nu. havia certa vontade dentro de si de negar seus desejos e seguir apenas o seu instinto. de achar alguma maneira de conseguir um parceiro licantropo, que pudesse suprir todas as suas necessidades. uma pessoa que fosse feita para ele, mas quando sentia as mãos de mavrick puxando seus cabelos, a maneira como seu pau pulsava e buscava algum tipo de toque, o jeito que o vampiro o manipulava como se não tivesse vários centímetros a mais que ele, lucien não podia deixar de pensar que haviam sido feitos um para o outro sim. era o que ele sempre pensava. que mesmo com os impedimentos biológicos, eles ainda encontravam dentro de si o amor e a teimosia para se encaixarem perfeitamente. "eu... eu não sei se consigo." lucien não tinha vergonha da própria imagem ou da imagem de mavrick fodendo ele, mas quando eles normalmente ficavam naquela posição, lucien mantinha seu olhar sobre o ombro para que pudesse ver e beijar mavrick. ainda existia alguma conexão entre eles. ser fodido contra um espelho em que podia apenas ver o reflexo de mavrick era completamente diferente. eles estariam apenas vendo o reflexo um do outro e lucien iria poder ver como o outro o fodia com força, como se fosse apenas um objeto a ser usado. e enquanto tentava manter seus olhos abertos, bêbado de ansiedade e prazer, lucien buscava motivos para não achar aquilo excitante, que ficavam mais escasso a cada segundo que passava e a cada milímetro de pele que mavrick explorava. ele sentiu os músculos de suas costas tensionarem conforme ele tentava ficar confortável. apoiou seus antebraços no espelho, seu rosto perto o suficiente para embaçar o espelho. ele estava olhando. ele estava vendo o que mavrick fazia com ele. o que ele permitia ser feito. e o que ele sempre desejaria ser feito. ele queria ser mordido, ser fodido, mas ele queria que o desejo entre os dois fosse apenas mais um detalhe daquele relacionamento. ele sabia que nunca mais poderia ter aquela parte de mavrick. então ele aceitou a parte que ainda conseguia arrancar dele. aceitou os toques, aceitou seu corpo contra o espelho enquanto gemia o nome de mavrick e implorava por mais, e implorava pelas presas dele em seu pescoço e implorava pela agressividade que um dia foi seguida de carinho, mas que hoje era apenas uma luta entre dois egos.
@lucienthropy said: "we were never supposed to end up here".
O cheiro de fumaça ainda pairava no ar, impregnado nas paredes chamuscadas do prédio abandonado que agora era apenas estrutura oca e vidro quebrado. A área havia sido isolada às pressas, fitas amarelas tremulando sob o vento frio da madrugada, enquanto o restante da equipe já começava a recolher equipamentos e apagar os últimos focos insistentes. Maximilianus observava tudo à distância, mãos cruzadas atrás das costas, como alguém que não pertencia àquela cena, e ainda assim claramente interessado demais para ser apenas um curioso. O incêndio não fora comum; havia marcas erradas demais nas paredes, padrões que não pertenciam ao acaso nem à falha elétrica que os relatórios humanos certamente registrariam. Seus olhos acompanharam o movimento do jovem bombeiro antes mesmo que ele se aproximasse, reconhecendo no modo de andar o peso específico da espécie que ele sempre identificava antes mesmo do cheiro confirmar. Ao vê-lo parando a poucos passos, a fuligem ainda marcada na pele, a respiração pesada não pelo esforço físico, mas por algo menos simples de nomear. "We were never supposed to end up here." Maxi inclinou levemente a cabeça, como se considerasse a frase com genuína curiosidade, embora o brilho frio no olhar denunciasse outra coisa. ── Aqui onde? ── Perguntou, a voz baixa e polida demais para o cenário destruído ao redor. ── Em um prédio queimado às três da manhã… ou no tipo de conversa que claramente nenhum dos dois pretendia ter hoje? ── Um sorriso breve surgiu, calculado, desaparecendo rápido demais para ser cordial. Ele avançou um passo, observando o estrago atrás do licantropo antes de voltar a atenção para ele. ── Incêndios costumam revelar coisas interessantes. Estruturas frágeis, segredos mal escondidos… naturezas que preferiam continuar disfarçadas. ── O olhar deslizou pelas mãos de Lucien, demorando-se um segundo além do necessário, como quem confirma uma suspeita antiga. ── Mas suponho que você esteja falando de destino. Lobos costumam gostar dessa palavra. Dá a impressão de que certas colisões são inevitáveis, não escolhas ruins acumuladas. ── O tom permaneceu educado, quase leve, embora cada sílaba carregasse provocação suficiente para testar limites. ── Eu, pessoalmente, acredito que sempre acabamos exatamente onde nossas decisões nos empurram. ── Fez uma pausa curta, o canto da boca curvando-se em ironia discreta. ── E considerando o que aconteceu aqui esta noite… tenho a impressão de que alguém decidiu chamar atenção demais. A questão é se foi você… ou algo que veio atrás de você.
lucien não lidava com muitos incêndios, o que era um pouco curioso para um bombeiro. o que é preciso ressaltar é que incêndios, como ocorrência, não costumam vir com frequência. alguns por ano, definitivamente a grande maioria causava por acidente doméstico. nada grandioso. nada que possa ser visto de longe. aquele não foi o caso. ele estava em casa quando foi chamado e como sargento do corpo de bombeiros, ele sabia que aquilo era algo grande, para necessitar sua presença. era impossível se acostumar com as chamas e com o cheiro de fumaça, mas lucien se movimentava por aquele prédio como se soubesse suas idas e vindas de cor. era em momentos como esse que ele lembrava a todos como chegou onde chegou e como conseguiu tornar sua vida de ponta cabeça com um incêndio como aquele. e por saber bem como incêndios daquele tipo aconteciam que ele soube imediatamente que aquele local havia sido incendiado por gosto. procurava motivos eminentes logo após o fogo ser completamente apagado e foi quando viu maximillianus rondando o local. lucien apenas tirou o capacete e se aproximou, limpando a fuligem do rosto como conseguia. sem muito sucesso. ele escutou a resposta do vampiro, apoiando o capacete na cintura. "no prédio queimado, é claro. uma conversa com alguém como você é o menor dos meus problemas." vampiros não o intimidavam de maneira algum. fossem quem fossem, ainda eram da mesma raça de grazia. da mesma raça da família que o criou. ele sabia bem como aquelas mentes funcionavam. "e quem disse que eu não pretendia ter essa conversa? eu saí de casa com o objetivo de puxar conversa com o primeiro velhote que aparecesse na minha frente." não sabia exatamente quantos anos o outro tinha, mas ele cheirava a gente velha. não como humanos, mas como vampiros. era algo completamente diferente e não necessariamente ruim. "sabe o que incêndios criminosos revelam? alguém com más intenções ou desespero. qual dos dois você acha que foi?" lucien, assim como um cão, rondou o outro, fazendo a volta por trás dele e olhando por cima de seu ombro para o prédio. ele odiava ceder aos estereótipos, mas ele era um licantropo. "você não acredita em destino?" ele não acreditava muito nessas coisas, afinal de contas toda a sua percepção de mundo havia sido moldada de maneira diferente dos outros lobos. "e nossas decisões não podem nos empurrar a coisas positivas? você me parece muito pessimista com a vida. o que viu de tão ruim para te tornar assim? quantas guerras?" provocou, cerrando os olhos. lucien estava sempre na defensiva, mas especialmente quando sentia a energia condescendente que vampiros carregavam quase que patologicamente. "está me acusando de ser um incendiário?" ele sabia que existia essa história de bombeiros incendiários, mesmo que essa estatística seja um pouco falha. "e você? ficou aí só assistindo? foi divertido?"
FLASHBACK É sabido que vampiros evitam licantropos mais do que temem bruxas. Logo, se havia uma certeza na vida de Elias, era que ele faria o possível para não cruzar com tal espécie. Mesmo o simples arranhar as presas de um lobo sobre seu bonito pescoço poderia causar estragos gigantescos e convalescência e, não muito depois, a extinção. Se dava muita importância para considerar que quinhentos de vida eram tempo suficiente. Mas havia um ponta solta quando se tratava de lobisomens; uma que, erroneamente, ele continuava sem resolver. Não devia ser surpresa que estivesse sendo encurralado pelo lycan na estufa, mas era um alívio que fossem os únicos ali. O tom inocente era típico do Montanari, o que fez com que o vampiro semicerrasse os olhos, cético. "Não pode fazer isso em público: me olhar" não só porque havia eleitores de olho nele - simples humanos - mas, principalmente, porque os Valsombra estavam por toda parte, mesmo em um ambiente de propriedade do clã rival. Eliazar perderia toda a credibilidade se fosse visto confraternizando com um lobisomem. "Mas não era justamente essa a sua intenção?" conforme o moreno listava, o Vorncrest elevou uma das sobrancelhas, dando alguns passos na direção dele. Gostava de ser chamado de senhor pelo mais novo; dava a ele algum senso de poder naquela relação. Era visível, também, que o outro se mantinha distante de propósito, e justo quem deveria evitar contato - o vampiro - fazia questão de se colocar a frente de seu inimigo natural. “Para começar, é uma péssima ideia que frequente os mesmos lugares que eu. Pensei que nosso acordo tivesse ficado bem claro. Eu não te perturbo. Você não me perturba. E nós dois seguimos nossas vidas plenamente, Mas, agora, posso dizer que você está, seguramente, me perturbando”
lucien não tinha medo de vampiros. sua história era a grande motivação por trás disso, é claro, mas ele sabia que ao longos dos recentes anos e seu relacionamento complicado com elias tinha grande parte nisso tudo. ele respeitava elias, sim, mas havia algo no outro que não fazia seu sangue gelar nas veias. talvez esse tivesse sido o ponto inicial de todos os problemas entre os dois. lucien ponderou o que havia sido dito, com uma expressão de desdém. "eu não posso olhar para o prefeito? você é uma figura bem pública." e, tecnicamente ele estava falando a verdade, mas os dois sabiam muito bem que olhar que lucien direcionava ao outro. sempre havia sido assim. independente de quais pontos haviam sido fechados entre os dois. "ir atrás de você? aqui? com tantas testemunhas? isso seria demais, até para mim." agora havia um certo sarcasmo em sua voz, porque não apenas ele não fez isso, como conseguiu elias sozinho com ele. era uma aposta alta e lucien havia conseguido o melhor resultado possível. "você não pode decidir onde eu vou ou deixo de ir. quer dizer, você pode... mas isso que isso seria um golpe baixo demais." e ele esperava essas coisas de elias. ele não era um homem muito justo, em certas questões. lucien era ingênuo em certos assuntos, mas definitivamente não nesse. "cadê o seu autocontrole? é só fingir que eu não existo e eu prometo ficar no cantinho, disfarçando bem." seu olhar que havia pairado brevemente sobre elias agora desviou novamente, encarando os próprios pés.
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∗ o9﹕ sender falls asleep leaning against receiver at Teatro Bramblehall
Sabia bem que brincava com fogo ao sentar ao lado de Lucien em público, mas o que seria da vida sem um pouco de adrenalina? O bombeiro havia caído no sono sobre seu ombro no meio da peça e Draven não havia tido coragem de acordá-lo — embora seus motivos não fossem tão inocentes quanto pareciam. Agora, porém, não podia mais adiar o inevitável. Levando a mão ao ombro alheio, sacudindo suavemente para não assustá-lo, murmurou: “ Sei que a peça não era uma obra-prima, mas estava tão ruim que preferiu entrar em coma? ”
quando imaginou como aquela situação terminaria, com draven sentando ao seu lado, lucien certamente esperava um desfecho mais triunfante e agradável do que simplesmente acabar dormindo no ombro dele. ele não tinha orgulho de situações vergonhosas como aquela, mas naquele caso ele genuinamente tinha uma desculpa plausível. "não foi... não foi culpa da peça. eu gosto! de teatro..." discretamente passou a mão pelo rosto para garantir que não estava babando no outro. isso sim seria demais. "é que eu vim direto do quartel para cá." ele havia tomado banho e se vestido lá mesmo. ainda olhou sua cama no dormitório do quartel, pensando se deveria ocupar aquela cama mesmo com a troca de shift. mas aquela peça... ele realmente queria assistí-la. e agora se sentia um idiota. "me desculpa, por te incomodar." ele sentiu seu rosto aquecer e agradeceu aos céus por não ficar vermelho com facilidade.
Era raro pessoas lhe concederem sorrisos sinceros, especialmente quando realmente sabiam quem ela era e por isso apreciava muito quando acontecia. Tornava esse simples fato mais do que suficiente para que ela buscasse ser boa com ele e o entreter de verdade, tornar sua vida um pouco mais fácil, algo que raramente cedia a alguém. ❝Eu deveria manter as aparências também, mas dane-se, não ligo de aparecer no jornal da cidade por ser 'feliz demais.'❞ Brincou a medida que fez um gesto ao bartender para que preparasse outro drink igual o dela para Lucien. ❝Vamos começar pelo mesmo que estou bebendo agora, não lembro o nome, mas foi um especial da casa e é com rum, uma delícia! Sei que você não é de whisky, mas também tem uma bebida preparada com um whisky muito bom e acho que você deveria provar!❞
por mais que seu instinto disesse que deveria odiar carmilla, ainda era algo muito difícil para lucien. o passado que os dois tiveram trabalhando juntos ajudava a racionalizar esse sentimento. e ele precisava disso nesse momento. precisava desvincular sua vida daquela problemática relação. entõa, ele fazia o que podia, sorrindo. "eu acho que beber ajuda na sua reputação. combina com você." beber de maneira elegante era algo admirável. lucien bebia e fazia cena, causava confusão. por isso ele evitava. ele não causava problemas para ninguém além de si mesmo, mas isso era o suficiente para ele considerar o quão alcóolico aquele drink era. ele aceitou de qualquer maneira. "gosto de coisas com rum. eu fazia piñas coladas o tempo todo." ele gostava de bebidas doces, pois seus cinquenta anos ainda não foram o suficientes para lhe garantir o gosto para bebidas de um senhor de idade avançada. apenas recentemente ele tinha adquirido o hábito de beber cerveja. "eu estou aberto a provar de tudo um pouco, mas confesso que sou um pouco cabeça dura." teimosia era definitivamente o seu forte e parte da sua natureza.
𝒇𝐥𝐚𝐬𝐡𝐛𝐚𝐜𝐤 lucien estava certo novamente. odiava que ele tivesse segurança suficiente para confrontá-lo sem hesitar. não porque desprezasse a confiança do licantropo — pelo contrário, sempre foi atraído por ela — mas porque, naquele momento, queria vê-lo duvidar. queria que ele sentisse o peso da possibilidade de não ser mais suficiente. era cruel, e mavrick sabia disso. só que ele precisava acreditar naquela mentira porque ela sustentava a decisão de quatro anos atrás, sustentava a ideia de que aquilo tinha sido definitivo. e ainda assim ali estava, colado ao corpo dele, respirando no mesmo ritmo, sentindo o calor atravessar o tecido das roupas como se não tivesse passado um único dia separados. mas seria o último. o lynch decidiu que aproveitaria aquele momento como se fosse uma despedida, para gravar na memória de lucien tudo o que ele jogou fora. quando lucien começou a protestar e terminou obedecendo, mavrick sentiu uma onda quente de satisfação percorrer o corpo inteiro. ‘ você não… o quê? ’ ele podia sentir a irritação do outro pela troca de posições, pela sensação de estar sendo conduzido, mas a questão era que lucien não o afastou. ‘ se você não quisesse, já teria ido embora. ’ e mavrick não teria impedido. mas também sabia que lucien não iria. porque, se quisesse menos do que ele, já teria saído no primeiro puxão de gravata. estava se negando a admitir que também queria com a mesma intensidade, se negando a dizer que o próprio corpo reagia de forma automática à presença do outro, que quatro anos não tinham sido suficientes para apagar o vício no licantropo.
mavrick estava alucinado. não havia palavra mais honesta do que essa. o reflexo no espelho o mantinha preso, faminto, os olhos percorrendo cada movimento de lucien enquanto ele tirava a própria camisa, enquanto os dedos iam até o cinto. era uma sede antiga, acumulada, algo que vinha se arrastando desde antes mesmo da separação. estar tão perto novamente reacendia tudo com uma intensidade que ele nem tentou controlar. por isso demorou um segundo a mais do que deveria para perceber as cicatrizes quando lucien virou. os olhos de mavrick perderam o brilho febril e ficaram pesados, turvos, como se algo tivesse passado diante deles. aquilo não fazia parte do corpo que ele conhecia. quando lucien começou a falar e levou as mãos ao paletó dele, tentando puxar a roupa para fora, o vampiro reagiu por reflexo. a mão dele subiu rápido e deu um tapa seco na mão do licantropo, interrompendo o gesto. ‘ que cicatrizes são essas, lucien? ’ ele ficou estático, o olhar fixo no tronco exposto do outro. algo fervia dentro dele, uma violência primitiva subindo pelas veias, misturada a uma dor que ele se recusava a nomear. ‘ quem fez isso com você? ’ quem quer que fosse, morreria. o gemido que escapou do peito do licantropo o puxou de volta, rasgando a linha de pensamento. não se moveu quando o montanari aproximou o rosto do seu pescoço. claro que estava fedendo a outras pessoas. não era segredo. mavrick não tinha como prometer exclusividade depois do fim. a raiva no tom do outro, o desespero quase animal, fez algo vibrar no fundo do peito do vampiro. ele sempre gostou quando lucien marcava território daquele jeito, esfregando o rosto na sua pele de forma possessiva. a mão de mavrick subiu automaticamente para o cabelo dele, fechando os dedos nos fios, puxando de leve, não para afastar, mas para manter ali. queria congelar aquele segundo, queria voltar para a época em que aquilo era rotina, em que lucien se esfregava nele em qualquer canto da casa, em que o cheiro dele era o único que ficava. mas o momento durou pouco. a fala do outro finalmente puxou mavrick de volta para a realidade. e a realidade era que o seu homem estava marcado com cicatrizes desconhecidas. o vampiro deu um passo para trás, abrindo distância suficiente para olhar novamente para o tronco marcado dele. ‘ não. não enquanto você não me explicar… isso. ’ os dedos tocaram uma das cicatrizes, pressionando levemente, sentindo a textura irregular sob a pele. ‘ o nome. agora. ’
𝔣𝔩𝔞𝔰𝔥𝔟𝔞𝔠ƙ ⎯⎯ ele odiava a sensação de deixar mavrick fazer o que quisesse com ele, mas, no fundo, sabia que era quase inevitável. não era como se lucien ficasse sem reação ou sem escolha; ele permitia. permitia porque, mesmo naquela posição, seu instinto protetor e dominante ainda era alimentado. ao ceder, ele continuava no controle de outra forma: estava satisfazendo mavrick, estava escolhendo fazer isso. e por mais que mavrick pudesse amar outras pessoas, nenhuma delas jamais conseguiria provocar nele o mesmo impacto, a mesma entrega, a mesma intensidade que lucien conseguia. havia uma diferença enorme entre ser dominado e escolher se entregar, e ele tinha plena consciência disso. cada gesto, cada suspiro arrancado, existia porque ele permitia. e mesmo depois de quatro anos, os dois ainda desejavam isso. uma fome animal tomava conta até mesmo do seu vampiro, sempre tão impassivo. "eu não vou embora, mas não se confunda." lucien buscou os olhos do outro no espelho, firme. aqueles olhos que ele tanto amava, agora pareciam uma ameaça. não porque não confiava em mavrick ou qualquer coisa parecida, mas porque estarem ali tão perto significavam um descontrole de ambas as partes. ele era tão forte, mas se tornava tão fraco a vista daquele olhar. "se eu me curvo, é porque decidi que você merece essa vitória. cada suspiro que você arranca de mim existe porque eu permito. porque eu quis sentir." ele sabia que aquelas palavras iriam irritar mavrick. talvez até a ponto dele desistir do que iriam fazer, mas lucien precisava dizer. ele não podia ignorar seus próprios instintos, mas também… "e eu deixo porque gosto de ver você satisfeito e saber que fui eu quem causei isso." sua voz saiu mais fraca, mas contida. ele quis deixar claro que ele não iria embora de jeito nenhum, mas que também sabia o seu lugar. seu lugar não era algo físico, uma posição sexual ou nada do tipo. seu lugar naquela relação era, e sempre foi, satisfazendo mavrick. é claro que lucien tinha insegurança com suas cicatrizes. de maneira objetiva, ele sabia que não era nada agradável de se olhar. mas ele era ele e mavrick era mavrick e eles nunca tinham tido nenhum problema em relação ao corpo um do outro. ele ainda era ele, acima de tudo. ele precisava que o outro visse isso, precisava que mavrick olhasse para ele e ainda visse o homem que amou ele nos últimos vinte e sete anos. mesmo que tivesse mudanças físicas.
a pergunta ríspida do outro veio e o cortou como uma lâmina, seu corpo estático e olhar que não deixava aquelas marcas horríveis. de repente, lucien estava muito ciente da sua falta de roupas. "são cicatrizes de luta." não era uma mentira e ele tentou ao máximo se agarrar a essa ideia. ele não gostava de mentir para mavrick, mas ele também não podia contar a verdade inteira, então ele omitiu. mavirck jamais imaginaria que quem realmente estava infligindo aquelas marcas em si era ele mesmo. "são coisas da minha vida pessoal." reforçou. mavrick poderia estar cuidando dele de tempos em tempos, não duvidava, mas jamais iria saber das coisas que ele faz na lua cheia. "você não tem mais acesso a minha vida pessoal, mavrick." doía dizer aquilo. ele não queria, de maneira alguma, retirar o vampiro da sua vida. aquele término o perturbava pelo fato de que não poderia de maneira alguma deixar que mavrick voltasse a sua vida. não que o outro quisesse, mas ele poderia, como sempre, implorar. ele poderia implorar. se jogar no chão e chorar. mas só de imaginar causar dor ao outro, isso o impedia. e só de ver a expressão no rosto dele, lucien talvez julgasse inútil. "eu não vou te explicar." ele negou rapidamente, seu olhar se erguendo do pescoço do outro até os seus olhos. ele ainda estava ali, sua pele quente grudada na dele. "isso já não faz mais parte da sua vida. é a minha. e se você não me quiser agora porque sente que seu orgulho vai ficar ferido por eu te negar essa informação ou… ou qualquer outra coisa," ele se recusava a se mostrar inseguro para mavrick, mas precisava deixar claro. caso mavrick não o quisesse por causa de cicatrizes, não tinha nada que lucien podia fazer. "tudo bem." ele foi firme. podia ser muitas coisas, minhas tinha suas certeza na vida e era honesto sobre ela, mas também sobre seus desejos. "mas eu quero você, agora." ele seguiu beijando o pescoço de mavrick, sua mão puxando a cintura dele mais para perto, como se fosse isso fisicamente possível. "eu te quero tanto, mavrick." o nome dele saiu quase como um gemido e lucien estava envergonhado pela maneira como não conseguia controlar o seu corpo. suas mãos pareciam buscar conforto no outro de maneira desesperada, inquieta. "se você me quiser, eu vou ser bom… você sabe que eu posso ser bom para você." seus beijos subiram para o maxilar do vampiro e agora suas palavras saíam juntas aos lábios de mavrick, quase grudados e com suas respirações mesclando.
𝟐𝟎𝟐𝟎 dezenove anos de namoro. para qualquer pessoa comum aquilo seria quase uma vida inteira, mas para mavrick não era. para um vampiro que já tinha visto décadas passarem diante de seus olhos, dezenove anos deveriam ter sido apenas uma fase que se dissolveria na memória como tantas outras que vieram antes. mas não com lucien. porque, quando ele pensava melhor, esses dezenove anos nem sequer eram completos. se fosse preciso, talvez precisasse reduzir esse número pela metade. dos dezenove, quase nove tinham sido passados separados. era impressionante perceber que, olhando para trás, quase todos aqueles rompimentos tinham sido originados por lucien. era quase ridículo admitir que um único homem fosse capaz de causar tanta perturbação em uma criatura que já existia há mais de um século. ainda assim, era exatamente isso que acontecia. o licantropo tinha se tornado o eixo de uma quantidade absurda de decisões, brigas e despedidas que mavrick jamais teria imaginado viver novamente depois de tantos anos de existência. tudo culpa daqueles malditos olhos castanhos… que não eram apenas castanhos. ele conhecia cada variação daquele olhar. sabia quando o castanho parecia mais escuro, quase preto, quando lucien estava cansado ou irritado. sabia quando a luz revelava nuances mais claras, um tom quente, quase dourado, quando ele estava relaxado ou feliz. e sabia reconhecer, acima de tudo, aquele olhar específico que o montanari só dirigia a ele. com o passar dos anos, aquele mesmo olhar se tornaria responsável pelos piores términos que o lynch já havia enfrentado. ele não costumava admitir isso para ninguém. para qualquer observador externo, as separações entre ele e lucien sempre pareciam apenas mais uma das explosões temperamentais que definiam o relacionamento deles. gritos no corredor do hotel, portas batendo, ameaças que nenhuma pessoa sensata diria para alguém que ama. quem assistia aquilo de fora dificilmente imaginaria o quanto o silêncio que vinha depois era pior.
mavrick odiava ficar longe de lucien. as noites no hotel pareciam mais longas. os corredores ficavam mais vazios. as pequenas manias que lucien tinha deixavam de acontecer e, aos poucos, ele percebia o quanto aquelas coisas tinham se tornado parte natural da sua existência. mesmo assim, havia um limite muito claro que jamais ultrapassaria. ele não se humilharia para voltar. não imploraria por um lugar na vida de ninguém, não pediria para ser escolhido e não aceitaria ser tratado como uma opção. era uma linha que ele mantinha intacta desde muito antes de conhecer lucien, e por mais que aquele relacionamento tivesse destruído muitas outras certezas ao longo dos anos, essa ainda permanecia firme. e a verdade era que, nos dois últimos términos realmente graves que haviam enfrentado, lucien não havia o escolhido. ele sabia, sem qualquer dúvida, que lucien o amava. depois de um tempo, o amor do licantropo por ele era quase escancarado. estava nas cartas que ele escrevia, nos quadros que pintava, nas crises de ciúme, nos momentos de reconciliação que sempre terminavam com os dois destruindo o quarto e um ao outro antes de fazer as pazes. lucien o amava. mas, em alguns momentos decisivos, esse amor não tinha sido suficiente para que ele escolhesse mavrick. era revoltante ver que o homem que dizia amá-lo, o homem que brigava com ele como se o mundo fosse acabar, ainda assim era capaz de olhar para a própria família e decidir que aquele era o lado que precisava preservar primeiro. a família de lucien sempre parecia existir acima de qualquer coisa que eles construíam juntos. e mavrick não era estúpido o suficiente para fingir que não entendia aquilo. ele entendia perfeitamente o que significava lealdade familiar. seria hipócrita condená-lo por isso quando ele próprio colocava hemrick no topo das prioridades dele desde muito antes de lucien aparecer em sua vida. mas havia uma diferença brutal entre as duas situações. mavrick nunca precisou escolher entre hemrick e lucien. nunca houve um momento em que ele tivesse olhado para um dos dois e decidido que o outro precisava ir embora. as duas coisas simplesmente coexistiam na vida dele, sem qualquer disputa, sem aquela sensação de que amar um significava perder o outro. lucien, por outro lado, já tinha feito aquela escolha. mais de uma vez. e talvez fosse exatamente por isso que, ao longo dos anos, mavrick nunca teve certeza de que aquele relacionamento sobreviveria. passou muito tempo acreditando que, em algum momento, o amor que sentiam um pelo outro não sustentaria aquela relação. mas agora… agora era diferente. nos últimos meses, havia algo novo entre eles. não era uma calmaria. aquilo provavelmente nunca existiria entre um vampiro como ele e um licantropo como lucien. ainda discutiam. ainda se provocavam. mas havia uma estabilidade que mavrick nunca tinha sentido antes. e pela primeira vez em dezenove anos de uma relação que parecia sempre à beira do colapso, mavrick percebeu que talvez — finalmente — aquilo fosse suficiente para construir algo que não acabaria no próximo conflito.
mavrick percebeu que a decisão tinha sido tomada naquela noite. lucien tinha chegado tarde do trabalho, e ainda assim, tinha feito questão de puxar mavrick para a cama como sempre fazia. aquela insistência em transformar algo impossível — um vampiro dormindo — em uma rotina doméstica nunca tinha deixado de divertir mavrick. e, como muitas outras vezes, ele ficou observando. o licantropo respirava profundamente quando dormia, às vezes franzia levemente o cenho, como se ainda estivesse processando alguma coisa mesmo inconsciente. o cabelo sempre ficava bagunçado contra o travesseiro, e ele se encolhia instintivamente na direção do namorado. era uma rotina que se repetia noite após noite. mas naquela em específico, alguma coisa tinha sido diferente. não pela conversa sobre o livro, nem pela discussão ridícula sobre a adaptação do filme, nem pela forma como lucien se irritava com detalhes fictícios como se conhecesse pessoalmente personagens que existiam apenas em páginas antigas. aquilo era apenas lucien sendo lucien. o que ficou gravado na memória de mavrick foi a resposta do outro quando perguntou como imaginava frederick. “com você, é claro.” lucien não tinha dito aquilo tentando impressioná-lo. ele simplesmente acreditava naquilo. acreditava que todas as histórias de amor levavam até mavrick. e mavrick passou o restante da madrugada pensando nisso enquanto lucien finalmente dormia outra vez, com o rosto afundado no travesseiro e um braço pesado apoiado sobre o quadril dele. o livro ainda estava aberto no colo do lynch, mas ele não leu mais nenhuma linha.
no dia seguinte, quando estava sozinho, ele ainda estava pensando nisso. pensando em tudo, na verdade. em dezenove anos de um relacionamento que nunca tinha sido estável por muito tempo. em todas as vezes que eles terminaram. em todas as vezes que voltaram. pensou em cada uma das vezes em que lucien foi embora. e também em cada uma das vezes em que voltou. e foi por isso que aquela conversa aparentemente simples sobre um personagem de romance ficou presa na cabeça dele. porque lucien continuava acreditando naquela história de amor. mesmo depois de tudo. mesmo depois do momento em que mavrick rejeitou o pedido de casamento que ele fez no início do relacionamento. ele lembrava perfeitamente daquele momento. lembrava da expressão de lucien quando ouviu a recusa. lembrava de como o assunto nunca foi retomado diretamente depois disso. na época, parecia a decisão mais lógica. ele tinha vivido décadas suficientes para saber que promessas eternas feitas cedo demais quase sempre terminavam em tragédia. lucien era novo, instável, estava descobrindo quem era. aquilo parecia uma fase intensa que inevitavelmente acabaria. o problema era que não acabou. eles continuaram se amando intensamente. continuaram brigando como se cada discussão fosse a última coisa que fariam antes de se destruírem completamente. continuaram terminando e voltando, terminando e voltando, como se existisse uma força invisível puxando os dois de volta sempre que tentavam seguir caminhos diferentes. e no meio de tudo aquilo, lucien nunca deixou de ser exatamente quem era.
lucien sempre foi tradicional em certos aspectos. mavrick demorou um tempo para aceitar isso. desde o começo, o outro insistia em pagar jantares que claramente estavam muito acima do que ele podia bancar, abrir portas, presentear com flores como se estivesse vivendo em algum romance antigo. mavrick odiava aquilo no início. era ridículo vê-lo insistindo em pagar tudo como se fosse uma questão de honra. mas com o tempo ele entendeu. não era sobre dinheiro. era sobre como lucien enxergava o relacionamento deles. e mavrick aprendeu a respeitar aquilo da forma dele. não completamente, claro. lucien podia insistir em pagar jantares ou planejar encontros, mas isso nunca impediu mavrick de fazer coisas que o licantropo não tinha como recusar. a biblioteca particular no hotel era prova disso. aquela sala inteira existia apenas porque lucien gostava de ler, principalmente clássicos. a sala de pintura também surgiu assim, construída depois que mavrick descobriu que lucien tinha começado a pintar. algumas semanas depois, uma nova sala apareceu no hotel, equipada com tudo que ele poderia precisar. até a academia não era por acaso. aquilo, mavrick sabia perfeitamente, tinha sido um gesto completamente egoísta. ele gostava de assistir lucien treinar assim como gostava de observá-lo dormir.
observar lucien tinha se tornado parte da rotina dele. sabia exatamente o significado de cada expressão no semblante dele. sabia reconhecer o momento exato em que lucien estava prestes a perder a paciência. sabia quando uma discussão ainda podia ser evitada e quando já era tarde demais. e no meio de tudo isso, havia uma coisa que ele também sabia. lucien nunca esqueceu aquele primeiro pedido de casamento. às vezes ele realmente se perguntava por que o montanari aceitou continuar naquele relacionamento depois disso. por que aceitou anos e mais anos de uma relação intensa, destrutiva, cheia de brigas e reconciliações, sem aquela promessa que ele claramente valorizava. a resposta estava na conversa da noite anterior. e foi naquele momento que a decisão começou a se formar.
imediatamente, mavrick começou a se programar. ele não queria nada espalhafatoso. a última coisa que ele queria era transformar aquele momento em mais um espetáculo para a cidade inteira comentar. todo mundo já tinha assistido brigas suficientes entre eles ao longo dos anos. aquilo precisava ser só dos dois. a única coisa em que ele não economizou foi nas alianças. mavrick procurou um joalheiro que trabalhava exclusivamente com peças sob encomenda e pediu algo que não existisse em nenhum outro lugar. a aliança era pesada, feita em platina com banho de ródio begro e no centro da peça havia um diamante negro lapidado. enquanto segurava aquela pequena caixa nas mãos dias depois, era inevitável que o lynch não sorrisse ao imaginar o momento em que ele colocaria aquela aliança no dedo de lucien.
o rooftop do hotel estava reservado apenas para os dois. pequenas luzes douradas estavam suspensas entre as estruturas do terraço, formando linhas suaves que iluminavam o espaço sem roubar a atenção da vista da cidade abaixo. algumas velas de vidro escuro estavam distribuídas ao redor, projetando reflexos sobre o piso e sobre a mesa posicionada no centro do espaço. a mesa estava preparada para um jantar íntimo, com toalha escura, talheres alinhados e duas taças já prontas para o vinho. ao lado do arranjo central repousavam dois vasos com flores — as mesmas que lucien havia escolhido naquele buquê em 2000. ele subiu os últimos degraus com a mão entrelaçada na do namorado. sentia o calor da pele do licantropo contra a sua, algo que nunca deixava de parecer estranhamente vivo para ele. quando chegaram ao topo e o espaço se abriu diante deles, mavrick virou o rosto na direção dele antes que lucien pudesse dizer qualquer coisa. ‘ é uma noite especial. ’ ele se inclinou apenas o suficiente para roubar um selinho rápido antes de conduzi-lo até a mesa. puxou a cadeira para que o outro se sentasse exatamente da forma que o montanari sempre fazia com ele nos restaurantes, algo que durante anos havia sido motivo de discussões entre os dois, porque lucien insistia em tratar certos rituais como se fossem inegociáveis dentro de um relacionamento. mavrick nunca admitiria em voz alta o quanto havia aprendido a apreciar essas pequenas tradições.
o vinho foi servido primeiro. era o mesmo vinho do restaurante italiano onde tiveram o primeiro encontro. mavrick lembrava perfeitamente da noite em que lucien havia pedido a garrafa mais cara do cardápio. desta vez era a vez de mavrick pagar. conversaram enquanto degustavam do vinho. lucien falou sobre o livro que estava lendo naquele momento, um dos muitos clássicos que ele insistia em revisitar de tempos em tempos, e mavrick ouviu com atenção, fazendo comentários ocasionais que deixavam claro que estava acompanhando cada palavra. quando a comida chegou — farfalle com bacon, brócolis e cogumelos — o licantropo apenas ergueu uma sobrancelha com aquele pequeno sorriso satisfeito que sempre surgia quando reconhecia comida italiana bem preparada. massa nunca falhava com um italiano. mavrick também foi servido. ele não sentia absolutamente nada ao comer. nenhum prazer, nenhum sabor que pudesse saciá-lo da maneira que o sangue fazia. ainda assim, pegou o garfo e começou a comer ao mesmo tempo que lucien. era um gesto simples, mas fazia parte daquilo que o licantropo valorizava: momentos domésticos e a sensação de que, por algumas horas, eles podiam existir apenas como um casal comum.
quando o jantar terminou, eles continuaram ali, compartilhando outra taça de vinho enquanto a sobremesa era servida. conversaram mais um pouco, sem pressa, como se aquela noite pudesse se estender indefinidamente. outra taça veio depois da sobremesa, e apenas quando mavrick percebeu que lucien parecia completamente satisfeito que ele finalmente decidiu que era o momento certo. o vampiro se levantou da cadeira e estendeu a mão. ‘ venha. ’ o licantropo aceitou o gesto sem questionar, e foi conduzido até a beirada do rooftop, onde a cidade se estendia abaixo deles. ficaram ali por alguns minutos apenas observando a vista, lado a lado, sem dizer nada. depois de algum tempo, mavrick se virou completamente na direção de lucien. ele não sabia exatamente como começar aquilo. em todos aqueles anos de existência, nunca havia pedido ninguém em casamento. ainda assim, quando olhou diretamente para o namorado, não houve hesitação na forma como começou. ‘ eu te amo. ’ não havia razão para começar de outra forma. aquilo era o centro de tudo.
‘ eu te amo como nunca amei ninguém em todos esses meus anos de existência. eu te amei mesmo nos anos em que estávamos separados. e eu também te odiei nesses momentos. ’ soltou uma pequena exalação pelo nariz, quase um riso seco. ‘ eu te odiei por fazer isso comigo. por me deixar sozinho com esse sentimento ridículo que não diminuía, não importava quanto tempo passasse. eu te odiei por ainda sentir falta do seu cheiro impregnado em cada cômodo desse hotel. por sentir falta de você grudado no meu pescoço como um parasita. por sentir falta de você roubando minhas roupas, dormindo na minha cama como se ela fosse sua por direito, discutindo comigo por coisas inúteis e me irritando até eu querer te jogar pela janela. ’ ele deu um pequeno passo mais perto. ‘ eu te odiei porque cada uma dessas coisas fazia falta. e porque sem elas eu me sentia vazio. ’ os olhos dele escureceram. ‘ eu existi décadas antes de você nascer. vivi guerras, vi impérios caindo, cidades inteiras desaparecendo. nada disso me afetou da forma como você me afeta. nada. você me deixa furioso. você me deixa fora de mim. você me deixa louco de uma forma que nenhuma criatura neste mundo jamais conseguiu. e é exatamente por isso que eu te amo. ’ ele gesticulou um pouco durante o discurso, mas o olhar dele estava completamente fixo em lucien agora. ‘ eu quero a sua presença irritante todos os dias. eu quero nossas discussões absurdas. quero você roubando minhas roupas, invadindo minha cama, ocupando cada espaço do meu hotel e dos meus pensamentos pelo resto da minha existência. eu não quero uma eternidade onde você não esteja. ’ então ele deu um passo para trás. a mão deslizou para dentro do bolso do casaco e voltou segurando a pequena caixa onde estavam as alianças. antes que qualquer outra palavra fosse dita, mavrick se ajoelhou diante dele, abrindo a caixa lentamente para revelar os dois anéis. levantou o olhar novamente para o rosto de lucien e terminou, com uma confiança absoluta na própria voz. ‘ é exatamente por isso que eu quero me casar com você, lucien montanari. então… você quer casar comigo? ’
o silêncio que veio depois pareceu se expandir pelo rooftop inteiro. lucien ficou parado por um segundo. dois. três. mavrick não desviou o olhar em nenhum momento. então lucien riu. era uma risada curta, incrédula, emocionada, como se o cérebro dele ainda estivesse tentando acompanhar o que tinha acabado de acontecer. ‘ dezenove anos. eu esperei dezenove anos para você finalmente dizer isso. ’ lucien disse e o polegar dele passou pela mandíbula de mavrick. ‘ e você ainda consegue fazer parecer que está me fazendo um favor. ’ mavrick abriu a boca para responder, mas lucien falou antes. ‘ sim. é claro que eu quero casar com você. ’ talvez tenha sido o sorriso mais genuíno de toda a existência de mavrick. ele logo se levantou e não hesitou em puxar lucien para beijá-lo. foi um beijo intenso. cheio de anos acumulados de separações, voltas, brigas, desejo e aquela ligação absurda que sempre os puxava de volta um para o outro. quando se separaram, mavrick pegou a aliança e deslizou lentamente no dedo de lucien. depois lucien pegou a outra e colocou no dedo de mavrick. ‘ eu te amo. incondicionalmente. ’ ele puxou lucien pela gola da camisa e o beijou de novo. porque algumas coisas entre eles nunca seriam delicadas. e talvez fosse exatamente por isso que sempre seriam inevitáveis.
𝚁𝙾𝚇𝚈'𝚂 𝙱𝙸𝚁𝚃𝙷𝙳𝙰𝚈 𝙶𝙸𝙵𝚃 ⸻ da tua amiga que te ama muito <3
1988 - estática.
lucien estava fazendo treze anos. ele sabia disso porque grazia mantinha ele atualizado sobre o seu aniversário e nos últimos anos havia criado o costume de trazer um bolo de cenoura para ele. o licantropo tinha um metabolismo extremamente rápido e ele costumava comer o bolo inteiro em uma única noite. ele, infelizmente, não tinha sentido de que as coisas poderiam ser deixadas para depois. ele não tinha geladeira. ele sabia que existia, mas ele não tinha acesso. e se ele deixasse para depois, havia o medo silencioso de que não veria mais o bolo. então, ele comia. e ele se permitia pedir coisas, pois grazia sempre lhe oferecia um livro de presente. a biblioteca dos neroni era gigantesca e lucien se perdia nas histórias, conhecendo o mundo do seu próprio jeito. persuasão de jane austin foi o escolhido da vez. nessa época, lucien havia pegado gosto pelos livros de romance. depois de ler jane eyre, orgulho e preconceito, a princesa prometida e muitos outros, grazia forneceu sua cópia anotada de persuasão.
ele tinha uma certa dificuldade de visualizar algumas coisas, principalmente pessoas. aos treze anos, um dos poucos filmes que tinha assistido havia sido “rebel without a cause”, então todos os personagens tinham o rosto do james dean e da natalie wood, com pequenas variações conforme sua criatividade permitia. em persuasão, sua anne elliot e seu frederick wentworth eram exatamente assim. naquela época, independente do que descobriria sobre si mesmo no futuro, costumava imaginar-se na posição de ambos os personagens. existia uma fome dentro de si de entender os sentimentos humanos e ele queria ser colocado naquelas situações. com apenas treze anos, lucien não tinha se desenvolvido como ser humano, acima de um licantropo. seu lobo era parte de sua rotina, mas amar não era. ele não recebia amor, apenas obsessão. ele não amava, apenas sobrevivia.
deitado na cama de noite, lucien passou anos se imaginando nas cenas dos livros. dos clássicos aos livros modernos, das carruagens aos carros e motos, das tardes com piqueniques às noites acesas das maiores cidades europeias, lucien se perguntava se tinha alguém esperando por ele. se haveria alguém que ele amaria tanto quanto anne elliot amou frederick wentworth, um amor que sobreviveu à anos de separação.
1999 - iris by the goo goo dolls.
a floresta havia se tornado um refúgio. depois de ser jogado no mundo real há menos de três anos, lucien era facilmente impressionado e superestimulado pelo mundo ao seu redor e precisava do silêncio. ele não se achava diferente por isso, mas sim prejudicado. as coisas que ele via e ouvia eram demais para ele e ao mesmo tempo apenas o esperado do mundo real. mundo real. ele sentia seus ossos se contorcendo com o termo que se repetia em sua mente. ele sabia que aquele mundo era o que havia destinado para ele, mas o destino não parecia ser grande fã dele. foi o que ele sentiu quando viu mavrick pela primeira vez naquela caverna.
os olhos azuis inibriantes se levantaram e encontraram os seus. ambos dividiram um semblante parecido de pavor, mas por motivos diferente. o de mavrick mudou rapidamente, mas o de lucien permaneceu o mesmo. e seguiria conforme ele se afastava para o lado oposto depois de uma interação com o vampiro. ele sabia o que deveria fazer. deveria desprazer aquela criatura e tudo que ela representava. deveria sentir nojo da cena. jamais deveria ter voltado para casa e escrito aquela primeira carta, alimentando aquele sentimento em seu peito. deveria ter enterrado aquilo, para nunca mais ver ou pensar. mavrick poderia ter sido apenas um encontro noturno indesejado, mas não foi o que aconteceu. deitado em sua cama, com um lençol cobrindo sua cabeça e uma lanterna iluminando seu colo, lucien escreveu palavras tortas num caderno velho:
“Mavrick,
Você é desprezível. Tudo que você toca fica impregnado com o que você é e apodrece em silêncio. Essas frases feitas nunca fizeram tanto sentido. O seu cheiro ficou grudado em todos os lugares dessa cidade. Está nas ruas úmidas depois da chuva, nos becos onde a luz mal ousa entrar, nas folhas que farfalhejam com o vento de outono. Eu acho que ele sempre esteve lá, na verdade. Eu apenas não notei. Eu não notei o perigo que vivia tão perto de mim. De todos os lugares do mundo… Eu caminhei direto para você naquela noite, como uma presa fácil.
Se eu tivesse forças eu te mataria. Destruiria tudo que você ama. Porque eu não tenho força? Talvez eu nunca tenha o suficiente para ir contra um vampiro. O que resta de mim, quando não há forças de ir contra um monstro?
L.M.”
2000 - unchained melody by the righteous brothers.
ele se olhou no espelho uma última vez antes de sair. o nervosismo em seu rosto era dolorosamente ridículo. mavrick era uma criatura centenária e devia estar acostumado com pessoas caindo de amores aos seus pés. ele precisava se lembrar disso, pois se tudo desse errado… ele tinha uma boa desculpa. como ele poderia competir com todas aquelas pessoas que já haviam passado pela vida do lynch e tentado algo? ele era apenas mais um… mas no fundo, ele sabia que não era só isso. enganar o seu instinto era mais difícil do que parecia.
seu instinto era um problema por si só. estar vivendo como um alfa era novidade para ele. apenas quatro anos sendo o herdeiro da família montanari tinha moldado um novo cotidiano para ele. ele não era mais um menino inocente preso numa mansão. ele era quem sempre deveria ter sido. exceto que ele não se sentia assim. sua imagem no espelho refletia isso mais do que seu novo corte de cabelo ou seu terno cinza bem engomado. ele desviou o olhar para o buquê de flores que havia escolhido. o buquê era composto por rosas lavanda acinzentadas, um cravo lilás claro de pétalas recortadas, uma rosa spray rosada menor e uma protea em tom marrom-rosado com pétalas rígidas e alongadas. entre as flores havia um cardo roxo profundo, de formato espinhoso. a base do arranjo era formada por folhas largas e escuras de magnólia, acompanhadas de pequenas flores arroxeadas e alguns ramos secos e curvos que se projetavam para fora do conjunto. tudo estava envolto em papel cinza texturizado, dobrado em camadas ao redor das flores. era escuro, gótico, nada fofo. perfeito para mavrick. mesmo tendo certeza absoluta que aquilo seria algo que agradaria mavrick mais do que um buquê de rosas vermelhas espalhafatosas, ele ainda tinha medo de estar deixando seus sentimentos o guiarem mais do que a razão. o vampiro poderia achar estúpido e rir da cara dele, até onde ele sabe. lucien só queria fazer questão de que tinha feito tudo que podia para demonstrar o quanto estava apaixonado. verdadeiramente.
quando olhar para trás nesse momento, lucien suspiraria de alívio. e quando as noites seguintes e os outros encontros viessem na sua memória, também, ele saberia que fez o melhor que pode. que buscou os sinais sútis de mavrick para o que gostava ou não gostava. que fez questão de pagar tudo. de segurar portas. de ouvir o outro falar e deixar bem claro que não existia lugar no mundo onde queria estar além dali.
em uma das cartas escritas previamente ao seu momento de coragem, lucien escreveu:
“Queria quebrar a barreira que cresce entre nós dois. E é tudo culpa minha. Se eu a quebrar, se eu disser o que quero, você vai rir de mim? Achar que eu sou um idiota por querer ou que quero? Ou pior, vai dizer que quer o mesmo, mas apenas por um breve período? Eu não sei qual dessas respostas me destruiria mais. E é impossível não pensar nisso. Na destruição que você me causa. Já causa. É presente, mais do que uma premonição. Você me destrói e eu fico apenas esperando o próximo golpe.”
2002 - the scientist by coldplay.
o ano conturbado parecia não chegar ao fim. depois de começarem a namorar, passarem um tempo separados e reatarem o relacionameto, lucien se encontrava oficialmente morando no hotel. as portas do local já estavam abertas para ele há pelo menos dois anos, mas ele ainda não tinha tido coragem de dizer com todas as palavras que estava morando lá. agora, sim. suas coisas já estavam lá e ele, ainda que tímido, vivia livremente entre os hóspedes. já tinha seu espaço no guarda-roupa, sua escova de dentes no banheiro e seu lado da cama. ele ia trabalhar e sonhava com o momento em que poderia estacionar sua camionete de volta no seu lugar de sempre e veria na sacada do quarto de mavrick o seu namorado o esperando.
foi num dia de folga que ele se encontrou em tamanha situação de melancolia que chorava com uma música no seu ipod. as notas finais de the scientist termiaram, quando mavrick levantou o rosto ao sentir o peito de lucien tremer. ele tirou o seu lado do fone e buscou uma explicação no rosto do licantropo.
“por que… por que você está chorando?” e havia um princípio de sorriso ali, porque claro que tinha. ele sabia que lucien tinha ficado emotivo com a música, mas certamente não sabia o que viria a seguir.
“eu te amo.” lucien suspirou, aliviado. “eu te amo e eu não aguentaria mais ficar longe de você. se nós… se nós não tivéssemos feito as pazes. eu não sei, eu não sei… eu só te amo, muito.”
e depois de um tempo, mavrick iria colocar essa música apenas porque lucien gostava. porque o clichê da música combinava com eles. porque ambos sabiam o quanto se amavam. e davam valor para a felicidade que eles tinham, para a rotina, para os desentendimentos e as diferenças. porque mavrick guardava as cartas e agora lucien finalmente conseguia se expressar.
2006 - chasing cars by snow patrol.
ele tentou. ele olharia para trás e perceberia que tentou muito, mas talvez existisse algo que ele pudesse fazer diferente. porque ele se culparia para sempre por esse término. o primeiro sério. o que estabeleceu precedentes. ele escondeu o relacionamento deles de sua família o máximo que conseguiu, mas eventualmente… a notícia chegou nos montanari e a tragédia anunciada teve seu fim. ele entendia a dificuldade de entender como ele podia amar um vampiro, alguém como mavrick, mas ele jamais conseguiria entender como isso podia causar tamanha repulsa. tamanha contrariedade. e ele precisou fazer aquela escolha, por força, mas precisou. ele sabe que escolheu errado, agora. era essa sua chance de fazer diferente.
ele sabe, agora, que jamais vai amar qualquer pessoa daquela família como ama mavrick, mas naquele momento ele só queria ser aceito. ele só queria ser o filho que voltou dos mortos para salvar a família de um fim trágico. ele queria seguir o destino traçado para ele e no processo acabou sendo o culpado de tudo de ruim que viria a seguir. talvez se não tivesse trocado mavrick por sua família há vinte anos, eles nunca tivessem terminado de novo. e de novo. ele ainda seria a pessoa que mavrick ama, a que pode acordar ao seu lado todos os dias e viver aquela vida que lucien havia sonhado quando lia livros de romance na infância. se culpar era fácil, mas lucien se martirizou e transformou sua tristeza em obsessão.
a pintura viria como resultado, não como processo. ele viria a pintar dezenas de quadros de mavrick, buscando desesperadamente ainda se lembrar de cada detalhe do rosto dele. o vampiro nunca falou nada, mas para ele o fato de não poder tirar fotos do homem que amava era uma falta. pois ele sabia da possibilidade de um novo fim para eles, e quando esse fim chegou, lucien não tinha nada a se apegar além de coisas indiretas. roupas, principalmente. um colar. alguns CDs. nenhum registro real. os quadros se tornaram a única maneira de recordar mavrick quando ele quisesse. exceto, é claro, pelas vezes que lucien seguia mavrick por aí com sua camionete.
2007/2021 - linger by the cranberries.
o relacionamento deles, público e conturbado, havia se tornado problema de todos naquela cidade. quando eles reataram em 2011, ambos já estavam calejados das coisas vividas, mas o sentimento estava lá e ainda mais forte. apenas quatro anos depois, eles já estavam separados novamente. e em menos de três anos, juntos de novo. entre recaídas e declarações de amor intensas, lucien saia do hotel aos berros, mavrick quebrava coisas, lucien ameaçava colocar fogo no hotel, mavrick ameaçava lucien de morte, lucien acordava com o pescoço marcado de mordida, e mavrick também tinha seu pescoço massacrado. as brigas eram muitas, mas eles não aguentavam ficar muito tempo longes um do outro. a ideia de deixar de viver aquilo por besteiras era torturante. eles encontravam razões para estarem juntos.
eles estavam separados há quase três anos quando reataram pela última vez. o ano era 2018 e lucien voltava do seu último turno nos bombeiros com linger do the cranberries tocando no rádio falho da sua camionete. ele passava sempre pela mesma rua, além de ser bem movimentada, mavrick estava entrelaçado no seu motivo. como tudo que ele fazia na vida. naquela avenida, o restaurante do primeiro encontro dos dois ainda se encontrava ativo. era um pequeno sobrado que abrigava um restaurante italiano tradicional. ele conhecia a família dona do local e eles o tratavam com muito carinho. na noite do primeiro encontro deles, lucien havia pedido o vinho mais caro do cardápio e havia pago em muitas parcelas. mais do que qualquer restaurante aceitaria. só de pensar nisso, seu peito doía. não por arrependimento pelos turnso que trabalhou para pagar por aquela noite, mas por todos os erros que tinha cometido que o trouxeram até ali. ele não pretendia estacionar, mas o que viu o fez quase bater no carro da frente. dentro do restaurante, mavrick estava sentado na mesa do primeiro encontro deles. ele estava arrumado, perfumado (lucien conseguia sentir o cheiro do outro mesmo do lado de fora) e esperando alguém. alguém que não era ele. seus passos foram automáticos. ele entrou sem fazer cerimônia, quase quebrando o vidro da porta no processo. puxou a cadeira e sentou-se na frente de mavrick. não tinha um plano, mas tinha muito a dizer.
“você não tem esse direito.” estava engolindo sua fúria a cada palavra. o desespero transpareceu e ele não tinha muito orgulho disso, mas mavrick pareceu gostar. lucien soube imediatamente que eles causariam uma cena ali. “lá fora. agora. fora. fora daqui, agora. vamos, levanta!” ele bateu na mesa na última palavra, levando sua mão até a de mavrick, que estava sobre a mesa. ele não lembra com detalhes como eles chegaram na rua, mas chegaram. ele lembra de brigarem antes disso. mavrick era teimoso, bem mais do que ele. mas lucien sabia implorar. o que lembra, é que rapidamente ele já estava chorando. desesperado.
“você não tem esse direito! como você pode fazer isso comigo? você…” ele estava com os olhos transbordando com as lágrimas que ele tanto queria esconder. ele se sentia patético. mavrick tinha o dom de fazer ele esquecer quem ele era. “esse é o nosso restaurante, mavrick…” sua voz estava acabando e ele sentia sua garganta doendo de angústia. “eu não sou maluco de tentar controlar o que você faz ou quem você encontra. mas isso? isso aqui é demais!” ele tentava manter sua distância, mas era cada vez mais difícil. ele lembra da dor e lembra do desespero. e lembra de implorar, também. “eu não aguento viver sem você. é o que você quer escutar? quer que eu me ajoelhe aqui e implore por você de volta? eu não aguento a ideia de que você estava aqui esperando outra pessoa! sabendo… sabendo o que isso faria comigo. sabendo que meu amor por você não morreu.”
horas depois, quando lucien beijava o corpo de mavrick no quarto deles, ele imploraria novamente. imploraria por uma vida. por aquele amor interminável. dessa vez era diferente. ambos sabiam disso, de alguma maneira. as coisas que haviam feito eles se separarem no passado já não os impediam agora.
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o universo achava sua maneira de separar os dois. a aliança deles tinha sido a última coisa que ele tinha visto antes de se transformar e também a primeira coisa que viu quando voltou. a presença de grazia tinha desencadeado a transformação fora de época e seu corpo não estava preparado. ele não lembrava de nada, mas as coisas rapidamente foram voltando para ele. lucien tenta não pensar nesse dia. nas coisas que fez, nem nas escolhas que tomaria depois. ele tenta focar na imagem de mavrick preocupado com ele. tenta esquecer a parte em que mavrick descobre tudo que aconteceu. na forma como seu rosto enrijeceu. na maneira como terminou as coisas. na maneira como quase terminou com a sua vida. como jurou que nunca mais teriam algo. como o amor deles morreu e apodreceu bem na sua frente. lucien tinha conseguido. ele tinha destruído tudo e dessa vez ele não achava que poderia consertar as coisas. ele havia lutado a vida inteira para sobreviver, e depois para não ser visto como uma anomalia. como um monstro. e agora ele havia se reduzido a isso.
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a primeira transformação acorrentado aconteceu alguns meses depois do término com mavrick. ele passou um tempo afastado de todos, mas quando voltou ele sabia o que precisava fazer. suas transformações erráticas eram perigosas demais para ele ignorar. se ele fizesse qualquer coisa para machucar mavrick ele não conseguiria viver consigo mesmo. mesmo que estivesse tentando viver uma vida normal, ele sabia que quando estivesse em sua forma de lobo ele poderia deixar seu instinto o levar até o vampiro e ele não poderia lidar com isso. ele mesmo construíu a gaiola no seu porão. ele sabia muito bem que aquela gaiola o prenderia por tempo o suficiente nas noites de lua cheia. sua família perguntaria por ele, mas ele podia inventar algo.
quando acordou da primeira transformação, havia deslocado ambos os ombros e aberto um corte do seu joelho até a parte externa do seu glúteo. a dor o cegou e voltaria a acontecer pelos anos a se seguir. seria sua penitência por seu descontrole emocional. seria uma lembrança de que havia deixado vampiros controlar sua vida a tal ponto. ele era um perigo para as outras pessoas, mas principalmente para aqueles que amava. para aqueles que sempre amaria. para aquele que mesmo no seu estado mais primitivo, conseguia inundar sua mente. lucien iria se manter preso naquela jaula, construída por ele mesmo, desejando estar livre. desejando que as cicatrizes que agora já se sobrepõe em certas partes de seu corpo sejam lembrança suficiente do motivo pelo qual ele nunca mais pode implorar por um perdão que nunca virá.
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“o que você está fazendo?” a voz de lucien saiu um pouco rouca do sono. ele estava deitado na cama deles, encolhido contra o travesseiro. mavrick não dormia, mas lucien sempre pedia que eles deitassem juntos. gostava de dormir abraçado nele e também gostava da sensação de normalidade naquilo.
“eu estou observando você dormir.” a resposta veio com tamanha naturalidade que lucien se perguntou se aquele já era um fato de conhecimento dele. ele tirou o capuz do moletom da cabeça e se espreguiçou, mudando de posição, mas ainda mantendo seu rosto virado para mavrick.
“você sempre faz isso?” não tinha nada negativo em sua voz e sim um carinho. ele sabia que mavrick tinha que fazer alguma coisa para se distrair enquanto ele dormia, mas não imaginou que fosse aquilo.
"às vezes. eu não queria seguir o livro sem você." mavrick deu de ombros, e lucien percebeu que mavrick ainda tinha sua cópia antiga de persuasão no colo. ele estava morto depois do seu último dia de trabalho e havia chegado em casa ansioso pelo momento em que mavrick iria finalmente escolher um livro para eles lerem juntos e para a surpresa de ninguém, ele havia escolhido um título já conhecido por lucien. fazia parte.
"eu já li ele muitas vezes, não precisava ter parado. independente de onde você seguisse lendo, eu não iria me perder." lucien garantiu, levantando da cama e indo até o outro. pegou o livro e folheou algumas páginas a mais enquanto enquanto pegava mavrick e o puxava para o seu colo.
"eu não quis. se não terminarmos hoje, eu alugo o filme para mais um dia." mavrick garantiu. eles tinham alugado o filme de 2007 no youtube. mesmo a contragosto de lucien, que revirou os olhos.
"eu não quero ver aquele filme. aqueles atores..." ele soltou um suspiro. "eles não são a anne e o frederick." ele garantiu, como se os personagens fossem seus amigos próximos. "eles não são daquele jeito. nem um pouco."
"e como eles são?" mavrick perguntou, encantado com a indignação de lucien. o licantropo sabia que ele estava pronto e preparado para fazer alguma provocação, só não sabia como ou quando viria.
"a anne, bem... eu não sei direito. ela nunca tem rosto na minha imaginação. fica sempre mudando. uma mistura de várias atrizes." ele deu de ombros, o que fez mavrick franzir o cenho. para alguém tão indignado, lucien certamente não tinha certeza do que falava.
"e o frederick, como se parece?" esperando uma resposta tão duvidosa quanto a anterior, mavrick não estava preparado para a rapidez que lucien respondeu:
"com você, é claro." deu de ombros, porque aquilo era a coisa mais óbvia possível. porque, em algum momento, lucien percebeu que todos os livros de romance eram sobre mavrick. não importava qual história ele abrisse, qual página escolhesse ao acaso. era como se cada história de amor que já tinha existido ou fosse existir estivesse apenas tentando explicar aquilo que mavrick era para ele. como se cada verso triste, cada despedida, cada reencontro escrito no mundo tivesse sido feito para dar nome àquilo que ele sentia. todo livro, todo filme, toda música, tudo era sobre mavrick. e ele prometeu que nunca mais o machucaria e que precisava fazer o que fosse preciso para manter aquela promessa.
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odiava quando o licantropo estava certo e odiava ainda mais porque não havia como negar. ele realmente passava madrugadas inteiras observando lucien enquanto o mundo seguia e ele permanecia desperto, imóvel na poltrona ou sentado na beirada da cama, preso no peito do outro subindo e descendo enquanto dormia. às vezes aquilo o irritava tanto que o acordava sem motivo, só para tê-lo consciente e para que pudesse ouvir a sua voz. outras vezes ficava ali por horas, satisfeito apenas em olhar. e não era só dormindo. era pintando, vestindo o uniforme ou até mesmo caminhando na rua sem perceber que estava sendo seguido. geralmente, lucien sabia. e se mavrick não podia negar aquela verdade absoluta, então ele agiria com indiferença. ‘ então deixe-me consertar: você não é mais tão interessante assim. ’ ele precisava dizer aquilo. precisava diminuir o peso que lucien ainda tinha. porque não fazia sentido. não depois do que aconteceu. não depois de quase perder o irmão. a lembrança voltou, e junto dela, a raiva que ele se obrigou a cultivar durante quatro anos para manter distância. como alguém que quase matou seu sangue ainda podia ocupar espaço em seus pensamentos? como ainda podia provocar aquele desejo que ardia dentro dele? ele estava fazendo um esforço absurdo para não ceder, para não deixar que aquela necessidade antiga voltasse. e tinha conseguido por anos, mas aquela situação era diferente. ele queria lucien naquela sala. ele queria lucien. a indiferença que tentou vestir não passava de uma camada fina demais para esconder o que vibrava por baixo. enquanto lucien falava, mavrick permaneceu imóvel, mas por dentro cada palavra encontrava exatamente o lugar certo. o maxilar travou porque ele se recusava a demonstrar que estava satisfeito. não daria a lucien o prazer de saber que era exatamente aquilo que queria ouvir. sentir-se amado através das palavras do montanari era um vício antigo, mas não permitiria que aquela entrega apagasse o que os levou a terminar. então apenas ergueu os olhos para o espelho, fixando o reflexo de lucien atrás de si, e deixou um sorriso lento repuxar no canto dos lábios. ‘ vejo que você ainda sabe obedecer. ’ precisava manter a superioridade. precisava manter o controle, mesmo que por dentro estivesse incendiado. quando lucien começou a tirar o blazer, mavrick sentiu a própria respiração falhar por um segundo. o desejo respondeu imediatamente, direto entre as pernas. ao ouvir a provocação, os lábios inferiores repuxaram para baixo enquanto ele dava de ombros. ‘ as três opções. e por isso, você vai ficar… ’ ele se virou e a mão subiu direto à gravata de lucien, puxando com força suficiente para forçá-lo a girar. ele tomou a posição que queria, invertendo-os até que o outro estivesse de frente para o espelho. lucien era mais alto, mas isso nunca o intimidou. ‘ aqui. ’ aproximou-se por trás, colando-se o suficiente para que o licantropo sentisse sua presença sem que ele precisasse tocá-lo de verdade. levou a boca até o ouvido dele e sibilou. ‘ a camisa, agora. depois o cinto, a calça... você sabe como funciona. ’ se afastou novamente, posicionando-se de modo que tivesse visão clara do reflexo. estava desesperado, sim, mas também queria cada segundo esticado ao limite.
quando você se relaciona com alguém como mavrick, você eventualmente cria uma casca contra as coisas as quais são ditas por ele. elas são para machucar e afastar, mas nem sempre são genuínas. lucien precisava se lembrar disso. depois de vinte e seis anos e muitos términos, ele precisava se lembrar. ele sabia disso, pois ele também fazia a exata mesma coisa. quantas coisas odiosas ele já não havia dito para mavrick? mesmo quando seu peito tinha a mais absoluta certeza de que ele o amava tanto a ponto de doer. "você e eu sabemos que isso não é verdade." foi tudo que conseguiu dizer. lucien não era confiante o suficiente para achar que ele sempre seria interessante para mavrick. uma hora isso iria acabar. eles já tinham tido brigas por isso, mas nada tira tal coisa da cabeça do licantropo. uma hora ele ficaria entediante, mas essa hora não era agora. ele sentia o corpo de mavrick contra o seu e ele sabia perfeitamente que não era agora. amor era fácil de disfarçar, pois eles haviam feito isso por anos. de novo e de novo. agora desejo? lucien olhou seu próprio reflexo e viu que sua imagem o entregava. seus olhos estavam escuros com a dilatação de sua pupila, havia uma leve camada de suor no seu rosto e também um rubor inegável. sua boca entreaberta agora fora fechada com um movimento brusco demais. "você não…" ele começou, com uma irritação crescendo em seu peito. ele não queria obedecer a ninguém, mas foi o que ele fez. ele não podia nem ao menos lutar contra isso. ele tinha obedecido mavrick como o cãozinho bem mandado que era. lucien soltou um grunhido de dor. não era dor física, mas era como se fosse. não queria mavrick naquela posição de superioridade. ele sentia falta do outro, mas nesses momentos ele lembrava o porquê de eles brigarem tanto. eles nunca chegavam em comum acordo.
quando o vampiro o respondeu e mudou de posição, lucien ficou um pouco zonzo. ele já estava embriagado com tudo aquilo, e a demonstração de força de mavrick foi o último prego no seu caixão. eles tinham uma certa diferença de altura, lucien sendo bem maior, mas o outro era mais forte. ele jamais poderia competir com a força de um vampiro e ele gostava disso. ele sentiu a mão de mavrick navegando pelo seu corpo, soltando um suspiro quebrado no processo. patético. ele fez como foi instruído. tirou a camisa, o cinto, mas antes de abrir a calça ele parou. de repente, ele teve a percepção de quão exposto estava. e teve, também, a percepção de que mavrick ainda não tinha visto as suas cicatrizes. ele jamais poderia explicar aquilo, então não se permitiu mais que dois segundos para pensar antes de decidir que precisava que o loiro tirasse suas roupas também. lucien virou, ficando de costas para o espelho e levou suas mãos para o paletó de mavrick. "você está usando muita roupa. isso não é justo, não é?" ele precisava distrair o outro. precisava mudar o foco. precisava apagar uma luz, ou algo do tipo. foi quando seus dedos começaram a mexer na roupa do vampiro que seus sentidos foram inundados com o cheiro de outras pessoas e ele sentiu vontade de vomitar. não figuradamente, mas literalmente. era um cheiro repugnante. "você está fedendo." e de dentro do seu peito o mesmo gemido de dor de antes escapou de novo. era o som de um animal chutado. ele começou a negar com a cabeça como se aquilo fosse errado. "você está fedendo a outras pessoas." lucien enfiou seu rosto no pescoço de mavrick, sentindo uma raiva crescendo em seu peito. ele queria arrancar aquele cheiro do outro. lucien esfregou seu rosto ali, seu nariz pressionado na pele macia do outro. ele sempre amou fazer isso. amou deixar o seu cheiro para trás, para que todos que chegassem perto de mavrick soubessem. o fato de que outras pessoas podiam fazer isso agora faziam com que uma sensação horrível tomasse ele como um soco na boca do estômago. "tira essa roupa. tira essa roupa agora." seu tom era mais firme, mas também era desesperado. ele não queria mais aquela roupa nem mais um segundo emanando o fedor de perfume de estranhos. ele sabia que se mavrick não o fizesse, ele iria arrancar elas dele e rasgaria cada centímetro daquela alfaiataria cara.
Com três goles da garrafa que tinha pego para eles, Marce se viu quieta após a confirmação de sua pergunta. Era algo obvio, claro que ele era bom para guardar segredos. Lucien era bom em tudo. "— Vai soar como algo idiota." Disse baixinho, pensativa. Não era costume soar assim ou ser vulnerável. Talvez ele só trouxesse esse lado à tona. "— As vezes eu sinto inveja de você." Não teve o tato necessário e logo o encarou fixamente, tomando mais um pouco da garrafa. "— Todo mundo sempre pareceu te amar com facilidade. Só que essa não era minha inveja. Tem haver com os Lynch." Fez uma cara de desgosto, entregando a bebida para ele e ficando na visão estrelada que tinham. "— Acho que não é isso que eu quero falar exatamente. É algo mais idiota ainda." Se sentiu com doze anos falando para Elias que queria uma Barbie de aniversário, pois nunca tinha tido uma. O quão idiota tinha se sentido naquele momento. A mesma sensação de pequenez. "— O segredo é que eu queria que o Mavrick gostasse de mim. Pelo menos um pouco." Segundos de silêncio se arrastaram e sua expressão neutra ainda não tinha mudado. "— Não Hemrick, não. Por vários motivos. Mavrick é só... confiante, cheio de sucesso, pode fazer o que quiser quando quiser. Ele é horrível em vários sentidos, e não consigo evitar de no fundo, bem no fundo, esperar que eu consiga mudar. Porque meus pais eu sei que talvez seja impossível." Suspirou, os ombros caindo em derrota. "— Esse é o segredo. Patético, eu sei."
ele estava negando com a cabeça antes mesmo dela terminar a primeira frase. nada era idiota na vida que eles tinham e ele sabia muito bem disso. mesmo com suas diferenças, que eram enormes, os dois tinham seus momentos conturbados. e tanto. lucien bebeu um gole longo de sua bebida enquanto escutava. ele escutou com calma a explicação, negando e concordando aos poucos. ele não queria interromper ela, pois marcelene estava visivelmente chateada com tudo aquilo. "não diga que é patético." foi a primeira coisa que disse. esticou sua mão para tocar na mão dela, carinho transbordando em seu toque. licantropos eram família acima de tudo, mas lucien não era apenas sobre família de sangue. sua família sanguínea o havia abandonado e ele havia sido criado por vampiros. já era disfuncional por si só, mas o carinho que ele tinha por ela aumentava ainda mais o seu problema. "você sabe o quanto eu amo o mavrick. mesmo agora, ainda existe uma parte de mim que ama ele... mas ele é um grande idiota." soltou um longo suspiro, pensando em todas as brigas que eles já tiveram. até por marcelene eles já tinham brigado. há vinte e seis anos ela havia nascido e há vinte e seis anos ele se apaixonou por mavrick pela primeira vez. há vinte e seis anos, também, lucien sabe que mavrick não sabe lidar com crianças. e com pessoas. e com nenhuma criatura além de si mesmo e hemrick. "eu entendo o seu desejo de ser amada por ele, mas não o admire por seu sucesso e liberdade. ele tem duzentos anos, é meio que a obrigação dele ter sucesso e fazer o que bem entender. o que não é obrigação dele é te tratar como ele te trata. é uma escolha e isso só mostra o quanto ele não vale a pena." seu tom era calmo, como se falasse com alguém feito de vidro. ele sabia que não era assim. ele sabia que marcelene era forte o bastante, mas ao mesmo tempo seu instinto não permitia agir de outra maneira. "nada do que eu disser vai mudar o que você sente, eu sei disso. mas tenta sempre se lembrar que ele não vale a pena. e que eu te amo."