Dichavando o mito - Entrevista com Denis Russo Burgierman
Denis Russo Burgierman é jornalista, escritor, curador e um dos personagens mais influentes do ativismo pela legalização da maconha no Brasil (e, em suas próprias palavras, um homem “interessado em sistemas complexos e em como alterá-los”). Diretor de redação da revista Superinteressante e colunista da revista Vida Simples, onde escreve sobre inovação, transformação e sustentabilidade, hoje cria estratégias de engajamento cívico nas empresas Webcitizen e TEDx.
Em sua carreira ampla no jornalismo, há mais de uma década ele pesquisa sobre a maconha e publica artigos sobre o tema desde o início de suas pesquisa. A discussão aberta por seus artigos e seu livro, Maconha, publicado pela Editora Abril em 2002, é reacendida em O fim da guerra: a maconha e a criação de um novo sistema para lidar com as drogas, livro publicado pela Editora Leya em 2011 e que desde seu lançamento tornou-se referência sobre o assunto.
Com argumentos fortes, Denis desconstrói neste livro a ideia de que a maconha é tão nociva quanto as drogas sintéticas (como a heroína, por exemplo). Desta forma, Burgierman relata o que percebeu de suas viagens à Holanda, Califórnia, Espanha, Portugal e Marrocos: diferentes soluções para essa problemática que respeitam as particularidades étnico-sociais dos grupos de cada região. Podemos ver, através das iniciativas da Holanda, onde o uso de drogas é encarado muito mais como um problema de saúde do que de segurança pública (e essa pequena mudança de visão levou à diminuição drástica do número de dependentes químicos), e da Califórnia – um dos poucos estados norte-americanos em que o uso de Cannabis é indicado no tratamento à base de ervas para várias doenças – que é possível criar políticas que não reprimam o uso da cannabis nem compactuem com o crime organizado, direta ou indiretamente.
Denis Russo Burgierman concedeu entrevista ao Join(t) Us, na qual fala sobre sobre a Cannabis sativa abertamente e sobre os seus efeitos na sociedade. Confira abaixo.
Joint Us: Denis, fale sobre o contexto político-histórico de como foi declarada a guerra às drogas.
Denis: Foi essa história, essa mistura meio explosiva que veio a explodir a partir dos anos 60 já com a ONU zelando institucionalmente pela proibição, criando as bases legais da guerra contras as drogas, os tratados internacionais que serviram de base pra guerra contra as drogas. Daí a explosão de contracultura na década de 60, que leva uma reação e nos anos 70 a guerra começa.
Nixon é eleito presidente dos Estados Unidos, no final dos anos 60 com uma plataforma de lei e ordem até como resposta aquela molecada hippie que tava assustando todo mundo, tomando as ruas das cidades, e ele sobe ao poder com essa proposta. Tipo, “vamo brigar, vamo tentar lidar com isso com repressão” e é esse o período que começou nos anos 70 e que tá chegando ao fim, não sei se hoje, não sei se ano que vem, não sei se em 2016 na próxima convenção da ONU, não sei se daqui a 50 anos, porque tem forças muito entranhadas no poder que tem muito interesse em manter as coisas do jeito que estão e mais do que tudo porque tem uma ideologia muito enraizada na cabeça das pessoas.
As pessoas acreditam ainda muito firmemente que proibição é o melhor jeito de lidar com a questão porque as drogas são perigosas e elas são mesmo, então a guerra contra as drogas é a única coisa que você pode fazer. E daí parte da história do livro (O fim da Guerra) é mostrar que não é a única coisa, tem outras abordagens possíveis e não só são possíveis como elas dão muito mais certo, inclusive para reduzir o uso de drogas.
Join(t) Us: Na Holanda há os coffee shops e as pessoas frequentam esses locais para realizarem a compra e o consumo da maconha. Seria esse um meio interessante pra que legalizar esse consumo no Brasil?
Uma coisa que você pode dizer facilmente sobre a experiência holandesa é que tem uma falha importante nesse sistema: a ideia de você regulamentar a porta da frente do coffee shop mas não a porta de trás. Você cria um canal de fornecimento pro público mas não cria um canal de fornecimento pros fornecedores do público, e isso gera incoerências que a longo prazo vão resultar em efeitos indesejáveis, você tem que pensar cadê a toda, as soluções tem que ser sistêmicas. Então acho que nesse aspecto específico, o sistema holandês tem uma falha. É, e é natural que seja assim, eles foram a primeira experiência, eles são muito pioneiros. Uma coisa de 40 anos, que eles estão experimentando e inventando e naquele tempo parecia que o único jeito de fazer era aquele. Mas tenha certeza que os formuladores de política pública da Holanda hoje em dia estão olhando para países como a Espanha, e o Uruguai pra tentar entender esquemas mais contemporâneos, mais modernos e que não tenham as mesmas incoerências dos sistemas deles.
Quanto ao conceito holandês de criar áreas específicas e proibir o uso público, controlar o uso público e criar áreas específicas, eu não vejo, não acho que seja essencial para uma política funcionar. Acho que é, convivência, no geral eu gosto mais de modelos que estimulam a convivência; e que pra quê ficar segregando as coisas. Mas eu acho que é um sistema que tende a ter mais a aceitação pública, porque no mundo inteiro a escolha da sua droga é um tema muito polêmico e difícil. Inclusive na Holanda tem gente que gosta de certas substâncias, tem gente que odeia, tem gente que gosta do efeito, tem gente que acha o efeito ridículo, e isso vale pra maconha, vale pro álcool, vale pra tudo. E você segregar e criar áreas onde pode, onde não pode é um jeito de lidar com essa tensão, você não obriga alguém a conviver com gente fazendo algo que você acha errado. E eu acho que o caminho tende a ser mais ou menos por aí, você permitir o uso em lugares licenciados, permitir o uso privado ou porque daí o estado não tem nada a ver com aquilo que você faz privadamente e restringir o uso público até para evitar o uso muito visível que pode ter efeitos de influência, as pessoas ficam com essa preocupação se as crianças vêem os outros fumando maconha vão querer fumar também.
Essa é uma lógica um pouco parecida como a lógica do álcool no mundo da sacção, quando eles pensam o álcool que geralmente é uma coisa que não pode ser consumida em público, aquela história que você vê nos filmes americanos o cara bebendo cerveja no saco de papel pardo, os caras driblando essa proibição mas não pode, você não pode nem beber cerveja publicamente. É uma coisa que nós podemos e que sabemos o prazer que é um ‘choppinho’ na calçada num dia de verão como no dia de hoje, é meio ridículo. Não parece uma restrição aceitável, ainda mais ninguém sabe muito bem se essa história de influência é verdade ou não, é uma coisa difícil de provar mas no caso do tabaco a história de proibir em lugares fechados por exemplo acho que está além de qualquer dúvida de que isso é o certo a se fazer, mas aí tem um fator a mais além da influência que é o fator do fumo passivo que comprovadamente é perigoso, pois o fumante pode causar danos a terceiros. Eu acho que enquanto não tem muita certeza de que não tem nenhum dano a terceiro ainda mesmo que por influência a ideia de segregar, de criar lugares licenciados e controlados me parece razoável, me parece uma concessão dos direitos individuais razoável a ser feita diante de um risco que pode existir mesmo, que não tem como descartar.
Join(t) Us: Não sabemos se você já viu mas existe um comercial anti-drogas americano que condena a maconha e mostra uma menina derretendo no sofá enquanto falam: “Ah, ela está assim lesada desde que está fumando maconha.” Você acha que esse conservadorismo que vem da mídia tanto brasileira quanto americana vem de que público, de que tipo de pessoa, de que classe? Sabe-se que esse conservadorismo vem de algum lugar que não é das pessoas que conhecem a droga. Então, nós gostaríamos que você falasse um pouco sobre isso a influência da mídia e de onde vem essa visão conservadora.
Eu acho que vem em parte de uma crença, não é só o fato da pessoa não conhecer. Eu acho que tem uma crença disseminada na mídia e nos setores de comunicação em geral de que nosso papel nessa história é assustar as pessoas. De que o certo, o que você precisa fazer é assustar as pessoas porque se você não fizer isso elas vão ficar curiosas, vão querer experimentar e elas vão se dar muito mal. E daí mente-se, e mente-se às vezes até conscientemente. Eu acho que tem, não acho impossível que até na equipe desse comercial que vocês descreveram tivesse gente que conhece muito bem os efeitos e que sabe muito bem que não é bem assim. Mas ainda assim, está muito entranhada a ideia de que é isso que a gente tem que fazer, porque é esse o nosso papel social, porque é importante que alguém faça isso.
Acho que há algumas confusões, e uma das confusões é essa ideia de que o medo serve como proteção. Essa ideia está muito desmoralizada, está muito claro que isso não dá certo. E daí o exemplo do tabaco, eu acho que é um exemplo interessante de novo porque, as pessoas tem medo do tabaco sim e as campanhas, elas são assustadoras. Só que o medo que as campanhas do tabaco transmitem é um medo muito real, são inclusive fotos verdadeiras, aquelas fotos que me embrulham o estômago que eles colocam lá na padaria. O sucesso das campanhas de tabaco não tem a ver com mentira, tem a ver com disseminação de informação. Eu acho que uma coisa que seria importante entender é que nosso papel é esse, é disseminar informação para que as pessoas tomem uma decisão mais bem informada, para que as pessoas decidam melhor.
Agora eu vou tomar um café com uma pessoa que inclusive trabalha aqui na Abril e que é um usuário medicinal de Cannabis, ele tem esclerose múltipla e um quadro em que claramente Cannabis é muito útil pra ele. Ele não tem dúvidas disso, ele teve três grandes recaídas na história dele da doença, nas três vezes em que ele estava sem Cannabis. Ele consegue manter a doença perfeitamente sobre controle quando ele tem acesso, ele não tem dúvidas disso. Nunca nenhum médico disse isso pra ele, porque nenhum médico nunca vai dizer isso pra ele. Esse cara conta que ele descobriu desse valor medicinal numa matéria que a gente publicou aqui na revista há 11 anos atrás, ele não sabia disso, e o médico dele não disse isso pra ele. Aliás, o médico dele quando o diagnosticou com esclerose múltipla disse pra ele se preparar para morrer e o deixou deprimido e sem nenhuma esperança de viver muito depois desse diagnóstico e ele está super bem. Eu penso que ali nós fizemos o nosso papel, quando fomos e demos a informação verdadeira. Ok, estava ali escrito que há 9% dos usuários de maconha que desenvolvem dependência.
Está claro hoje em dia pra gente que tem uma pequena porcentagem de usuários de maconha que podem desenvolver uma pré-disposição a psicose, esquizofrenia e que pode se dar muito mal com maconha e tem uma pequena porcentagem que vai se dar bastante mal porque pode ter problemas com motivação, pode ter problemas com se enquadrar na vida. E na idade escolar eu acho que tem muita gente que pode que tem problemas no aprendizado dependendo do modo em que se faz o uso, porque você fica fora da memória de curto prazo, e numa memória de curto prazo é fundamental pra você gravar uma memória de longo prazo. Se você passa um ano inteiro da escola chapado, você não vai aprender nada, isso pode não danificar seu cérebro como os mentirosos dizem mais vai ter efeitos na sua vida. Assim, tu vai atrapalhar a sua formação, então tem riscos e tem certas pessoas que correm riscos grandes e que realmente tem que ter muito cuidado de evitar que menores de idade tenham um acesso aberto. Tem que ter muito cuidado de entender quais são os padrões que não são positivos, mas tem que se dizer também que há certas pessoas que podem ter sua vida saudável com a Cannabis, e gente que tem necessidade dessa substância. As pessoas se relacionam de modo diferente com cada substância, eu não posso comer pão, porque eu tenho intolerância ao glúten e isso não quer dizer que a gente tenha que proibir o glúten, ou que a gente tenha que proibir o pão. Mas eu tenho que saber o quê que eu posso e o que eu não posso e assim tomar uma decisão informada. O nosso papel é informar as pessoas é mostrar pra cada um que risco está correndo, quem corre risco, quem não corre quem precisa quem não pode.
O Fim da Guerra: A maconha e a criação de um novo sistema para lidar com as drogas
Indicado para pessoas que não se constrangem ao falar ou pensar sobre o uso de drogas, principalmente da maconha, O fim da guerra é um livro de leitura obrigatória, pois o modo como nossa sociedade lida com as drogas é um assunto que diz respeito a todos – usuários ou não.