FLASHBACK
Kemet observou Morgan atentamente enquanto ela falava, reconhecendo a honestidade em cada palavra. Ele inclinou levemente a cabeça, como se considerasse cuidadosamente a pergunta dela antes de responder. “O que faço com a dor?” Ele repetiu, deixando a pergunta pairar por um momento no ar. Seus olhos escureceram ligeiramente, não de raiva, mas de um peso que parecia eterno. “No começo, eu a usei como combustível. Era mais fácil assim. Transformá-la em algo que me movesse, algo que me tornasse mais forte. Mas isso é uma faca de dois gumes, Morgan.” Ele passou os dedos pelas cicatrizes novamente, desta vez com mais intenção, como se revisitando velhas lembranças. “Você pode se perder nesse processo, tornar-se apenas uma sombra do que era antes. Com o tempo, aprendi a carregá-la de outra forma, como um lembrete, não como um fardo. Não é fácil, e há dias em que ela pesa mais. Mas ela também me ensinou a ser mais cuidadoso com as escolhas que faço agora.” Deu um passo mais perto, a voz assumindo um tom quase paternal, mas sem soar condescendente. “Quanto ao tempo… é engraçado, não é? Quando eu tinha sua idade, sentia o mesmo. Como se cada passo fosse em um caminho que eu não entendia completamente. Talvez ainda seja assim, em parte, mesmo agora. Mas não precisa saber tudo de imediato. Você está exatamente onde deveria estar, aprendendo ao seu ritmo. Essa fome por conhecimento que você tem… segure-a com força. Ela vai guiá-la melhor do que qualquer mapa.” Ele fez uma pausa, deixando as palavras se assentarem antes de continuar. “E quanto ao começo… começar é sempre o mais difícil. O resto, você descobre conforme avança. Cometa erros, aprenda, cresça. O tempo vai completar o que restar.”