Ao longo de sua imortalidade, pôde viajar para todos os lugares e em todos os períodos. Havia conhecido os continentes, países, impérios, repúblicas, paisagens e estradas. Estudou números, letras, línguas, anatomia, literatura e todas as obras de arte. Sentiu todos os cheiros, comeu quase todas as comidas, ouviu quase todas as músicas. No entanto, apesar de ser um grande conhecedor do material e do tempo, nada o fascinava e o intrigava tanto quanto as pessoas. Um fascínio misturado à estranheza e ao medo. O ato de observar o falar, o andar, o sorrir e o chorar alheio era, para ele, extraordinário. Costumava analisar, com gosto, os pedestres caminhando apressados e distraídos, ignorantes sobre suas insignificâncias perante o universo e os sentidos da vida, os rostos exaustos, os corpos agitados, imersos em suas turbulências e ocupações. Eram complexos; uma hora contentes, outrora amargurados e melancólicos. A vastidão do coração era seu estudo favorito, os sorrisos, os beijos, os abraços e as lágrimas. Perguntava-se se algum dia sentiria aquele calor outra vez — o queimar insuportável de um coração partido ou o êxtase da paixão, o temor das partidas, a dor de um joelho ralado, a falta de ar após uma grande corrida. Escrevia, portanto, acerca da valorização do que era do coração, do que vinha da alma, do animado e do abstrato. O que não notava era que, ao deslizar a tinta da caneta pelo papel pautado, sentia-se vivo e era tomado por um misto, uma adrenalina e uma vontade de viver. Amava, odiava, chorava e sorria. Sua humanidade fazia-se presente.