já pensou se, por acaso, um erro grave, desse uma gangrena no tempo e eu para sempre assim ficasse? eu viveria numa casa rebocada de algodão, às vezes flet, outras kitnet, as paredes sempre mudam, e o teto sempre se mexe. entre as frestas das telhas o ouro escorrendo amarelo, e os tijolos brilhando e abrindo passagens, limiares de diversas dimensões e universos paralelos. que eu vivesse caindo e caindo em buracos aleatórios espalhados pelo chão, e ao pousar, que houvessem árvores, favelas, delírios psíquicos e divãs.
e que às vezes crescessem em mim, tal qual ave, asas e penas, olhos de gavião, e pelos planaltos, planícies, dobrando esquinas, eu voasse por aí, sem destino e sem direção. ai, meus deus, que essa gangrena no tempo realmente desse, e eu ficasse para sempre sobrevoando o desconexo. as pupilas dilatadas, sentir as luzes fazerem cócegas em meu cérebro.
zarpar fora da realidade para sempre, nunca mais viver o que disseram ser o certo. e quando eu morresse, que nascessem, do meu pútrido corpo, cogumelos, e deles fizessem um chá que não houvesse quem tomasse e retornasse à tediosa sufocante sanidade.